Inflação: Governo sugere aos brasileiros trocarem a carne pelo ovo

Publicado em 09/10/2014 04:35 e atualizado em 09/10/2014 05:36 1486 exibições
Fazer churrasco ficou mais caro em setembro, (leia mais em veja.com)

Preços

Contra inflação, secretário da Fazenda sugere que brasileiros troquem carne por ovos

O secretário de Política Econômica Márcio Holland afirmou que a alta de 3,17% no preço da carne em setembro não é preocupante

O secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Márcio Holland

O secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Márcio Holland (Zé Carlos Barretta/Folhapress/VEJA)

O secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Márcio Holland, sugeriu aos brasileiros mudança de cardápio ao comentar o resultado do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que subiu a 6,75% ao ano com o resultado de setembro. Diante da alta do preço da carne, Holland sugeriu que a população consuma mais ovos e aves.

O preço da carne teve alta de 3,17% no mês, contribuindo para aumento do grupo alimentação e bebidas de "forma relevante", segundo Holland. "Estamos no período de entressafra, coincidindo com período de seca. Isso acaba elevando o custo unitário", disse. "Ao mesmo tempo tem aumentos de demanda externa", afirmou. Segundo o secretário, o brasileiro tem uma série de outros produtos substitutos para carne, como frangos, ovos e outras aves, que vêm apresentando comportamento benigno este ano. Holland ainda destacou alguns produtos, como a farinha de mandioca, que apresenta queda de 26,54% no ano.

O secretário também minimizou o impacto político do número divulgado nesta quarta-feira. "A inflação independe de ciclos políticos. É resultado do comportamento da economia, por situações diversas", afirmou.

Fazer churrasco ficou mais caro em setembro

Alimentação e Bebidas foi grupo cujos preços mais subiram em comparação com agosto no IPCA. Carne disparou 3,17% e cebola, 10,17%

A carne, sozinha, por 0,08 ponto porcentual da inflação geral do mês (de 0,57%)

A carne, sozinha, por 0,08 ponto porcentual da inflação geral do mês (de 0,57%) (Thinkstock)

Depois de três meses de desaceleração de preços, o grupo Alimentos e Bebidas voltou a ser o destaque de alta em setembro, com avanço de 0,78%, a maior inflação entre todos os grupos pesquisados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) no âmbito do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). A carne, item importante em qualquer churrasco, foi responsável, sozinha, por 0,08 ponto porcentual da inflação geral do mês (de 0,57%). 

Segundo o IBGE, o quilo da carne ficou, em média, 3,17% mais caro, chegando a 5,06% em Campo Grande e 6,12% em Vitória. A menor variação ficou com o Rio de Janeiro, com alta de 1,00%. Outros produtos importantes de um churrasco também aumentaram em setembro, como cebola (10,17%), cerveja em casa (3,48%), farinha de mandioca (2,52%) e  carvão vegetal (1,73%). O único herói das festas no mês foi o tomate, que registrou deflação de 9,42%.

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No Estadão: Inflação em 12 meses ganha força e salta para o maior nível em 3 anos

A inflação em 12 meses no Brasil se distanciou ainda mais acima do teto da meta do governo, de 6,50%, em setembro - divulgou nesta quarta-feira, 8, o Instituto de Geografia e Estatística (IBGE). O ritmo anual de alta dos preços da economia foi de 6,75% no período - o maior nível desde outubro de 2011. No mês, em relação a agosto, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) variou 0,57%. O resultado ficou acima do intervalo das estimativas dos analistas  que iam de uma taxa de 0,42% a 0,50%, com mediana de 0,48%. Na última medição, a inflação mensal havia sido de 0,25%. Em 12 meses, o IPCA apontava alta de 6,51%.

O setor de Alimentos e Bebidas, após três baixas consecutivas, subiu 0,78% em setembro em relação a agosto. Com impacto de 0,19 ponto porcentual, foi o principal responsável pela alta média dos preços. O produto "vilão" da vez é a  carne, com 0,08 ponto porcentual de peso. O preço do quilo do alimento ficou, na média, 3,17% mais caro. Isoladamente, o alimento que ficou mais caro foi a cebola: 10,17%.

 

O segundo segmento de maior importância na alta do IPCA foi Transportes, cujo avanço foi de 0,63% no mesmo período. O preço das passagens aéreas foi responsável por 0,07 ponto porcentual dessa alta. A inflação ligado a carros teve também alguma relevância, com alta de 1,35% nos custos de consertos de automóveis e de 0,76% na compra de autos novos.

Serviços. A inflação de serviços ficou em 0,77% em setembro. Em agosto, a alta havia sido de 0,59%. "Os serviços aceleraram na passagem de agosto para setembro, influenciados pelas passagens aéreas, que subiram, e pelo fim da ajuda dos hotéis, que ajudaram a conter a taxa em agosto", explicou Eulina Nunes dos Santos, coordenadora de Índices de Preços do IBGE.

Fora as passagens aéreas, como dito acima, os preços das diárias em hotéis registraram alta de 0,81% em setembro, após a forte queda de agosto, de 10,13%. Segundo Eulina, os recentes aumentos de preços nas passagens aéreas podem ser uma recuperação das reduções verificadas na época da Copa, quando houve menor demanda por voos. "Provavelmente eles estão recuperando aquele momento lá", avaliou. Em 12 meses até setembro, a alta nos preços dos serviços ficou em 8,58%, acima da taxa de 6,75% registrada pelo IPCA no período.

Meta de inflação é para o ano e não mensal, diz secretário da Fazenda

Chefe de Política Econômica, Márcio Holland, minimizou o fato de inflação ter atingido o maior nível em 3 anos em setembro

 

O secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Márcio Holland, minimizou o estouro do teto da meta de inflação, que segundo o IBGE atingiu em setembro 6,75%. É o maior nível desde 2011. (3 anos).

Segundo ele, a meta de inflação é para o ano e não para o mês. Holland também minimizou o impacto político do número divulgado hoje. "A inflação independentemente de ciclos políticos. É comportamento da economia por situações diversas", afirmou.

Holland afirmou ainda que uma situação importante a se destacar é que a inflação de alimentos e bebidas, mesmo que esteja em movimento de alta em setembro, está sendo menor que nos últimos anos. Ele disse ainda que o País está vivendo um regime de seca. 

"Alguns estão em seca há quatro anos. Esse regime de seca tem impacto no caso da energia elétrica", disse. Ele ainda defendeu que o comportamento dos preços monitorados mostram que não se sustenta hipótese de represamento de preços. 

Represamento de preços. Holland afirma que não se sustenta a hipótese de represamento de preços e parte das explicações para a alta de preços de itens monitorados se deu pelo reajuste de preços de energia residencial, que subiu 1,37% no mês. 

"Nós também observamos reajustes em passagem aérea, por dois meses consecutivos teve reajuste acima de 10%. Contudo, acumulado no ano de 2014, acumulam redução de preços de 24%", disse.

Holland afirmou ainda que carnes, dentro do item de alimentação e bebidas, tiveram aumento de 3,17% no mês, contribuindo para aumento do grupo alimentação e bebidas de "forma relevante". 

"Estamos no período de entressafra, coincidindo com período de seca. Isso acaba elevando o custo unitário", disse. 

"Ao mesmo tempo tem aumentos de demanda externa", afirmou. Segundo o secretário, o brasileiro tem uma série de outros produtos substitutos para carne, como frangos, ovos e outras aves, que vem apresentando comportamento benigno este ano. 

O secretário ainda destacou alguns produtos, como a farinha de mandioca, que apresenta queda de 26,54% no ano. Segundo ele, os preços no atacado, que estavam em deflação, apresentaram recuo. 

"Esses preços no atacado também devem ajudar no controle da inflação ao consumidor nos próximos meses, outubro, novembro e dezembro", afirmou. A avaliação dele é de que os últimos três meses tenha um comportamento melhor que o último trimestre do ano passado, "de sorte que a inflação convirja para as metas".

 

Editorial do Estadão: Estragando a foto

Sair mal na foto é uma tristeza, mas estragar a foto da classe é um vexame. Brasil, Argentina e Venezuela cometeram esse papelão, ao arruinar as projeções de crescimento e de inflação da América do Sul publicadas pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). A economia da região deve crescer apenas 0,7% neste ano, muito menos que a média dos países emergentes, com expansão estimada em 4,4%, segundo o Panorama Econômico Mundial divulgado ontem.

O desempenho dos sul-americanos deve ser mais modesto do que tem sido desde antes da crise. Mas a perda de impulso está longe de ser, na maior parte da região, tão desastrosa quanto parecem indicar as médias de crescimento de 0,7% em 2014 e de 1,6% em 2015.

O pior resultado, entre as economias mais dinâmicas da região, deve ser o do Chile, com 2% de aumento do Produto Interno Bruto (PIB). Taxas melhores são estimadas para Colômbia (4,8%), Peru (5,1%), Equador (4%), Bolívia (5,2%) e Paraguai (4%).

Com esses componentes, a foto seria razoável. Mas o quadro geral ficou feio por causa de três das economias de maior peso na região. A maior de todas, a brasileira, deve expandir-se em 2014 apenas 0,3%, segundo estimam os economistas do FMI. É número pouco melhor que a mediana das projeções do mercado financeiro, de 0,24%, recolhidas na última pesquisa Focus do Banco Central. Para o PIB argentino, os técnicos do FMI calculam uma retração de 1,7% neste ano, seguida de mais um resultado negativo de 1,5% em 2015. Para a produção venezuelana, são apontadas duas contrações - de 3% em 2014 e de 1% em 2015.

Brasil, Argentina e Venezuela formam uma espécie de triângulo das Bermudas na economia da América do Sul. A coincidência desses países no mau desempenho é perfeitamente natural e facilmente explicável. Não se trata de casualidade.

Embora em graus diferentes, os governos dos três países têm-se mostrado estatizantes, intervencionistas, inclinados a disfarçar os desarranjos econômicos e, é claro, a atribuir a outros as consequências de seus erros. Se a economia perde vigor, é porque há uma crise internacional. Se a moeda se valoriza ou desvaloriza perigosamente, é por causa da política monetária de alguma potência. Se a dívida externa se transforma em pesadelo, é por culpa de fundos abutres ou de banqueiros gananciosos (nunca se discute como a dívida se formou, cresceu e se tornou insustentável).

A cura da inflação nunca passa pelo controle do gasto público. Às vezes, nem o aperto monetário é admitido. Juros altos atrapalham e, portanto, é perfeitamente justificável diminuir de forma voluntarista o custo do dinheiro. Depois, é mais simpático e revolucionário combater a inflação por meio do controle de preços.

Se, apesar disso, a inflação sai dos trilhos, a culpa é dos especuladores e exploradores do povo. Entre esses exploradores se incluem, naturalmente, os banqueiros. Isso rende até propaganda eleitoral. Se um banco central autônomo eleva os juros com o pretexto de combater a inflação, ninguém deve iludir-se. Os banqueiros serão os únicos beneficiários e usarão essa política para tirar a comida do prato do trabalhador.

O bolivarianismo, bandeira e doutrina do governo venezuelano, é apenas a expressão mais completa, mais acabada e mais desastrosa desse tipo de política. A presidente Cristina Kirchner tem-se esforçado para chegar lá. É preciso reconhecer seus méritos. Não é fácil de criar problemas de abastecimento de comida num país com a tradição agropecuária da Argentina, mas ela, como alguns ilustres antecessores, conseguiu.

Como os Kirchners, a presidente Dilma Rousseff tem-se mostrado simpática ao bolivarianismo e adepta de seus métodos econômicos e políticos. Tem sido fiel, nesse ponto, a seu criador e guru, o ex-presidente Lula. O mal planejado e mal executado projeto da caríssima Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, é um dos produtos dessa simpatia. As consequências econômicas do bolivarianismo e de suas imitações estão resumidas nos fracassos de três governos dos mais desastrosos da América Latina contemporânea.

MA FOLHA, ARTIGO DE VINICIUS TORRES FREIRE

Alta de juros e impostos

Piora dos números da inflação e dólar mais caro limitam as alternativas para o próximo presidente

A INFLAÇÃO acumulada em doze meses passou de 6,51% em agosto para 6,75% em setembro. O aumento de dois décimos obviamente não vai causar revolta popular. Também não basta para tornar, por enquanto, ainda pior a avaliação de uma política econômica que conseguiu produzir crescimento quase zero com inflação resistente em níveis preocupantes e além do mais maquiada por controles de preços insustentáveis. Por enquanto. O próximo presidente vai ter de lidar com uma carestia cada vez mais complicada e custosa de abater.

A inflação acumulada ficou perto do previsto no mais recente Relatório de Inflação do Banco Central, publicado no final de setembro, estimada em 6,6%. Mas, para começar, as projeções do Banco Central, e não apenas por lá, pressupunham uma taxa de câmbio, o "preço do dólar", mais comportada, em torno de R$ 2,25. Dólar mais caro, em tese e tudo mais constante, pressiona os demais preços para cima.

Por enquanto, temos visto o dólar variando em torno de R$ 2,40. Dadas as cambalhotas costumeiras do mercado de moedas e as reviravoltas que temos visto desde pelo menos maio do ano passado, é muito difícil saber se o câmbio vai se acomodar nesse nível, se vai baixar ou dar outros saltos. Mas a previsão do tempo não é de calmaria, dadas as mudanças importantes na economia mundial.

Isto é, trata-se da tão especulada mudança da política monetária americana (alta de juros, menos capital sobrando no mundo), do ritmo menor de crescimento chinês, da queda do preço de produtos importantes das exportações do Brasil, todos em tese fatores de desvalorização do real. Problemas econômicos domésticos aliados às incertezas típicas de mudança de governo devem contribuir para o encarecimento do dólar, pelo menos até o fim da eleição, do ano ou talvez até bem entrado o ano de 2015, a depender da política econômica insinuada pelo próximo presidente.

Um problema de tolerar uma inflação rondando os 7% por muito tempo pode ser até político. A julgar por pesquisas de percepção da situação econômica dos últimos anos, a insegurança econômica, para não dizer irritação, costumava a aumentar com inflação acima de 6%, mais ou menos a depender da alta de preços de comida e bebida, que aliás voltaram a incomodar de novo, pelos dados de setembro.

Um outro problema, claro, é que o custo de conter a alta de preços aumenta com a alta e a persistência da inflação. Além do mais, uma atitude tolerante, para não dizer negligente, do próximo governo vai deteriorar ainda mais as expectativas --e não apenas de inflação.

Em suma, a alta da inflação por ora parece marginal, mas vai reduzindo o espaço e o tempo de manobra do presidente que assumir em janeiro. Em geral, é possível manter a inflação sob controle com uma combinação de controle de gastos públicos com taxas de juros. Mas não há nem tempo nem meios para tentar segurar preços com política fiscal (gastos), dada a miséria da arrecadação de impostos e despesas obrigatórias, embora metas críveis para o deficit e um aumento de impostos pudessem ajudar.

O trabalho todo vai sobrar para a taxa de juros. Ou vai sobrar coisa pior.

Veja a inflação do churrasco: 

Churrasco mais caro

Os principais itens de um churrasco ficaram mais caros também no acumulado do ano, com exceção do tomate, o herói das festas

Item Inflação em setembro Inflação em 2014
Carnes 3,17% 12,23%
Linguiça 0,32% 4,00%
Frango em pedaços 1,18% 3,03%
Tomate -9,42% -8,95%
Cebola 10,17% 32,89%
Vinagre 0,13% 4,54%
Sal 0,67% 5,59%
Farinha de mandioca 2,52% 26,54%
Pão francês 0,38% 5,83%
Carvão vegetal 1,73% 13,23%
Cerveja 3,48% 5,61%
Refrigerante 1,24% 6,24%
Sorvete 0,73% 9,87%
IBGE
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Veja.com + Estadão

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