Irlanda pedirá oficialmente pacote de resgate nesta segunda-feira

Publicado em 21/11/2010 18:45 218 exibições
Sistema bancário irlandês corre o risco de entrar em colapso; expectativa é que pedido venha com proposta de corte de gastos de 10% do PIB, por Jamil Chade, de O Estado de S. Paulo.

GENEBRA - Pela segunda vez desde a eclosão da pior crise financeira nos últimos 70 anos, um país da rica zona do euro será resgatado pelo Fundo Monetário Internacional e pela UE. Domingo, 21, a Irlanda admitiu que fará na segunda-feira o pedido oficial pelo pacote de ajuda para evitar o "colapso" de seu setor bancário e depois de reconhecer que o problema era grande demais para que fosse solucionado apenas por Dublin. O pedido será acompanhado por uma drástica proposta de corte de gastos de € 15 bilhões, 10% do PIB. Mas a UE alerta que isso pode não ser suficiente ainda para atender aos credores e pedirão também a alta nos impostos.

Há seis meses, a Grécia foi resgatada pelo FMI e pela UE em um pacote de € 110 bilhões depois de se descobrir que o buraco nas contas do país ameaçam a própria sobrevivência do euro. A UE, que na criação do euro estabeleceu que não haveria plano para salvar um país de um default, foi obrigada a modificar completamente suas regras. Em 1999, quem não queria a possibilidade do resgate era a Alemanha, temendo que fosse obrigada a pagar por todos.

Agora, o que Berlim temia está se confirmando. Na Grécia, a maior parte dos recursos veio da Alemanha. No caso da Irlanda, a composição do fundo de resgate ainda está em debate, assim como seu tamanho.

Há uma semana, já se falava na necessidade de € 100 bilhões, dos quais quase metade iriam para os bancos e o restante para sustentar as contas do estado. Domingo, os números variavam. Fontes do governo irlandês falavam em € 70 bilhões, contra mais de € 120 bilhões citados pelos ingleses.

Por dias o governo irlandês insistiu que não haveria motivos de pedir um resgate e que tinha dinheiro para pelo menos até meados de 2011. Mas a pressão do restante da UE era para que Dublin aceitasse o pacote e que fosse criado um cordão sanitário para prevenir que a contaminação chegasse a Portugal, Espanha ou Itália.

Domingo, o ministro de Finanças da Irlanda, Brian Lenihan, reconheceu que faria o pedido oficial na segunda, mudando de forma radical seu discurso e depois de discutir o assunto com a cúpula do governo em uma reunião na noite de domingo. Para ele, o dinheiro que viria na forma de um "fundo de contingência" e seria seguido por uma reforma estrutural dos bancos. Isso, segundo ele, colocaria a Irlanda no caminho de uma recuperação "permanente".

Há uma semana o FMI está no país debatendo a situação e avaliando as contas da Irlanda, num claro sinal de que o país não teria como resistir à pressão da UE para que recorresse a uma ajuda externa. A constatação de intensas reuniões foi de que Dublin não teria mesmo como evitar uma intervenção. A negociação para a criação do pacote levará algumas semanas e o governo irlandês quer deixar claro que não será um resgate ao "modelo grego".

"Nossa crise é diferente. A causa das dificuldades foi a crise no setor bancário. Portanto, as discussões estão sendo na criação de um fundo de contingência com um volume muito grande de dinheiro", explicou o ministro. Segundo ele, o volume final dependerá da avaliação do FMI sobre a balança de pagamentos de cada um dos bancos envolvidos. "Estamos falando de dezenas de bilhões de euros", disse. "Mas não de uma cifra de nada como € 100 bilhões", explicou.

Junto com o pacote virá ainda o estabelecimento de um teste de estresse para os bancos irlandeses, assim como uma reforma profunda. Ainda se exigirá que, no futuro, esses bancos mantenham uma liquidez superior e colchões de proteção para que possam se proteger de crises.

Nos últimos meses, os cinco maiores bancos da Irlanda tem visto uma fuga de recursos. Para sobreviver, pediram empréstimos ao Banco Central Europeu equivalente a 170% do PIB do país. "A chave para o governo é a de garantir que não tenhamos um colapso do setor bancário e o que nossos amigos europeus nos disseram é que não querem que isso ocorra ", afirmou o ministro.

Para economias como a britânica, a implosão do setor bancário irlandês teria um impacto profundo no setor privado do Reino Unido e na recuperação da economia diante da exposição de bancos e empresas ao país vizinho.

Exigências

Mas o dinheiro virá repleto de condicionalidades. Os cortes propostos pelo governo chegarão a 10% do PIB, com promessas de que isso tenha um profundo impacto na recuperação imediata da economia. Na Grécia, por exemplo, até hoje a economia não saiu da recessão.

Novos impostos - sobre fortuna e sobre propriedade - serão propostos no caso da Irlanda. Bancos serão nacionalizados, enquanto haveria cortes em gastos sociais e ajuda por cada filho que as famílias hoje se beneficiam. A Irlanda ainda tem o segundo maior salário mínimo da Europa, o que deverá ser reduzido.

A Irlanda, porém, insiste que não há nenhuma previsão de que a condicionalidade inclua uma mudança em seus impostos para empresas. O governo cobra a taxa mais baixa em toda a UE, de apenas 12,5%, e alega que isso tem sido a base de sua política industrial nos últimos 20 anos. "Isso está fora da agenda agora", garantiu Lenihan.

Mas com um déficit de € 19 bilhões, fontes na UE alertam que a Irlanda não terá outra solução à médio prazo que elevar a taxa. "É importante que, de um ponto de vista político e do ponto de vista da nação, possamos resguardar nossos interesses como um estado e os interesses dos contribuintes ", disse o ministro. Ele saudou a declaração do presidente francês, Nicolas Sarkozy, de colocar fora da agenda o debate sobre os impostos por enquanto.

Mas as exigências não são apenas externas. O governo terá um desafio grande para conseguir aprovar no Parlamento no início de dezembro seu pacote de cortes que serviriam de garantias para o FMI. A oposição exige a convocação de eleições gerais, alegando que o governo tem sua popularidade nos níveis mais baixos desde que assumiu o poder. O Partido Verde, que era um dos pilares do governo, retirou seu apoio no final da semana passada.

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Fonte:
O Estado de S. Paulo

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