O IBGE sob domínio petista, editorial do Estadão ( Comprar comida na Venezuela, uma aventura)

Publicado em 15/04/2014 08:09 e atualizado em 16/04/2014 15:28 1620 exibições
em O Estado de S. Paulo desta segunda-feira, dia 13/4/2014.

A suspensão, pela diretoria do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), da divulgação dos resultados trimestrais da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) - que apresenta a situação do mercado de trabalho no País - deixa claro que, se for necessário para evitar que informações eventualmente negativas sobre o desempenho da economia causem danos à candidatura da presidente Dilma Rousseff à reeleição, o governo do PT não hesitará um segundo para intervir em qualquer órgão público. Nem mesmo instituições como o IBGE, que construíram ao longo dos anos uma reputação reconhecida internacionalmente pela qualidade e isenção de seu trabalho e produzem informações essenciais para a formulação de políticas públicas e para decisões das empresas privadas e das famílias, escapam da volúpia petista pela permanência no poder.

A revolta do corpo técnico da Diretoria de Pesquisas da instituição, responsável pela produção dos principais indicadores por ela divulgados regulamente, não deixa dúvidas quanto ao caráter político da decisão. A diretora Marcia Quintslr, que se opunha à interrupção da divulgação dos resultados, demitiu-se do cargo que ocupava desde 2011 tão logo a suspensão foi anunciada. Em nota, coordenadores e gerentes estratégicos da Diretoria de Pesquisas disseram ser "insustentável" sua permanência nos cargos caso a suspensão seja mantida.

A constatação, pela Pnad Contínua, de que o desemprego médio no País em 2013 foi de 7,1% deve ter provocado grande irritação entre os membros do governo que acumulam a função de organizadores da campanha eleitoral de Dilma. Eles estavam acostumados a outro indicador, a Pesquisa Mensal de Emprego (PME) também aferida pelo IBGE, que tem apontado para um desemprego em torno de 5% - número que certamente tem impacto eleitoral muito mais favorável para a candidatura oficial do que o da Pnad Contínua.

São, porém, pesquisas diferentes, baseadas em metodologias e critérios diferentes e com abrangências igualmente diferentes (a PME limita-se a seis regiões metropolitanas; a Pnad Contínua tem alcance nacional), daí a discrepância de seus resultados num determinado momento.

Ao anunciar a suspensão da divulgação dos resultados trimestrais da Pnad em 2014 - a próxima estava marcada para o dia 27 de maio - e o reinício dos anúncios em janeiro de 2015, quando o vencedor da eleição presidencial já tiver tomado posse, a diretoria do IBGE tentou justificá-la com argumentos técnicos. Entre outros, a direção do instituto alegou, em comunicado, que a suspensão é necessária para eliminar da pesquisa dúvidas e questionamentos, entre os quais a respeito de renda domiciliar per capita, que será utilizada para definir as quotas de Estados e municípios nos respectivos fundos de participação em tributos federais.

Os técnicos da Diretoria de Pesquisas consideraram "inaceitável" essa alegação e também a decisão de refazer o calendário de divulgação dos resultados da Pnad Contínua. Documentos técnicos publicados pelo IBGE e declarações da presidente da instituição, Wasmália Bivar, à imprensa mostraram que há tempos a metodologia da pesquisa não precisa mais ser revista ou testada.

A metodologia é utilizada desde 2006 e a Pnad Contínua começou a ser realizada em caráter excepcional em outubro de 2011, em pelo menos 20 regiões metropolitanas, além de cinco capitais estaduais e no Distrito Federal. Em janeiro de 2012, foi estendida para todo o território nacional e, de acordo com as Notas Metodológicas publicadas pelo IBGE no início deste ano, desde então faz parte do conjunto de pesquisas do instituto.

Em setembro do ano passado, em entrevista ao jornal Brasil Econômico, a presidente do IBGE afirmou que, "quando começarmos a produzir, teremos que divulgar um cronograma e não poderemos parar". O cronograma foi amplamente anunciado no início deste ano (os dois primeiros resultados foram divulgados na data prevista), mas, por alguma razão, Wasmália e outros diretores do IBGE decidiram suspender a divulgação. Não foi por razões técnicas.

O dever que Dilma ignorou, editorial desta 4a.-feira

Se é verdade que a presidente Dilma Rousseff procurou antecipar-se a uma eventual acusação de gestão temerária ao declarar no mês passado que apoiara a compra da Refinaria de Pasadena quando dirigia o Conselho de Administração da Petrobrás, em 2006, com base apenas em um resumo executivo que se revelaria "técnica e juridicamente falho" - e que se conhecesse as cláusulas do contrato que o texto omitia "seguramente" objetaria à transação -, o estratagema parece não ter funcionado.

Um relatório da Procuradoria de Contas, a representação do Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União (TCU), recomendou ao órgão que os responsáveis pela aquisição da refinaria respondam por eventuais prejuízos que o negócio tenha causado à empresa. Ao longo de seis anos, ela desembolsou cerca de US$ 1,2 bilhão pela instalação cujo valor atual de mercado não alcança US$ 200 mil.

O parecer ao qual o Estado teve acesso e do qual publicou os trechos mais importantes na edição de domingo é incisivo.

Pede ao tribunal que a cúpula da Petrobrás - "incluindo os membros do Conselho de Administração" - responda por "danos aos cofres públicos, ato antieconômico e gestão temerária" caso se confirmem os indícios de irregularidades que o documento aponta.

Desde logo, a Procuradoria sustenta que as falhas dos gestores da estatal, no caso, foram "acima do razoável". Elas incluem o veto de Dilma, em 2008, à compra da metade da refinaria que ainda era de propriedade da companhia belga Astra Oil, à qual a Petrobrás se associara.

Essa aquisição estava prevista no contrato cuja íntegra nem Dilma nem, aparentemente, os outros membros do Conselho leram antes de aprovar a parceria com a Astra, dois anos antes. O acordo, na cláusula chamada "Put Option", estipulava que, em caso de desentendimento entre os sócios, um teria de vender a sua parte ao outro. A recusa de Dilma a acatar o "direito líquido e certo" da associada, argumenta o Ministério Público, arrastou a Petrobrás a um litígio que começou com uma arbitragem e terminou em 2009 com a Justiça americana dando ganho de causa aos belgas.

Com isso, a estatal não só teve que fazer o que Dilma não queria, mas foi também obrigada a arcar com multas, juros, honorários e despesas processuais que encareceram a compra da segunda metade da refinaria em US$ 173 milhões. "Caso se constate que não havia razões suficientes para o descumprimento da decisão arbitral", recomenda a Procuradoria, "deve-se apurar a responsabilidade dos gestores e membros do Conselho de Administração". Eles teriam errado, portanto, duas vezes. A primeira, ao aceitar um contrato em que "tudo era possível" para a Astra. A segunda, ao tentar reverter o irreversível.

Como não se sabe como exatamente transcorreu a fatídica reunião do Conselho de 2006 - a Procuradoria, por sinal, pede que a respectiva ata seja verificada, assim como as das decisões subsequentes -, não se pode afirmar se a presidente do colegiado foi quem teve a iniciativa de aprovar o negócio ou se apenas se limitou a acompanhar os votos favoráveis dos demais conselheiros. Seja como for, dada a função que exercia - e a sua condição correlata de ministra da Casa Civil da Presidência da República -, a sua responsabilidade era maior.

Nessa ordem de ideias, é de perguntar por que Dilma não adiou a decisão do Conselho até o recebimento das informações adicionais necessárias à avaliação circunstanciada da operação. Isso partindo da premissa de que tudo o que conhecia objetivamente do contrato era o que constava do resumo executivo de um par de páginas que ela viria a considerar "técnica e juridicamente falho".

A ressalva se impõe porque a primeira reação do ex-presidente da Petrobrás José Sérgio Gabrielli à alegação de Dilma foi dizer que a documentação completa esteve à disposição dos conselheiros.

Tivesse zelado pelos interesses da maior empresa brasileira, no mínimo faria jus à fama de gestora minuciosa que a acompanhava desde o Ministério de Minas e Energia. Mais do que isso, teria agido de acordo com a legislação que impõe ao administrador público o dever estrito do cuidado e da diligência.

‘Caixinha mágica’, por J. R. Guzzo

Publicado na edição impressa de VEJA

J. R. GUZZO

Fatos. O que eu quero que me deem é isto: fatos. Não me venham com outra coisa; fatos, apenas fatos, são necessários na vida. Você só pode formar a mente de animais racionais através de fatos. Fatos: fora os fatos, nada será de utilidade alguma para ninguém, jamais.

Nos tempos duros da Inglaterra de 1850, esse era o evangelho do professor Thomas Gradgrind, personagem do romance Hard Times e destaque na prodigiosa galeria de tipos humanos criados pelo gênio de Charles Dickens. O professor Gradgrind, punido com um desses nomes que só o humor travesso de Dickens sabia inventar, é um personagem cômico — caricatura de uma Inglaterra que começava a se encantar com as estatísticas e com os esforços para explicar o mundo através de números, sem o contágio da imaginação nem emoções individuais, essas grandes criadoras de desordem na existência humana. Tudo bem. Mas a verdade é que às vezes faz falta “um homem de realidades” como Mr. Gradgrind. Sua presença talvez fosse útil para colocar um mínimo de ordem na babilônia mental que desorganiza o debate público no Brasil de hoje.

 

Sem os fatos, insistia o professor, não é possível definir as diversas coisas que existem neste mundo — requisito indispensável para separar o verdadeiro do falso. Essa trágica história da compra da refinaria de Pasadena, nos Estados Unidos, pela Petrobras é um exemplo perfeito do descaso pelos fatos. Desde que o escândalo veio a público, assiste-se a um embate em que tudo é dissecado, menos o que, no fim das contas, realmente interessa; é como a leitura de um prefácio maior que o livro. A presidente Dilma Rousseff estava certa ou errada em sua conduta quando presidia o Conselho de Administração da Petrobras, em 2006, ocasião em que a empresa comprou por 360 milhões de dólares a metade de uma refinaria que, no ano anterior, havia sido adquirida por cerca de 40 milhões pelos vendedores? Estava meio certa? Meio errada? Certa e errada ao mesmo tempo? De quanto é a sua culpa nesse desastre — 10%, 25%, 50%? E por aí se vai, com questões e mais questões, numa conversa inútil que talvez só acabe no dia do Juízo Universal.

A conversa é inútil porque não é preciso gastar um único neurônio com toda essa metafísica; basta ficar nos fatos e tudo se resolve em menos de um minuto. Com os fatos se chega à definição mais clara do que realmente aconteceu: aconteceu, em português corrente, a transferência de 360 milhões de dólares pertencentes à população brasileira para o bolso de uns vagos belgas, donos de uma certa Astra Oil, em troca de um ativo que um ano antes fora negociado por uma soma nove vezes menor. Com a definição, tornou-se possível separar num instante o verdadeiro do falso. Os fatos mostram que é verdadeiro afirmar: “A presidente Dilma Rousseff cometeu um desatino que ficará registrado na história nacional da incompetência”. Os mesmos fatos mostram que é falso afirmar qualquer outra coisa. É tudo muito simples. Dilma, após oito anos de um silêncio de cemitério, afirmou ao público brasileiro que não recebeu, na ocasião da compra, dados certos e completos por parte da direção executiva da estatal, o grupo que realmente cuida de suas operações — e que não teria dado sua aprovação ao negócio se soubesse direito as condições reais em que ele fora realizado. Fim da história: a presidente confessou que não sabia o que estava fazendo.

Discutir mais o quê, depois disso? Em sua desafortunada reunião, Dilma e os conselheiros da empresa receberam um cadáver; mas não perceberam isso, e não mandaram o defunto para o necrotério, nem chamaram a polícia. Na verdade, quem sempre soube de tudo, e escondeu, foi a direção executiva da Petrobras, toda ela ligada ao PT e à “base aliada” do então presidente Lula. Obviamente, como costuma acontecer nessas desgraças, se­guiu-se um filme de terror, no qual a cena mais emocionante foi a descoberta de que a Petrobras ainda tinha de pagar, pelo contrato, mais uns 800 milhões de dólares a esses admiráveis homens de negócio da Bélgica. Ao saber do desastre, ainda como ministra, Dilma não quis pagar. Infelizmente, suas ordens não valiam e continuam não valendo nada nos Estados Unidos; o caso foi para a Justiça americana, que deu razão à Astra Oil. Providências? Zero. Quando descobriu as cláusulas lesivas à empresa, em 2008, o que ela fez contra os responsáveis? Nada. E depois, como presidente da República? Nada. O ato final é a presente palhaçada do governo para impedir a investigação da história pelo Congresso.

Fiquemos nos fatos — e nessa caixinha mágica de Brasília, da qual saem tantas lições. No caso, aprendemos que o bom, no negócio da refinação, não é refinar petróleo — é vender refinarias para a Petrobras.

Comprar comida na Venezuela, uma aventura

Tabelamento e escassez fazem venezuelanos recorrerem à criatividade e a pequenos golpes para achar alimentos e burlar filas -- por Daniel Lansberg-Rodríguez* / Foreign Policy

 

O Tio Coelho, ou Uncle Rabbit, é um dos personagens mais famosos do folclore venezuelano. Eternamente ameaçado por seu arqui-inimigo, o poderoso Tio Tigre, o herói sempre consegue - por meio de estratagemas e mágicas, além de uma sorte descomunal - ludibriar seu poderoso adversário.

Os venezuelanos precisam recorrer cada vez mais ao Tio Coelho escondido em cada um deles para sobreviver. O país sofre uma escassez sem precedentes de artigos de primeira necessidade (arroz, farinha de trigo, açúcar, papel higiênico, óleo de cozinha, leite e carne de frango) decorrente dos efeitos de uma política de controle do câmbio cada vez mais impossível de administrar e do rigoroso tabelamento de preços imposto pelo governo.

Quando eu e minha mulher regressamos à Venezuela, no início do mês, tivemos de suportar uma odisseia do aeroporto até nossa casa, a meros 32 quilômetros. Um congestionamento era o resultado do fechamento de várias estradas por protestos da oposição. Sugeri ao nosso motorista que seria melhor fazer compras. Paramos num supermercado de um bairro de classe média, onde o motorista pediu para ser informado se encontrássemos leite, café ou alimentos para crianças. Seu irmão tornara-se recentemente pai de gêmeas e toda a família estava preocupada em armazenar comida.

Evidentemente, o café era para os adultos da família, numa parte do mundo em que o café representa a base do tecido social e o sustentáculo da hospitalidade. Não encontramos leite nem café, somente um consolo para o motorista: alimentos para crianças (exclusivamente da marca Gerber e com sabor de ameixa).

As filas nos caixas eram imensas. Decidimos esperar em filas separadas - o que representou para as famintas sobrinhas do motorista um total de 18 potinhos de purê de ameixa, três vezes o limite do racionamento de seis unidades. No caso de produtos escassos, como comida de criança, o governo venezuelano estabeleceu restrições rigorosas. De modo que os cidadãos são induzidos (como no nosso caso) a fazer compras em grupo, mas pagar como clientes individuais. A demora provocada pelo fluxo dos compradores - para conferir os cartões de crédito ou contar o dinheiro - é ainda exacerbada por algum comprador isolado que tenta com jeitinho, ameaças ou apelos convencer os caixas a fazerem exceções.

Avôs doentes e crianças são numerosos, assim como pessoas que declaram ligação com notórias figuras do governo ou membros dos temidos "coletivos" paramilitares, favoráveis ao chavismo. Algumas chegam a subornar os caixas para guardar temporariamente sob o balcão produtos excedentes ameaçados de confisco, enquanto entram novamente na fila. Um subterfúgio que pode transformar uma ida à mercearia numa missão de dia inteiro. Recentemente, o governo prometeu um sistema de identificação do consumidor "para reduzir o transtorno".

Publicamente, o regime e seus defensores reagem de várias maneiras às crescentes queixas a respeito das filas: minimizando-as (as pessoas não se incomodam de esperar nas filas no banco, em shows e no cinema, por que deveriam se queixar das filas para comer?) ou adotando uma atitude otimista (significa que há dinheiro para comprar coisas).

Entretanto, as filas gigantescas de apáticos cidadãos podem se tornar perigosas para os donos das lojas. Alejandro Pasos, que tem uma doceria no bairro de Carapita, favorável ao governo, contou um episódio recente num supermercado de Caracas.

As pessoas na fila havia várias horas estavam famintas. Algumas começaram a pegar alimentos das prateleiras ao lado da fila e a comer: bananas, bolachas, chocolate e assim por diante, deixando cair as embalagens ao terminarem. "A loja não tomou nenhuma medida", ele disse. "Provavelmente, porque não quis dar motivo para um tumulto ou chamar a atenção do governo. Ultimamente tem havido alguns saques."

Clientes frustrados costumam recorrer a estratégias inteligentes. Digamos que uma cliente solitária encontre um artigo raro, como papel higiênico. Ela enche o carrinho, ignorando o limite de quatro rolos permitidos por compra individual, depois telefona ou envia uma mensagem de texto a amigos ou parentes para irem ajudá-la na hora de passar pelo caixa (e distribuir uma parte de sua pequena fortuna).

Para os que esperam esses reforços, a vigilância é fundamental. Quando as prateleiras se esvaziam, outros clientes podem entrar em confronto, tentando pedir, trocar ou mesmo roubar seus objetos do desejo. Para evitar conflitos, produtos são escondidos em corredores raramente usados no supermercado por quem pretende comprá-los mais tarde, ou para um amigo que está chegando. Finalmente, encontrei um pouco de café (depois de três dias, quatro supermercados e dois cafés da manhã à base de Red Bull) - acabei descobrindo meia dúzia de pacotes de café moído espertamente escondidos sob uma pilha de sacos de ração para gatos.

Na hora de pagar, podem ser usados estratagemas mais interessantes. O dr. Juan Paz admite que, às vezes, mostra rapidamente uma identidade "do tipo oficial" (na verdade, uma carteirinha de sócio de um clube esportivo) a funcionários incautos, afirmando ser membro do temido Departamento de Proteção do Consumidor da Venezuela.

"Eles nunca se dão o trabalho de conferir", disse. "Temem que eu fique irritado pelo fato de duvidarem das minhas credenciais."

Outro que usa seus truques é Andrés Díaz (pseudônimo), um empreendedor que estudou nos EUA. Ele também é uma pessoa bem de vida, fato que lhe permite pagar os preços exagerados do mercado negro ou então recorrer aos restaurantes (que costumam ter bom estoque) se precisar. Entretanto, ele confessa que usa um recurso ocasional que chama de "a opção nuclear": fingir que não é venezuelano.

"Se você fingir que é estrangeiro e não fala espanhol", diz o caraquenho de pele clara, "pode fazer de conta que não entende o motivo pelo qual eles não permitem que você compre os produtos. Tudo o que precisa fazer é manter um olhar inexpressivo, segurar o dinheiro, esforçar-se para parecer indignado e perplexo num espanhol entrecortado, idiota. Esse tipo de turista é tão raro hoje na Venezuela, que eles não têm ideia do que fazer. Acabarão vendendo o que você quiser só para acabar com uma situação desagradável." Ele recomenda não usar a técnica onde alguém possa reconhecê-lo.

Intrigado, decidi tentar essa estratégia. Evidentemente, depois de bons dez minutos de pantomima, e de recorrer a uma gerente que aparentemente exagerara sua familiaridade com o inglês, saí do supermercado segurando orgulhosamente seis deliciosos pacotes de café San Domingo. Em casa, fiz um brinde ao Tio Coelho.

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

DANIEL LANSBERG-RODRÍGUEZ É JORNALISTA

‘A violência como argumento’, de Carlos Brickmann

Publicado na coluna de Carlos Brickmann

O presidente do Judiciário, um dos três Poderes da República, é visto na rua por um militante petista assalariado (é funcionário do gabinete da deputada federal Erika Kokay, PT de Brasília, e recebe do Tesouro R$ 4.800 mensais). O militante chama amigos para vaiar o ministro, a quem não perdoa por ter votado pela condenação de réus do Mensalão, especialmente José Dirceu. Em seguida, o grupo decide perseguir o ministro Joaquim Barbosa e ─ na expressão que usaram ─ “botá-lo pra correr”. Gravam as imagens do que consideram uma extraordinária façanha e a colocam no YouTube. Se isso não é uma tentativa fascista de intimidar adversários pela força, de que é que se trata?

 

Alberto Youssef, preso na Polícia Federal em Curitiba sob suspeita de chefiar esquema de lavagem de dinheiro, localizou na cela um aparelho que, acusa, monitora conversas. É escuta ambiental clandestina, sem ordem judicial. Youssef sabe muito, é um arquivo vivo. Quem estaria interessado em saber se e o que ele está falando, e talvez pense em transferi-lo para a pasta de arquivos mortos?

Sob a alegação de investigar o uso de um telefone celular por José Dirceu, no presídio, o que é proibido aos condenados, o Ministério Público pediu à Justiça autorização para monitorar telefones de áreas próximas. Mas não informou à Justiça que, nestas áreas, está o Palácio do Planalto, sede do Poder Executivo. Grampear a Presidência? E sem informar o juiz? Se nem a presidente da República tem garantias de respeito a seus direitos básicos, quem é que as tem?

O ovo da serpente
Em poucos dias, houve desrespeito aberto a dois dos três poderes da República. O outro é presidido pelo senador Renan Calheiros, para que desrespeitá-lo?

Prever é prover
O senador Edison Lobão Filho, PMDB, é um símbolo de tudo: chegou ao Senado como suplente, sem jamais ter tido um voto; é filho do ministro Lobão, que cuida da Energia, e da deputada Nice Lobão; é o candidato da família Sarney ao Governo maranhense. Ele promete, se eleito, “implodir o presídio de Pedrinhas”.

Lobãozinho sabe o que faz. Presídios no Maranhão, quanto menos, melhor.

Dedo podre
A ex-ministra Gleisi Hoffmann, candidata do PT ao Governo do Paraná, não tem sido exatamente feliz em suas indicações. Seu assessor mais próximo, favorito para coordenar a campanha, era Eduardo Gaievski, agora preso pela acusação de pedofilia. A coordenadora da campanha na região de cidades importantes como Cianorte e Cascavel, Regina Dubay, PR, prefeita de Campo Mourão, é suspeita de comandar o esquema que obriga funcionários públicos comissionados a devolver parte dos salários para uma quadrilha que, segundo o Ministério Público, está “instalada no alto escalão”. Um diretor da Secretaria Municipal da Saúde foi preso em flagrante após recolher o dinheiro dos funcionários. O delegado Elmano Ciriaco diz que haverá novas prisões, inclusive no alto escalão.

Em tempo: até há poucos dias, o coordenador da campanha de Gleisi, no lugar de Gaievski, era o deputado André Vargas ─ aquele do jatinho do doleiro.

Telhado pouco
O governador paulista Geraldo Alckmin, preocupado com a notícia de que, em tempo de falta dágua, o Palácio dos Bandeirantes aumentou o consumo em 22% de dezembro até agora, garantiu que está economizando, e que até “acelerou o banho”.

Ele pode. A cada dia precisa de menos tempo para lavar o cabelo.

Só sobrou um
O senador Pedro Simon, 84 anos, decidiu candidatar-se a novo mandato de oito anos no Senado. Simon é uma figura notável: é do PMDB, passou pelo PTB, exerce mandatos há 56 anos e ninguém jamais colocou em dúvida sua honestidade, devoção ao interesse público e dedicação ao trabalho. Mas desidratou o PMDB gaúcho, que já foi forte e hoje nem consegue formar uma boa chapa de candidatos a deputado federal.

Sob sua sombra, nenhuma liderança floresceu. O PMDB gaúcho tem hoje quatro deputados federais, Osmar Terra, Alceu Moreira, Eliseu Padilha e Darciso Perondi. Padilha quis disputar o Senado, mas Simon teve preferência; então, se aposenta. Moreira, com ficha suja, não pode candidatar-se. Os demais astros do PMDB, como o ex-governador Germano Rigotto, foram-se apagando e perdendo votos. Saíram de cena sem deixar substitutos.

Bonitos e gostosos
É meio difícil assistir a seco, mas deve-se fazer o sacrifício: a Exposição de Ovos de Páscoa decorados, em benefício do Instituto Cervantes, é uma beleza. Vale pelo aspecto, vale pelo aroma (mas quem quiser comê-los terá de entrar no leilão pelo portal). Até o próximo dia 7, de terça a sexta, das 14 às 22 horas, e aos sábados, das 9 às 14h, na Avenida Paulista, 2439, SP.

Eficiência
Aconteceu no Rio. Num poste, uma pichação com apologia ao crime. A Prefeitura, dona do poste, foi avisada, houve indignação geral com o vandalismo e a promessa de que o poste seria imediatamente pintado ─ o que significa, ao contrário do que possamos imaginar, que a pintura seria iniciada em cinco dias úteis.

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Fonte:
Blog Augusto Nunes, veja.com.br

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