Verdades da boa fé contra patranhas de marketing, por José Nêumanne

Publicado em 31/07/2013 14:12
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Dilma reduziu nossa História a 10 anos e o papa lhe respondeu com 20 séculos de sabedoria... (Publicado na Pag.A02 do Estado de S. Paulo de quarta-feira 31 de julho de 2013)

Em nome da fé já se fez muito bem. Mas também muito mal. Do ponto de vista religioso, a mesma Igreja Católica em que militou o inquisidor Torquemada deu os dois Franciscos – o santo de Assis e o bispo de Roma. A política (do grego, pertinente aos cidadãos) republicana (do latim, referente à coisa pública) foi o ofício do assassino serial Adolf Hitler e do democrata (do grego, governo do povo) Winston Churchill. Então, não é a crença que massacra o homem, mas a natureza humana que usa a convicção para destruir. O fundamentalismo terrorista dos asseclas de Bin Laden é mais próximo dos autos de fé da Inquisição cristã que da tolerância dos Estados islâmicos medievais.

A visita do papa ao Brasil confirmou tais evidências em gestos e nas suas pregações ao longo da semana passada. Nela ele conviveu com a ineficiência do Estado, manifestada pelo rosário de lambanças iniciado com o erro dos batedores em sua chegada e encerrada com a interdição do Campo da Fé, em Guaratiba. E também com o afeto emocionado do brasileiro comum, que o recebeu, abraçou e beijou. Ao desembarcar do avião, forçado a fazer hora voando antes de pousar porque a presidente Dilma se atrasou, ele foi conduzido por batedores direto para o congestionamento de um estacionamento de ônibus de peregrinos em plena Avenida Presidente Vargas. Do contato com o Brasil real saiu sem um arranhão e coberto de beijos, prova de que só o amor protege. Dali o levaram para encontrar a zelite do Brasil oficial no Palácio Guanabara – um erro dos hierarcas católicos, similar ao dos responsáveis por sua escolta.

Os encarregados da programação submeteram o papa a um discurso quase tão grosseiro quanto enfadonho. Nele Dilma se limitou a fazer mais um relato complacente e pouco fiel de falsos avanços de sua gestão. E deu-se ao desplante de reduzir a História do Brasil aos últimos dez anos, sob o PT de Lula e dela. Ou seja, negou o legado de luminares do povo brasileiro que viveram antes da posse do padrinho e protetor dela: José Bonifácio de Andrada e Silva, Machado de Assis, Euclides da Cunha, Gilberto Freyre, Luiz Gonzaga, Tom Jobim e tantos outros. Além disso, ela recitou patranhas de marketing, tratando o visitante como um papagaio de pirata de seu palanque para a reeleição. Nem ela própria parecia crer nelas, tal foi a falta de convicção com que as enunciou.

Naquela ocasião o hóspede, polido como a anfitriã não foi, respondeu com as gentilezas de praxe de um pároco agradecendo a água que lhe servia uma devota paroquiana. Mas, ao longo de suas práticas, foi respondendo com recados certeiros a uma a uma dessas grosserias da recepção e das deselegantes anedotas sem graça sobre sua origem portenha contadas pelo prefeito do Rio, Eduardo Paes. No Hospital São Francisco de Assis o papa detonou o discurso politicamente correto de quem considera o consumo de drogas apenas uma doença e seu comércio, mera consequência de mazelas sociais. Chamou os traficantes de “mercadores da morte” e disse que só se combate o tráfico entre os jovens praticando a justiça e educando sempre.

No mais relevante pronunciamento social de seu pontificado, proferido na favela de Varginha, ele disparou dois torpedos diretamente na maior negação à natureza democrática nas Repúblicas de hoje: o marketing político. No primeiro atacou o conceito de pacificação das comunidades com a ocupação de suas ruas por policiais armados. “Nenhum esforço de pacificação será duradouro, não haverá harmonia e felicidade para uma sociedade que ignora, que deixa à margem, que abandona na periferia parte de si mesma. Uma sociedade assim simplesmente empobrece a si mesma, perde algo de essencial para si mesma”, pontificou. Essa sentença profética atingiu no cerne a propaganda oficial do desastrado governador Sérgio Cabral.

O outro torpedo atingiu a empáfia petista no peito. “Somente quando se é capaz de compartilhar é que se enriquece de verdade. Tudo aquilo que se compartilha se multiplica. A medida da grandeza de uma sociedade é dada pelo modo como esta trata os mais necessitados, que não têm outra coisa senão a sua pobreza”, pregou. O nobre conceito igualitário, transmitido às vítimas preferenciais dessa ilusão, silencia a fanfarra federal que celebra a inclusão deste país entre as maiores economias mundiais.

Ao falar para a sociedade e políticos, no Teatro Municipal, Francisco sintetizou sua pregação na Jornada Mundial da Juventude no Rio: “O futuro exige a tarefa de reabilitar a política”. A frase do pregador resume a tarefa de todos os cidadãos, pertençam ou não a quaisquer partidos políticos, professem ou não algum credo religioso. Da mesma forma corajosa como apregoa a refundação de sua “Igreja de Cristo”, Francisco transferiu aos peregrinos a tarefa de lutar para tentar restaurar o sentido da origem etimológica da palavra, que no mundo inteiro, e no Brasil em particular, passou a significar exatamente o oposto do princípio que a fundou.

Essa restauração do poder da cidadania, segundo o papa, implica condições que ele fez questão de lembrar. Uma delas é a responsabilidade cívica da boa-fé pública: “O sentido ético aparece nos nossos dias como desafio histórico sem precedentes”. Outra, a tolerância em tudo e, particularmente, na profissão de fé: “Favorável à pacífica convivência entre religiões diversas é a laicidade do Estado”. A economia com visão humanista é mais um item: “O futuro exige visão humanista da economia, evitando elitismos e erradicando a pobreza”. E isso só pode ser feito com o respeito a ideias e posturas alheias: “Entre a indiferença egoísta e o protesto violento, há uma opção sempre possível – o diálogo”.

Francisco prometeu voltar em 2017. Deus queira que até lá as sementes luminosas que semeou tenham germinado aqui.

Jornalista, poeta e escritor.

Fogo baiano

Críticas ao Dnit

Até a turma do núcleo duro de Jaques Wagner perdeu a vergonha de atirar contra a administração Dilma Rousseff.

O vice-governador da Bahia, Otto Alencar, do PSD, deu uma entrevista ao jornal de Salvador A Tarde esculhambando o governo federal.

Disse Alencar, criticando principalmente a falta de repasses de verbas do Dnit para o estado:

- É uma vergonha. Vai chegar em 2014 e o carro do governo federal não vai sair da garagem.

Por Lauro Jardim

 

Papo de consultório

Revolta contra o governo

Se já é uma tendência nacional, ainda é cedo para dizer, mas em Brasília não são poucos osmédicos que têm ampliado o tempo de consulta para explicar aos pacientes o porquê de votar contra Dilma Rousseff em 2014 e de ser contra o Mais Médicos.

O governo tem pesquisas que mostram a aceitação do programa na sociedade, mas está ciente do estrago que a categoria pode fazer. É um problema daqueles…

Por Lauro Jardim

 

Pedido de socorro

Esperança dos trabalhadores

Com a promessa de demissão de até 1 000 funcionários pela TAM, o Sindicato Nacional dos Aeronautas pedirá socorro a Moreira Franco: finaliza um pedido de audiência para enviar ao ministro nas próximas horas.

Os sindicalistas também procuraram o deputado Jerônimo Goergen, que também vai bater na porta de Moreira, além realizar uma audiência pública na Câmara para tratar do tema, assim que terminar o recesso parlamentar.

Por Lauro Jardim

31/07/2013

 às 8:31 \ Feira Livre

‘É fascinação e amor’, por Carlos Brickmann

Publicado na coluna de Carlos Brickmann

CARLOS BRICKMANN

O papa Francisco conquistou o Brasil. Tem carisma, uma empatia evidente com a população. Seus hábitos simples caíram no gosto do povo (e não só dos católicos). Falou de religião enquanto as autoridades tentavam conquistar eleitores. Mas, principalmente, ganhou o país por outro fator positivo: a tolerância.

Enquanto fundamentalistas anticatólicos e ateus que se imaginam melhores que os outros partiram para a grosseria e a intolerância, profanando símbolos religiosos e promovendo lamentáveis cenas de talibanismo (os talibãs afegãos, lembremos, dinamitaram duas magníficas estátuas de Buda, com mais de mil anos de idade, porque Buda não era muçulmano), o papa tomou cafezinho com um pastor evangélico, conversou com dirigentes de várias religiões, monoteístas ou não, e admitiu que muitos católicos se afastaram da Igreja porque a Igreja não lhes dava assistência espiritual. Lembrou que todos são filhos de Deus. E, nesse denso contexto, condenou sem reservas a homofobia, o ódio aos homossexuais. “Se a pessoa é gay e procura Deus, quem sou eu para prejulgá-la?”

 

Marketing? Não, ele é assim mesmo. Há anos é grande amigo de um rabino, Abraham Skorka, e com ele escreveu um livro ótimo, Sobre o Céu e a Terra ─ sobre tolerância, convivência entre pessoas com crenças diferentes. O papa mostrou que discordar de um comportamento não significa discriminar pessoas. E disse: “Casais que moram juntos antes do casamento são um fato antropológico”.

O papa Francisco venceu. O Brasil preferiu a tolerância ao rancor.

A descoberta… 
O papa, veja só, conseguiu abrir até a dura cabeça do governador fluminense Sérgio Cabral. O governador disse que, inspirado por Francisco, será agora mais humilde e aberto ao diálogo. Cabral se achava quase perfeito, embora lhe faltasse a humildade. 

Agora, com toda a nova humildade, deve considerar-se perfeito.

…de Cabral
Os grupos que se manifestam incessantemente em frente ao prédio em que mora Sérgio Cabral ultrapassam os limites do que é civilizado: a família e os vizinhos do governador não são responsáveis pelo seu Governo nem devem ser vítimas de seus adversários. Que se proteste contra o governador diante da sede do Governo, poupando família e vizinhos. E não se pode esquecer que Cabral nunca foi melhor do que é hoje; mesmo assim, elegeu-se e reelegeu-se governador, em eleições diretas e limpas.

Mas alguém precisa informar o neo-humilde Cabral que reclamar só do incômodo imposto à sua família pelos manifestantes é demonstração de falta de humildade. Nem se lembrou do sofrimento dos vizinhos.

A voz de Dilma
A presidente Dilma Rousseff deu longa entrevista a respeito das maravilhas e das medidas ─ invariavelmente corretas ─ de seu Governo que pode ser resumida em poucas palavras: “Se não têm pão, comam brioches”. Em outra época, quem disse a mesma coisa foi uma rainha francesa, Maria Antonieta. 

Ficou famosa!

A voz das ruas
Dilma disse que entendeu a voz das ruas mas que não vai mudar nada no Governo. Os parlamentares dizem ter entendido a voz das ruas e saíram de férias sem votar a Lei de Diretrizes Orçamentárias, que obrigatoriamente precisa ser aprovada antes das férias. E a gastança maluca não se esgotou na recepção do governador Sérgio Cabral ao papa Francisco, em que um bufê teve a audácia de cobrar (e o Governo fluminense teve a audácia de pagar) R$ 1.300,00 por pessoa, para servir café, água e biscoitos. O Congresso também saiu gastando sem freios.

Os ouvidos do Poder
Em fevereiro, tanto Renan Calheiros, ao assumir a Presidência do Senado, quanto Henrique Alves, ao assumir a Presidência da Câmara, prometeram reduzir as despesas. Resultado: o Congresso gastou R$ 140 milhões a mais que no mesmo período do ano passado, já levada em conta a inflação. Veja o balanço completo aqui.

Os bolsos do cidadão
E a festa continua. Dois anúncios do Senado deram na vista. Primeiro, pela publicação num pé de página, em letras pequenas; segundo, embora tratassem de licitações, por não se tocar em valor. Mas o que saiu já mostra do que se trata: mais luxos. Uma das licitações visa alugar veículos com motorista, para atender aos senadores em seus Estados, todos os dias, mesmo que o senador esteja em Brasília. São, no total, 78 carros (os senadores brasilienses ficam só com os carros que já têm, tadinhos!). 

E, como senador não é papa, nada de automóvel de pobre. É carro caprichado. O outro edital é para compra de material gráfico. Divulgar as maravilhas que o senador faz em seu mandato também é transparência.

Perdendo a razão
A revolta dos médicos contra a decisão do Governo de buscar estrangeiros sem exigir que revalidem seus diplomas no Brasil (e contra a tentativa de jogar nos médicos brasileiros a culpa por problemas sanitários, de falta de infraestrutura, de falta de verba) é justíssima. Mas greve de médicos é coisa errada: quem sofre não pode pagar pela culpa do Governo. 

CARLOS BRICKMANN.

 

 

 

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Fonte: O Estado de S. Paulo

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