"Enxurrada de más notícias" para o PT, artigo de ELIANE CANTANHÊDE

Publicado em 10/10/2014 06:13 1036 exibições
na Folha de S. Paulo, edição desta sexta-feira (+ Eduardo Gianetti + Painel)

ELIANE CANTANHÊDE

Enxurrada de más notícias

BRASÍLIA - Há um empate técnico, mas Aécio abrir o segundo turno numericamente à frente de Dilma dá gás aos tucanos e aumenta a agonia dos petistas, em meio à enxurrada de más notícias. Não é só o PSDB que está ganhando corpo, é o PT que está perdendo discurso.

A campanha de Aécio não tem nenhum fato extraordinário nem pulo do gato, mas se beneficia de uma confluência assombrosa: os escândalos envolvendo o PT e o desmanche da economia nos anos Dilma.

Segundo o ex-diretor Paulo Roberto Costa, "dos 3% [de roubo na Petrobras], 2% era para atender o PT". O doleiro Youssef acrescenta: quem "operava a área de serviços" era João Vaccari, tesoureiro do partido.

A Petrobras, portanto, foi privatizada pelo governo Lula para o PT, o PMDB e o PP. Sugaram tanto que a companhia símbolo do país perdeu credibilidade, perdeu valor de mercado, afundou em escândalos. Quantos anos demorará para se recuperar e voltar a ser pública? Sabe-se lá.

Na economia: a semanas da eleição, a inflação estoura a meta, a previsão de crescimento continua despencando e o FMI constata que os erros são internos, não externos, como alega o governo. Tudo isso num contexto adverso: inflação alta, PIB baixo; juros lá em cima, indústria sofrendo; contas públicas bagunçadas, contas externas desfavoráveis.

Indiferente a tudo isso que vem desmoronando sobre a sua campanha, Dilma investe nos palanques do camarada Nordeste e troca o bordão "ricos contra pobres" por "elites contra nordestinos", enquanto ataca a política econômica e os dados sociais do governo Fernando Henrique.

Parece pouco para enfrentar os escândalos da Petrobras e os dados da economia, numa conjuntura desfavorável para Dilma e favorável para Aécio. Pelo sim, pelo não, o PT põe Dilma cara a cara com o inimigo e protege Lula do desastre atrás das trincheiras. Se Dilma cair, Lula poderá subir em 2018. Mas só se escapar dos estilhaços da Petrobras.

EDUARDO GIANNETTI

A terceira onda

Imagine um montículo delgado de areia na praia. Se você deixar cair um único grão de areia em seu cume, explica o físico dinamarquês Per Bak, três coisas podem ocorrer: ele pode repousar no ponto onde caiu; deslizar suavemente pela encosta ou desencadear uma avalanche que provoca o colapso do montículo.

O exemplo ilustra como sistemas de aparência estável e robusta, tanto na natureza como nas relações humanas, podem revelar-se singularmente frágeis. Sob a placidez do equilíbrio, eles estão sujeitos à ocorrência de súbitas, inesperadas e, por vezes, explosivas mudanças.

A ruptura é o efeito da ação conjunta de duas coisas: caos e complexidade. O caos denota a alta sensibilidade do sistema a mínimas variações nas condições iniciais (como no conhecido "efeito borboleta"). A complexidade remete ao modo como as partes do sistema, uma vez fora do repouso, passam a interagir de forma caprichosa e cumulativa até um novo equilíbrio.

Tudo isso me faz pensar na política brasileira. Duas súbitas e inesperadas ondas de manifestação popular recentes --verdadeiras avalanches que varreram a cena e pegaram os mais argutos analistas de surpresa-- parecem sugerir que a solidez aparente do nosso atual sistema de poder, assentado na "velha política" fisiológica e corrupta, esconde na verdade enorme fragilidade.

A primeira onda foram as manifestações de junho. Na superfície, a calmaria política de uma sociedade civil anestesiada. Mas bastou um "grão de areia" --os 20 centavos-- para deflagrar um gigantesco movimento de âmbito nacional. O efeito foi uma explosão coletiva de insatisfação popular que colocou em xeque toda a política institucionalizada e deixou o nosso patronato político aturdido e acuado.

A segunda foi a ascensão meteórica de Marina. Quando tudo parecia indicar a sexta reprise do embate PT x PSDB no primeiro turno, o trágico acidente de Eduardo Campos foi o estopim de uma espantosa e imprevista reviravolta. Por algumas semanas, Marina encarnou a promessa de ruptura e a esperança de genuína mudança na ordem política.

A virulência dos ataques a ela é índice da ameaça que representou.

Faltou pouco. Assim como se ergueram as duas ondas refluíram sob o impacto de condutas violentas --a infiltração black bloc e o marketing selvagem-- deixando um halo de frustração e perplexidade.

Fatos isolados? Creio que não. Desconfio que algo oculto aos olhos humanos esteja em gestação nas entranhas da sociedade. Talvez o Brasil esteja grávido: no limiar de um parto temporão de cidadania. Depois de junho e do primeiro turno, quem ousará prever o grão de areia e a amplitude da terceira onda?

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Fonte:
Folha de S. Paulo

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