Governo português contradiz versão oficial sobre visita de Dilma a Lisboa

Publicado em 28/01/2014 06:18 1088 exibições
Autoridades do país europeu e restaurante que recebeu comitiva já estavam avisados sobre a chegada da presidente brasileira desde quinta-feira; ministros argumentaram que a ‘parada técnica’ foi decidida na última hora. (por Tânia Monteiro, Rafael Moraes Moura e Vera Rosa - O Estado de S. Paulo)

 Tratada como segredo de Estado pelo Palácio do Planalto, a passagem da presidente Dilma Rousseff por Portugal já estava confirmada e foi comunicada ao governo local na quinta-feira, o que contradiz o ministro das Relações Exteriores, Luiz Alberto Figueiredo, segundo quem a decisão de parar em Lisboa só foi tomada "no dia da partida" da Suíça, no sábado passado.

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Dilma e comitiva jantaram no badalado restaurante Eleven - Estadão Conteúdo
Estadão Conteúdo
Dilma e comitiva jantaram no badalado restaurante Eleven

 

Dilma ficou na Suíça, durante o Fórum Econômico Mundial, de quinta-feira a sábado. Seu destino seguinte, segundo a agenda oficial, seria Cuba, onde está nesta terça-feira. A presidente e sua comitiva, porém, desembarcaram em Lisboa, onde passaram o sábado e a manhã de domingo. Jantaram em um dos restaurantes mais badalados da cidade e se hospedaram nos hotéis Ritz e Tivoli - 45 quartos foram usados. Nada foi divulgado à imprensa.

Após o Estado revelar o paradeiro de Dilma no sábado, o Palácio do Planalto afirmou que se tratava de uma "parada técnica" não prevista. A versão foi dada primeiro pela ministra Helena Chagas (Comunicação Social), no fim de semana, e reiterada nesta segunda-feira por Figueiredo, em Havana.

Pela versão oficial, o plano era sair da Suíça no sábado, parar nos Estados Unidos para abastecer as duas aeronaves oficiais e chegar a Cuba no domingo. Mas o mau tempo teria obrigado a comitiva a mudar de planos na véspera e desembarcar em Lisboa.

Desde quinta, porém, o diretor do cerimonial do governo de Portugal, embaixador Almeida Lima, estava escalado para recepcionar Dilma e sua comitiva no fim de semana. Joachim Koerper, chef do restaurante Eleven, onde Dilma jantou em Lisboa com ministros e assessores, recebeu pedidos de reserva na quinta-feira.

O chef postou em uma rede social uma foto ao lado de Dilma no restaurante - um dos poucos de Lisboa a ter uma estrela no Guia Michelin, um das mais tradicionais publicações sobre viagens do mundo.

Mal-estar. A divulgação da parada em Lisboa aborreceu Dilma e criou mal-estar quando ela desembarcou em Havana.

Nesta segunda, o ministro das Relações Exteriores foi destacado para falar à imprensa sobre o assunto. Primeiramente, repetiu a versão oficial: "Havia duas possibilidades: ou o nordeste dos Estados Unidos, ou parando em Lisboa, onde era o ponto mais a oeste do continente. Viu-se que havia previsão de mau tempo com marolas polares no nordeste dos Estados Unidos. Então houve uma decisão da Aeronáutica de que o voo mais seguro seria com escala em Lisboa".

Depois disse que cada um dos integrantes da comitiva presidencial que jantaram no Eleven pagou sua própria despesa. "Cada um pagou o seu e a presidenta, o dela, como ocorre em todas as viagens. Foi com cartão pessoal."

A Secretaria de Comunicação do Palácio do Planalto se limitou a informar que, "por questões de segurança", "não tece comentários sobre detalhamentos das equipes, cabendo apenas ressaltar que elas são compostas a partir de critérios técnicos e adequadas às necessidades específicas previstas para cada viagem".

A ida de Dilma a Lisboa só passou a constar da agenda oficial da presidente às 13h50 de domingo, horário de Brasília, quase 24 horas depois de a presidente chegar à capital portuguesa. Naquela hora a presidente já tinha decolado em direção a Havana.

Oposição. Líderes da oposição classificaram o episódio como "mau exemplo" de Dilma. Criticaram o fato de a viagem não ter sido divulgada e o preço do hotel onde a presidente ficou. Na tabela, o pernoite numa suíte do Ritz custa R$ 26 mil. 

'Foi mais barato do que jantar num restaurante do Rio ou de São Paulo'

Por e-mail, um dos sócios do badalado restaurante Eleven, o chef alemão Joachim Koerper, falou sobre o jantar da presidente Dilma Rousseff e sua comitiva no sábado, em Lisboa. Ele diz ter dado os vinhos servidos à mesa e garante que a conta 'foi mais barata' do que se os clientes tivessem comido no Rio ou em São Paulo.

Como foi o contato com o governo brasileiro?

O contato foi através da embaixada do Brasil. Eu fui contatado na quinta-feira.

Qual o menu servido?

A presidente quis algo português. Servi um peixe típico chamado cavala, servi defumado. Ela comeu também uma pequenina porção de robalo e fiz questão de que ela provasse porco preto alentejano. Não comeu sobremesa, preferiu queijo português.

Antes de Dilma, quais outras autoridades estrangeiras já haviam prestigiado o Eleven?

Recebi algumas autoridades como o antigo presidente Nicolas Sarkozy, o também antigo primeiro-ministro de Portugal, José Sócrates. Ao longo de minha carreira já cozinhei para príncipe Alberto de Mônaco, a princesa Caroline de Mônaco e tantas outras personalidades. Gostaria de fazer um adendo acerca do que foi divulgado de que seríamos um dos restaurantes mais caros de Lisboa. Temos menus que custam de 32 a 89.

Quanto deu a conta?

Posso garantir que a conta foi mais barata do que se tivessem jantado em algum restaurante do Rio ou São Paulo. Muitas vezes o que encarece é o vinho. E o vinho foi oferta da casa.

A comitiva brasileira saiu carregando garrafas de vinhos depois do jantar...

Ao final da refeição eu presenteei a presidente com duas garrafas que têm minha marca, o Red. 

Na Folha: Brasil financiará mais R$ 700 mi a Cuba

Valor é anunciado por Dilma Rousseff, que inaugurou porto construído próximo de Havana com crédito brasileiro

Em discurso, presidente critica embargo dos EUA e diz que Brasil quer ser 'parceiro econômico de primeira ordem' de Cuba

PATRÍCIA CAMPOS MELLOENVIADA ESPECIAL A HAVANA

Ao lado do ditador cubano, Raúl Castro, a presidente Dilma Rousseff anunciou ontem um investimento adicional de US$ 290 milhões (R$ 701 milhões) na zona econômica especial do porto de Mariel, dos quais 85% virão de crédito do BNDES e os restantes 15% serão a contrapartida do governo cubano.

"O Brasil quer se tornar parceiro econômico de primeira ordem de Cuba", disse Dilma. Raúl agradeceu à presidente "por ajudar neste projeto transcendental para a economia nacional".

As gruas do porto, inaugurado ontem, foram enfeitadas com bandeiras do Brasil e de Cuba. Mariel terá capacidade inicial de 1 milhão de contêineres por ano e, quando concluído, serão 3 milhões.

Folha apurou que o financiamento anunciado por Dilma ainda não havia dado entrada no BNDES e está sob negociação em nível ministerial. O crédito seria para a retroárea do porto, como pátios de estocagem. Em nota, o PSDB cobrou transparência sobre a operação.

O Brasil já fornecera um crédito de US$ 802 milhões (R$ 1,92 bilhão) para a construção do porto de US$ 957 milhões, inaugurado ontem por Dilma.

Dos US$ 802 milhões iniciais, US$ 682 milhões (R$ 1,63 bilhão) foram entregues à Odebrecht, que lidera as obras, e outros US$ 120 milhões (R$ 288 milhões) a outras empresas brasileiras.

Em seu discurso, Dilma afirmou que Cuba sofre "um embargo econômico injusto".Ela também comemorou a reintegração do país a organismos internacionais: "Somente com Cuba nossa região estará completa."

O embargo dos EUA a Cuba vigora desde os anos 1960. Dentre as medidas, proíbe a venda de produtos com mais de 10% de componentes americanos para a ilha.

Dilma afirmou ainda que já há empresas brasileiras interessadas em investir na zona econômica especial. No fim de março, a Apex (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos) vai levar a Cuba uma missão de empresários interessados em investir.

Segundo a Folha antecipou, a Odebrecht estuda instalar uma fábrica de transformação de plásticos no local. O porto de Havana está transferindo suas atividades para Mariel e passará por revitalização, nos moldes de Puerto Madero, em Buenos Aires.

De Mariel, que fica a 45 km de Havana, Dilma seguiu para o Palácio da Revolução, sede do governo cubano. No almoço, ela e Raúl comeram perna de cabrito recheada com queijo feta e aspargos, além de musse de maçã com merengue. Na capital, Dilma ainda poderia se encontrar com Fidel Castro em sua casa, o que não ocorrera até a conclusão desta edição.

MAIS MÉDICOS

Por volta das 19h locais (22h de Brasília), o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, que faz parte da comitiva de Dilma, participaria de uma cerimônia para marcar o embarque de mais 2.000 médicos cubanos ao Brasil nesta semana e para assinar acordos para transferência de tecnologia em fármacos.

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Fonte:
O Estado de S. Paulo + Folha

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