Contra valorização do real, Tesouro adianta compra de US$ 11 bilhões

Publicado em 07/10/2010 07:53
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Governo permite compra para saldar dívidas que vencem até 2014 para controlar excesso de dólar - Dólar segue abaixo de R$ 1,70; entrada de capitais externos não se reduziu após a oferta de ações da Petrobras

Numa nova tentativa de conter a valorização do real, o governo ampliou o volume de dólares que o Tesouro Nacional pode comprar antecipadamente para o pagamento da dívida externa. O Tesouro poderá adquirir até US$ 10,7 bilhões em moeda estrangeira para saldar a dívida que vence até 2014.

A regra anterior permitia a compra de dólares para pagar a dívida que vence nos próximos dois anos. Esse prazo foi ampliado e, agora, o Tesouro poderá comprar a moeda norte-americana para quitar compromissos que vencem em quatro anos.
O estoque total da dívida externa brasileira está, segundo último relatório do Tesouro, de agosto, em aproximadamente US$ 56 bilhões (R$ 93,5 bilhões).
O prazo foi ampliado, segundo o governo, porque o Tesouro já tem a maioria dos dólares necessários para quitar a dívida que vence até 2012. Mas não revela quanto tem em caixa para vencimentos nos próximos dois anos.
Embora o Tesouro tenha se negado a comentar a ligação da medida com os esforços do governo para evitar a valorização excessiva do real, a antecipação das compras de dólares poderá ajudar a mitigar os efeitos da entrada da moeda no país.
"A medida foi tomada porque julgou-se adequado acelerar ainda mais as compras de dólares pelo Tesouro", afirmou o chefe da assessoria econômica do órgão, Jeferson Bittencourt.
Nesta segunda-feira, o Ministério da Fazenda elevou de 2% para 4% a alíquota do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) incidente nos investimentos estrangeiros em renda fixa no país.
Mesmo com a medida, o fortalecimento do real ante o dólar ainda não foi totalmente evitado. Ontem, a moeda norte-americana comercial encerrou em alta de 0,42% no mercado interbancário de câmbio, cotada a R$ 1,682.
Contudo, o dólar segue abaixo do nível de R$ 1,70, acendendo o alerta no governo, especialmente após o movimento de entrada de capitais externos não ter reduzido depois da capitalização da Petrobras.
Essa operação contribuiu para a maior entrada de dólares por meio das operações financeiras na série histórica do BC, iniciada em 1982, que ficou em US$ 16,7 bilhões. O recorde anterior foi em outubro de 2009, quando entraram US$ 13,1 bilhões. Na época, o resultado foi influenciado pela oferta de ações do Santander Brasil.
O forte ingresso de dólares levou o BC a comprar US$ 10,8 bilhões no mercado. No ano, as compras já somam US$ 29,3 bilhões, o dobro das compras feitas em todo o ano passado. Com as aquisições, as reservas internacionais já estão próximas do patamar recorde de US$ 280 bilhões.

Pressionado, governo troca discurso por ação no câmbio

Enquanto isso, investidores ganharam tempo para especular com dólar


O governo subiu o tom nas ameaças de intervir no câmbio e, agora, está sendo pressionado pelo mercado a tomar atitudes práticas.
O ministro Guido Mantega (Fazenda) e o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, aos poucos, estão sendo obrigados a mostrar o arsenal alardeado para a "guerra cambial" em curso.
Nos últimos três dias, já foram anunciadas duas medidas e, apesar das negativas da Fazenda, a expectativa é que virão outras.
As intervenções verbais iniciais de Mantega e Meirel- les parecem ter tido algum efeito, na avaliação de especialistas que acompanham diariamente o movimento do dólar mundo afora. Desde o final de agosto, o real valorizou-se menos em relação ao dólar do que outras moedas de países exportadores de commodities como o Brasil.
No entanto, entre o discurso e a ação, os investidores ganham tempo para especular. Inicialmente, com a perspectiva de que o governo só anunciaria alguma medida após o primeiro turno das eleições, estrangeiros interessados em aplicar dinheiro no Brasil trataram de vir logo para o país, ajudando a valorizar ainda mais o real na semana passada.
Como a tributação maior para quem ingressa no Brasil já vinha sendo antecipada pelo mercado, a medida anunciada na segunda-feira perdeu seu "efeito surpresa".
Agora, a expectativa é pela atuação do Fundo Soberano e pela imposição de limites para tentar brecar especulação de bancos e estrangeiros.
O governo pode ainda limitar a atuação de estrangeiros que entram no Brasil, trocam seus dólares por reais e fazem operações de venda futura da moeda norte-americana na Bolsa (BM&F).
Uma possibilidade é aumentar os valores que eles têm de depositar na Bolsa como garantia das operações, algo conhecido no jargão do mercado como margem e que representa uma pequena fração do total movimentado nos contratos por esses investidores.
O problema aí é que uma mudança atingirá todo mundo que negocia nesse mercado, estrangeiros ou não.
Outra possibilidade é o BC limitar o poder dos bancos para negociar com os estrangeiros, o que possibilita que estes entrem no país para ganhar com os juros altos.
O BC poderá ainda retomar a negociação de contratos especiais de câmbio, chamados de "swap reverso". Esses contratos equivalem a uma operação de compra de dólares no mercado, ajudando a desvalorizar o real ante à moeda norte-americana.

FMI sugere controle do câmbio por meio de medidas fiscais

Relatório revisa para cima a previsão de crescimento do PIB brasileiro neste ano

O FMI afirmou ontem que o Brasil e a América Latina precisam adotar novas medidas para lidar com o câmbio diante do intenso fluxo de capitais externos, usando não só políticas monetárias, mas principalmente exercitando instrumentos fiscais.

A sugestão está no "World Economic Outlook" (Panorama da Economia Mundial), relatório divulgado às vésperas das reuniões anuais do Banco Mundial e do FMI em Washington.
O texto afirma que "o aperto fiscal ajudará o Brasil a agir contra o risco de supervalorização cambial" e que, "dados os desafios do forte e persistente fluxo de capitais externos, instrumentos fiscais funcionarão melhor do que os monetários".
O Brasil elevou nesta semana impostos sobre determinados investimentos estrangeiros para evitar a valorização do real em meio ao crescimento do fluxo de capitais estrangeiros.
Olivier Blanchard, diretor econômico do FMI, declarou que há espaço para o controle de capitais que o Brasil vem tentando fazer, mas que ele é limitado à direção do fluxo, não ao seu volume.
Blanchard lembrou também que, após a crise econômica, "o reequilíbrio externo vai implicar a valorização de um grande número de moedas de países emergentes".
O Banco Mundial também reforçou a importância de a América Latina e o Brasil desafogarem políticas monetárias para agir no câmbio. Augusto de la Torre, economista-chefe do Bird para a região, disse que é preciso partir para o arrocho fiscal: "O ritmo do crescimento do gasto corrente precisa se desacelerar e ficar um pouco menor que o PIB nominal".

PROJEÇÕES
O relatório do FMI publicou também revisões das projeções de crescimento das economias mundiais. Para o Brasil, a projeção ficou em 7,5% em 2010 (aumento de 0,4 ponto percentual do estimado em julho). A previsão de crescimento global foi revisada de 4,6% para 4,8%.
O FMI estima que o PIB brasileiro sofra uma desaceleração em 2011, crescendo 4,1%. A previsão geral caiu de 4,3% em julho para 4,2%.

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Fonte: Folha de S. Paulo

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