"Cubanos em alto mar", artigo de LEONARDO PADURA

Publicado em 11/10/2014 02:50 495 exibições
na Folha de S. Paulo deste sábado (+ JUAN ÁRIAS, DO EL PAÍS)

LEONARDO PADURA

Cubanos em alto mar

Quase qualquer cidadão de Cuba pode tentar emigrar, mas a opção por barcos precários ainda é comum

Alguns dias atrás, as águas do Golfo do México foram o palco de uma tragédia pavorosa relacionada a cidadãos cubanos decididos a emigrar. A bordo de uma embarcação improvisada, equipada com um motor de automóvel no qual se inseriu uma hélice, 32 pessoas se lançaram ao mar em busca da costa mexicana para, uma vez nesse país, iniciar a travessia por terra que as levaria à fronteira dos Estados Unidos. Por sua condição de cubanos, esses viajantes poderiam receber asilo e residência imediatos graças à chamada Lei de Ajuste Cubano, que prevê esses privilégios para os naturais da ilha se eles põem o pé em terra norte-americana.

Mas, no segundo dia de navegação, o motor deixou de funcionar, e o barco ficou à deriva. Vários dias depois os migrantes foram resgatados, mas 11 deles já tinham morrido de desidratação, enquanto seis tinham desaparecido tentando retornar à costa de Cuba. Os sobreviventes foram levados ao México e, depois, puderam seguir viagem em direção aos Estados Unidos.

Ao longo de mais de cinco décadas de divergências entre Cuba e os Estados Unidos, iniciadas com o triunfo da revolução que desde 1961 se declarou socialista, milhões de cubanos emigraram para o país ao norte, pelas mais diversas razões: desde a debandada inicial dos repressores vinculados ao ditador Batista até os que, hoje, apenas querem melhorar suas condições econômicas, passando por aqueles que deixaram Cuba por razões políticas ou situações familiares.

As histórias dessa emigração também são diversas, e as mais dramáticas de todas são essas tentativas de chegar ao território norte-americano em embarcações improvisadas. Quinze anos atrás, uma dessas aventuras celebrizou o menino Elián González, milagrosamente resgatado em alto mar por um pescador da Flórida.

Durante anos os guardas de fronteira cubanos se encarregaram de deter os cidadãos que eram surpreendidos tentando fugir.

Desde a década de 1990, porém, os acordos migratórios firmados por Washington e Havana passaram a responsabilidade para o serviço de guarda costeira dos Estados Unidos, que devolve à ilha os navegantes interceptados no mar, mesmo quando estejam em águas territoriais americanas.

Hoje os cubanos que chegam ao território americano têm o direito de evocar a Lei de Ajuste Cubano. Além disso, recentemente Cuba flexibilizou suas leis migratórias, e quase qualquer cubano pode tentar emigrar.

Mas o drama começa quando algum candidato a migrante tem o visto norte-americano negado e procura outra alternativa para sair da ilha, como a que foi praticada pelos 32 náufragos desta tragédia mais recente.

A Lei de Ajuste Cubano e as restrições consulares são o motor que leva as pessoas a tentar essa solução desesperada. O combustível é dado pela conjuntura econômica cubana, que continua a ser árdua para muitos. Os resultados trágicos continuarão a acontecer enquanto não se desativar o motor e não desaparecer sua fonte de energia.

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Fonte:
Folha de S. Paulo + El País

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