POLÍTICA: "Vou de jegue", por Mary Zaidan

Publicado em 18/05/2014 19:59 e atualizado em 19/05/2014 07:00 469 exibições
extraído do blog do Noblat, em O Globo
POLÍTICA

Vou de jegue, por Mary Zaidan

 

Primeiro, as promessas de mundos e fundos. Um legado nunca antes visto neste País se materializaria em mais aeroportos, portos, transporte urbano, telecomunicações. E ai dos que não acreditassem no conto. Uns danados de pessimistas, gente que aposta no quanto pior, melhor. Antipatriotas.

Agora, com apenas 38% das 93 obras da Matriz de Responsabilidade da Copa prontas, de acordo com o Sinaenco, o jeito é apelar para a alegria, para a alma e o ânimo do povo brasileiro, como fez Dilma Rousseff, sem esconder o desânimo. E incentivar o torcedor a ir assistir aos jogos a pé, de bicicleta e até de jegue, como sugeriu o ex Lula, para quem é “babaquice” essa história de metrô levando gente até dentro dos estádios.

Mais do que acinte, cretinice. Lula, aquele que como ninguém sempre soube colocar as palavras e até o seu português ruim para lhe garantir aplausos, se ferroou com o seu próprio veneno. Fez chacota com o povo. Pior, com os mais pobres, com aqueles que dependem de transporte público. Que deveriam ter transporte digno todos os dias, que não montam e nem são “jumento”.

O Brasil está fazendo a Copa mais cara já realizada no planeta e com a maior taxa de obras inacabadas. Algumas, concluídas, de nada servem, como o terminal de passageiros de Natal, uma obra de mais de R$ 70 milhões, que, segundo o presidente do TCU, Augusto Nardes, está pronto, mas não pode receber turistas devido ao desnível na construção da plataforma de embarque.

 

Itaquerão ainda em obras. Foto: Beatriz Souza /  EXAME.com

 

Incluem também estádios, como o Itaquerão, em São Paulo, cidade que vive a maior seca de sua história e que terá de torcer por mais secura no jogo de abertura da Copa para não molhar os torcedores.

Os sem-cobertura vexam o País, mas preocupam menos do que os sem-teto que ameaçam protestos no dia D. Acampados na vizinhança do estádio com aval do prefeito Fernando Haddad e bajulados pela presidente quando ela deu por concluída a arena corintiana, eles podem até ser aliados, mas só enquanto a conveniência assim ditar. Portanto, é um risco posto.

Primeiro veio o bordão “imagina na Copa”, usado com humor para demonstrar insatisfação com o que não funcionava direito. Depois vieram as manifestações do ano passado, desaguadouro para críticas contra a baixíssima qualidade dos serviços públicos essenciais: saúde, escola, transporte. Vieram o vandalismo, a violência, o “não vai ter Copa”.

Só isso seria suficiente para responsabilizar Lula, que, com sua provocação infeliz, atiçou quem paga muito para não ter quase nada em troca, quem não é “babaca”.

Mais cedo ou mais tarde o troco vem. A urna não discrimina quem chega “a pé, de bicicleta, de jumento, ou de qualquer coisa”.

 

Mary Zaidan é jornalista. Trabalhou nos jornais O Globo e O Estado de S. Paulo, em Brasília. Foi assessora de imprensa do governador Mario Covas. Atualmente trabalha na agência 'Lu Fernandes Comunicação e Imprensa'. Escreve aqui aos domingos. Twitter: @maryzaidan, e-mail:

 

Babacas ingratos, por Valdo Cruz (Folha)

Um dia, o PT relança o fantasma do medo da volta ao passado num comercial de TV. Noutro, seu líder maior diz que o brasileiro está acostumado a coisas do passado e que é uma babaquice preocupar-se com o conforto do futuro.

Explico: em defesa do governo de sua criatura, Lula chegou ao ponto de dizer que é uma babaquice a preocupação de ter metrô até a porta dos estádios. Para ele, brasileiro "vai a pé, descalço, de bicicleta, de jumento, de qualquer coisa".

Podemos, então, traduzir assim. Estamos tão habituados a sofrer que não há problema em seguirmos do mesmo jeito. Afinal, metrô dentro de estádio é uma besteira, coisa de país desenvolvido, que dá conforto e segurança a seus cidadãos.

O comentário infeliz de Lula tem endereço certo. Movimento captado pelo comando da campanha de Dilma mostra que uma parcela do eleitorado cativo do PT ameaça debandar por insatisfação com promessas não cumpridas pelo governo.

Exemplo: a empregada de um integrante da cúpula do PT disse ao chefe que não iria votar em Dilma. Motivo: ganhou uma casinha do Minha Casa, Minha Vida sem piso. Passado um ano, até hoje não colocaram a cerâmica prometida.

De casos como esse surgiu a decisão de fazer o comercial para despertar no eleitorado o medo de volta ao passado. Uma busca de mostrar a esses eleitores que devem agradecer ao PT e não reclamar muito pelo que falta. A alternativa é o bicho tucano, que te pega, desemprega e devolve para pobreza.

Ou seja, a funcionária do petista está sendo, em sua avaliação, uma ingrata. Ganhou casa do governo e pode não votar na Dilma. É preciso dizer a ela que é um absurdo reclamar do piso de cimento grosso. Tal como o torcedor deve se contentar em andar a pé até o estádio.

Afinal, na visão petista, de ingratos bastam alguns empresários. Encheram os bolsos de dinheiro e tramam derrotar a presidente Dilma. 

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Fonte:
Blog do Noblat + Valdo Cruz/FSP

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