Oportunismo agropolítico, editorial do Estadão

Publicado em 12/02/2014 14:21 e atualizado em 17/02/2014 10:24 2393 exibições
publicado na edição desta 4a.-feira

Na tentativa eleitoreira de associar seu nome a uma das poucas áreas que vão bem na economia, a presidente Dilma Rousseff resolveu participar da cerimônia do lançamento simbólico da colheita da safra de soja 2013/2014, no município mato-grossense de Lucas do Rio Verde, a 360 quilômetros de Cuiabá. Sem se incomodar com o fato de que mais de 20% da safra do Estado já foi colhida e cercada de políticos, Dilma fez um discurso de quase 40 minutos, subiu à cabina de uma colheitadeira e posou para fotos recolhendo grãos da oleaginosa.

Criticada no meio empresarial pelos maus resultados que sua política econômica vem produzindo, a presidente tomou a decisão de, ao mesmo tempo, aproximar-se de um segmento - o do agronegócio - no qual seu prestígio vem se reduzindo tão ou mais velozmente do que em outros e apresentar-se à população, sobretudo aos eleitores, como responsável pelo notável êxito que se observa no campo.

É, de fato, impressionante o resultado que os agricultores vêm alcançando nos últimos anos, mas é preciso ficar claro que esses resultados surgem não por estímulos do governo, mas por decisões, práticas e determinação dos produtores. Nem a notória precariedade da infraestrutura de logística, que se constata a cada safra, dificultando e encarecendo o escoamento da produção, é forte o bastante para reduzir o ânimo dos produtores. A agricultura continua a crescer a despeito do governo, sobretudo o atual.

A presidente apontou como um grande desafio para o País o ganho de produtividade. Para a agricultura, é um conselho inútil, pois esse desafio vem sendo vencido a cada safra, com resultados até surpreendentes quando comparadas a evolução da produção de grãos e a da área total cultivada.

Dilma referiu-se também ao que considera o "diferencial do nosso País em relação ao mundo", que é a energia - e ainda "temos o pré-sal". A ocorrência de apagões que afetam diversas regiões do País mostra que, em matéria de energia, os investimentos têm sido insuficientes para assegurar a normalidade da transmissão e do abastecimento de energia elétrica. Quanto ao pré-sal, os elevados investimentos que a política do governo para essa área impôs à Petrobrás estão asfixiando a empresa financeiramente e limitando as aplicações em outras áreas essenciais, como a do refino e a de manutenção dos equipamentos em operação.

A presidente disse ainda que "mudaremos a face do agronegócio quanto mais tivermos armazenagem eficiente". Em seguida, prometeu "um grande esforço" para integrar os modais de transporte em Mato Grosso, com a utilização de ferrovias, hidrovias e rodovias. Tudo isso é indispensável para tornar ainda mais eficiente a produção agrícola, mas parece que o governo Dilma só começou a entender isso depois de ter cumprido 75% de seu mandato. Só no fim do ano passado, por exemplo, foram realizados os leilões de concessão de rodovias que servem as principais regiões produtoras. O plano de expansão da malha ferroviária continua no papel. Quanto às hidrovias, trata-se de um tema seguidamente tratado pelos governos nas últimas três ou quatro décadas, com baixíssimos resultados práticos.

A agricultura, mesmo assim, vai muito bem. A mais recente estimativa da produção de grãos feita pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) indica que o País produzirá 193,9 milhões de toneladas. Trata-se de um número inferior ao da estimativa anterior, mas ainda assim é 3,6% maior do que a colheita da safra anterior, de 186,9 milhões de toneladas.

A queda em relação à estimativa anterior se deve à redução da produção de milho da segunda safra. A estimativa já capta alguns efeitos da seca que atinge a região Centro-Sul, mas é possível que a falta de chuvas afete também as próximas projeções da Conab.

Mesmo que haja queda nas novas estimativas, o Brasil continuará sendo um dos maiores produtores de alimentos do mundo e, no caso da soja, pode tornar-se o líder mundial, passando os Estados Unidos, como indicam as projeções mais recentes do Departamento de Agricultura americano.

Produtividade na veia

por Celso Ming


A presidente Dilma tem de fato muito a comemorar com o excelente desempenho do agronegócio. É o Brasil que funciona e que busca a modernidade.

Nesta terça-feira, em discurso de “inauguração da safra” pronunciado em Lucas do Rio Verde (MT), ela se referiu à “produtividade na veia” que está sendo injetada na economia, graças ao aumento de 221% da produção de grãos em 20 anos, com aumento da área plantada de apenas 41%.


Dilma. Agronegócio em alta (FOTO: Nelson Almeida/AFP)

A agricultura apresenta resultados brilhantes em condições adversas, que infelizmente a indústria não consegue repetir, nem mesmo com os benefícios com que vem sendo contemplada.

O setor conseguiu aproveitar a boa fase de demanda e preços das commodities agrícolas e hoje, bem mais capitalizado, está bem mecanizado e opera com tecnologia de ponta.

Mas não dá para alimentar ilusões demais. Esse alto desempenho está acontecendo apesar da atuação do governo e seu Ministério da Agricultura, um dos mais inexpressivos da Esplanada. E, também, apesar do governo que, há alguns anos, trabalhou contra o uso de sementes geneticamente modificadas (transgênicas) de grãos.

Se dependesse tão somente da política adotada, a agropecuária estaria mal parada. Castigada por uma infraestrutura precária e cara, esta sim, fortemente dependente de decisões do governo, enfrenta altos custos de produção e escoamento da safra que impedem a obtenção de resultados melhores. Os recursos do financiamento das safras, os tais R$ 136 bilhões mencionados pela presidente Dilma, provêm mais do setor privado do que de recursos oficiais.

Ela própria admitiu nesta terça as fortes deficiências na rede de armazenamento. É o que obriga o agricultor a despachar depressa demais sua produção e, na prática, a usar inadequadamente a frota de caminhões como instrumento improvisado de depósito de safra. Como nada de especial aconteceu nessa área nos últimos 12 meses, nas próximas semanas os noticiários de TV e os jornais deverão voltar a publicar fotos de congestionamentos das rodovias que dão acesso aos portos.

Nada mais eloquente para mostrar os contrastes, vale focar o que acontece no setor sucroalcooleiro. No último sábado, o provável candidato do PT ao governo de São Paulo e ex-ministro da Saúde, Alexandre Padilha, ouviu um rosário de queixas e de reivindicações dos empresários, em solenidade realizada em Ribeirão Preto. Eles acusam o governo de quebrar o setor com a política de dumping imposta ao setor dos combustíveis. A presidente da União da Indústria da Cana-de-Açúcar (Unica), Elizabeth Farina, lembrou o governo que 44 usinas foram fechadas ao longo das últimas cinco safras e que outras 12 não estão em condições de processar a cana-de-açúcar que, no Sudeste, estará disponível para corte a partir de abril.

Mais decepcionado com a política da presidente Dilma do que o setor sucroalcooleiro, só mesmo o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST). Para seus líderes, o governo faz o jogo do agronegócio e não liga mais para a reforma agrária. Quem diria que o governo do PT fosse assim avaliado por suas próprias bases.

CONFIRA:

Aí está a evolução da produção de grãos no Brasil nos últimos sete anos, inclusive 2014.

Tempo de colheita. Nesta terça, tanto a Conab como o IBGE apresentaram suas projeções de safras agrícolas. Desta vez, as estimativas são quase coincidentes, na casa dos 193 milhões de toneladas e crescimento superior a 3,0%. No seu pronunciamento em Lucas do Rio Verde (MT), a presidente Dilma mostrou que espera 3 milhões de toneladas a mais. Falta saber até que ponto a estiagem que castiga o Centro-Sul vai garantir esse desempenho.

Que tal tirar a máscara de

quem quer ficar impune?

por José Nêumanne

(Políticos que vendem a alma por um punhado de votos deveriam parar de se fingir de inocentes)

Não havia brasileiro razoavelmente informado que já não soubesse que os black blocs sempre fizeram o possível e mais do que o razoável para que os policiais encarregados de reprimir seu vandalismo nas ruas das cidades brasileiras produzissem um mártir. Em 25 de janeiro, Fabrício Proteus Fonseca Mendonça Chaves, de 22 anos, foi baleado num protesto em São Paulo contra os gastos da Copa do Mundo. Poderia ter sido este, mas, socorrido pelos PMs e levado para a Santa Casa de Misericórdia, felizmente ele sobreviveu. Infelizmente, contudo, o cinegrafista da Band Santiago Andrade, de 49 anos, não teve idêntica sorte e morreu em consequência de ferimentos na cabeça, vítima da explosão de um rojão disparado no centro do Rio num protesto violento contra o reajuste da tarifa de transportes públicos. Eis o mártir!

Mas o cinegrafista, que trabalhava na cobertura da manifestação quando foi atingido, não foi vitimado pela violência policial, contra a qual dez entre dez políticos, militantes de direitos humanos, governantes politicamente corretos, acadêmicos bem-pensantes e repórteres apressados esbravejam. O buscapé disparado da calçada a poucos metros de onde a vítima estava foi criminosamente preparado por vândalos cujas feições estavam escondidas por máscaras e panos com os quais encobriam o rosto. O disparo podia não ter como objetivo especificamente aquele profissional. É até possível acreditar que seu alvo seria a tropa policial que procurava conter o quebra-quebra. Mas um repórter, fotógrafo ou cameraman presente na cena para transmitir informações ao público ou um inocente transeunte do anônimo exército das vítimas das balas perdidas na violência metropolitana brasileira fatalmente seria atingido. Pois a vareta que direciona o rojão para explodi-lo nas alturas foi quebrada e quem já soltou fogos de artifício sabe que nessas condições o buscapé não sobe, faz um trajeto aleatório e atinge o que estiver à frente. Assim, feriu a cabeça do jornalista a trabalho.

Naquela quinta-feira ninguém imaginou ser possível inculpar os black blocs pelo crime hediondo. Os telejornais da Rede Globo na noite do crime e na manhã seguinte reproduziram reportagem de Bernardo Menezes, da Globo News, atribuindo aos policiais o disparo do explosivo. Quem pôs o equívoco no ar não atinou para o fato de que a fogueira ateada na cabeça do colega jamais poderia ter sido produzida por bombas de efeito moral ou granadas de gás lacrimogêneo. Faltou um átimo de sensatez para evitar a divulgação do engano. O hábito de denunciar a violência policial levou o erro ao ar. Errar é humano, está certo, mas o jornalismo responsável requer mais diligência.

Depois que a polícia demonstrou o óbvio, William Bonner, o editor-chefe do Jornal Nacional, gaguejou um pedido de desculpas envergonhado e aproveitou para elogiar a humildade de voltar atrás ao reconhecer o erro. O reconhecimento do engano é uma virtude, mas é preciso que a autocrítica tenha relevo similar ao dado à falsidade divulgada.

E mais: é necessário também transmitir a convicção de que equívocos similares serão evitados. Não só pela emissora que engoliu uma “barriga” mastodôntica e cuspiu um mosquito. Mas também por todos os envolvidos na organização das manifestações populares, seja contra o que for; na manutenção da ordem pública nas ruas durante os protestos; na defesa jurídica dos manifestantes; e na cobertura e transmissão dos fatos para conhecimento da sociedade. Todos somos responsáveis. E todos devemos ter noção das evidências de que o cinegrafista foi vitimado pela leviandade geral vigente.

O mesmo Jornal Nacional reproduziu uma enxurrada de manifestações de súbita condenação aos vândalos. Entidades que representam advogados, juízes, donos de meios de comunicação, jornalistas e poderosos da República deixaram de execrar somente a polícia.

“Não é admissível que protestos democráticos sejam desvirtuados por quem não tem respeito pela vida humana”, registrou Dilma Rousseff no Twitter – uma platitude de dar dó. É lamentável que do alto do cargo mais importante da República ela se tenha comportado como se fosse apenas a candidata à própria reeleição. Reduzir tal crime a um slogan de campanha, utilizando o velório da vítima como extensão de seu palanque, é absurdo em si. Fazê-lo numa rede social, como numa fofoca de adolescentes, é espantoso. Assim como revolta a justificativa dada pelos vândalos em outra rede social, o Facebook, buscando inculpar a polícia por quatro mortes não noticiadas nem comentadas pelos meios de comunicação, tentando estabelecer uma relação de nexo inexistente e adotando uma contabilidade sinistra e sem sentido. Idêntico afã oportunista levou o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), a procurar limpar a própria imagem com o sangue da vítima ao propor enquadrar os vândalos por crime de terrorismo.

Quando os políticos que vendem a alma por um punhado de votos descobrirão que os anarquistas que encerram as passeatas ditas pacíficas nas ruas são criminosos comuns que agridem e depredam, devendo ser punidos como tal? E que a eles se acumplicia quem defende o uso de máscaras, porque estas dificultam a identificação deles pela polícia? Os repórteres sempre benevolentes com os mascarados nunca perceberão que lidam com inimigos da verdade? Afinal, isso se comprovou no atentado ao cinegrafista e na agressão a outro que captava imagens em manifestação em defesa do tatuador por cujas mãos passou o rojão e que terminou mentindo descaradamente à polícia ao pedir delação premiada. E advogados menos empenhados em defendê-los do que em aparecer não prestam serviço à lei, mas trabalham pela impunidade de meros quadrilheiros.

Esta não é hora de caçar bruxas. Mas, sim, de tirar a máscara de quem esconde o rosto para delinquir e ficar impune.

Jornalista, poeta e escritor

(Publicado na Pág. A2 do Estado de S. Paulo de quarta-feira 12 de fevereiro de 2014)

 

Direto ao Ponto (blog de Augusto Nunes, de veja.com.br):

O Ministério da Saúde recorre aos truques da “contabilidade criativa” para maquiar a debandada dos escravos de jaleco

Charge de Sponholz

Charge de Sponholz

Nas contas do governo federal, o exército cubano importado pelo programa Mais Médicos já sofreu 27 baixas. Os estragos são muito maiores, informa a reportagem publicada pelo site de VEJA. A diferença entre os números oficiais e os apurados pela imprensa sugere que o ministro da Saúde, Artur Chioro, tem tudo para tornar-se o melhor aluno do Cursinho de Contabilidade Criativa do Professor Guido Mantega. Mas logo aprenderá que maquiar a inflação, roubar no peso da balança comercial ou fingir que o pibinho engordou é bem menos complicado que esconder com algarismos procissões de desertores.

“É apenas o começo; é só o primeiro grito que vem das gargantas sufocadas”, avisou há uma semana o post sobre a opção pela liberdade feita pela médica Ramona Rodriguez. Mais de 5 mil cubanos recrutados pelo programa venezuelano que serviu de modelo para o Mais Médicos mandaram às favas a ilha-presídio, viraram as costas à caricatura bolivariana e se instalaram em paragens democráticas. Preocupado com a reprise da debandada, o governo brasileiro encomendou aos Irmãos Castro um segundo lote de doutores. A ditadura caribenha terá de duplicar a produção das fábricas de diplomados em medicina para atender à demanda por peças de reposição.

Dilma Rousseff e Alexandre Padilha imaginavam que passariam a temporada eleitoral aplaudidos por multidões de pacientes dispostos a pagar com o voto a doação de um médico estrangeiro. Podem acabar caçando álibis para provar que não são culpados pelo sumiço dos escravos de jaleco.

(por Augusto Nunes, de veja.com.br)

Tags:
Fonte:
O Estado de S. Paulo + VEJA

RECEBA NOSSAS NOTÍCIAS DE DESTAQUE NO SEU E-MAIL CADASTRE-SE NA NOSSA NEWSLETTER

2 comentários

  • Emanuel Geraldo C. de Oliveira Imperatriz - MA

    > Uma pena, talvez vergonha o fato de os produtores de MT não terem vaiado essa presidente demagoga ao invés de trata-la bem...ela é inimiga do produtor rural e tem jogado milhares na miséria para criar reservas indígenas como fez ai no MT em Suia-Missu e esta fazendo na Ba, Ma, Pr, Am, Ro, RR, Al, SP, SC, RS, Ms e vocês aplaudem? Por isso esse país não vai pra frente...ninguém fala a verdade quando esta cara a cara ...

    0
  • cornelio haroldo dijkstra lagoa da confusao - TO

    O banco para financiar armazem quer que o agricultor de 3 x em garantia o que vai financiar ,entao é apenas para quem tem garantias esse financiamento ,ou seja para poucos.O PT esta indo fazer politica agora na roça ?atraz de votos ?eles nunca olharam para o homem do campo?temos que acabar com essa corja de vagabundos que estao acabando com o PAÍS.NOS ESTAMOS FAZENDO A NOSSA PARTE...

    0