Ritmo da economia global já lembra nível pré-crise

Publicado em 23/01/2011 15:05 e atualizado em 24/01/2011 13:05 450 exibições
Inflação e alimentos têm alta, como em 2008, mas aquecimento se limita a emergentes

Neste início de 2011, há algo de 2008 no ar - o momento, antes da eclosão da crise global, em que a economia mundial atingiu o máximo aquecimento nas últimas décadas. Agora, mesmo com o mundo rico ainda em marcha lenta, as commodities e os alimentos, como em 2008, estão em alta, e diversos países emergentes, e até um ou outro rico, brigam com a inflação. 

O índice CRB, que mede o preço das commodities no mercado global, atingiu 518,7 pontos em dezembro, superando o pico de 476,7 em junho de 2008. 

Também como em 2007 e 2008, distúrbios populares contra a alta dos alimentos espocam em países como Tunísia (contribuindo para derrubar o ditador Zein al-Abidine Ben Ali), Argélia, Jordânia, Egito, Líbia, Moçambique, Marrocos e Chile. Em pelo menos uma dúzia de países, como Indonésia, Coreia do Sul e Índia, governos já tomam medidas para baratear a comida. 

"O grande risco do mundo de hoje é o aumento de commodities, que ninguém sabe onde vai parar", comenta Ilan Goldfajn, economista-chefe do Itaú. Ele se impressiona com a velocidade da mudança. "Em três, quatro meses, o mundo saiu do medo de um duplo mergulho recessivo americano para a situação atual, em que só se fala de inflação." 

Além de falar, os bancos centrais estão agindo, com altas de taxas básicas de juros no período pós-crise já tendo sido acionadas por Brasil, Chile, Peru, Suécia, Austrália, Canadá, Israel, Coreia do Sul, Polônia e China, entre outros. Há uma onda também de utilização dos chamados instrumentos "macroprudenciais" para auxiliar no controle da inflação, como no Brasil, que aumentou compulsórios e requerimento de capital em operações de crédito. 

A grande preocupação do momento é com o superaquecimento da economia chinesa, que cresceu 10,3% em 2010, acima das expectativas dos analistas. E, embora a inflação tenha recuado em dezembro, a expectativa é de alta, embalada pela subida geral dos custos na China, que afeta preços de terra, energia, serviços públicos básicos, proteção ambiental e, principalmente, salários. Os ganhos dos trabalhadores que migram do campo para as cidades subiram 19% em um ano, e a importante Província de Guangdong acaba de aumentar o salário mínimo de 18% a 26% (ele varia entre diferentes regiões da província). 

Inflação exportada - 

Segundo relatório da Merrill Lynch, a China não só está provocando inflação de commodities, como grande importadora, mas também está exportando inflação com suas maciças vendas externas de produtos manufaturados. Isso é uma inversão da tendência das últimas décadas, quando a China exportava deflação ao deslocar com seus preços baixíssimos produtos industrializados de outros competidores.

No mundo rico, uma mudança substancial nos últimos meses é que a economia americana deu sinais de vida, e os temores de um duplo mergulho diminuíram sensivelmente. Apesar do alto desemprego e da montanha de dívidas do governo, das empresas e das famílias, os gastos dos consumidores americanos podem ter crescido até 4% em termos reais no último trimestre de 2010. Enquanto isso, na zona do euro, mesmo com a crise dos países periféricos, a inflação anualizada subiu para 2,2% em dezembro, acima da meta de 2% .

Alguns analistas, no entanto, acham despropositada a comparação entre o momento atual e a fase pré-crise de 2008. "Estamos a anos-luz de 2008", diz Octavio de Barros, diretor do departamento de pesquisas econômicas do Bradesco.

Na sua visão, as economias maduras ainda vivem um ciclo deflacionário, com excesso de oferta de bens e serviços. Compõem esse quadro desemprego recorde em quase todos os principais países ricos (exceto a Alemanha), baixo investimento e crédito ainda travado. Isso não quer dizer, porém, que Barros não veja risco inflacionário em países emergentes como o Brasil. "Temos de acompanhar com lupa o que está acontecendo na China."

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Fonte:
O Estado de S. Paulo

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