Nova luz para o girassol

Publicado em 07/07/2011 11:32 420 exibições
Campo Novo do Parecis, em Mato Grosso, descolou-se da fama da chapada que lhe empresta o nome para alçar voos solos. Situado a pouco menos de 400 quilômetros da capital, Cuiabá, o município coleciona títulos, como o de terceiro maior produtor de grãos do estado e um dos dez maiores do Brasil, além de liderar o plantio de milho para pipoca e girassol. O agricultor Sérgio Stefanelo, gaúcho de nascimento, acompanha boa parte dessa evolução desde que chegou à região, em 1985. Produtor de soja na safra de verão, virou entusiasta do girassol na safrinha. Há cerca de 18 anos, ele aceitou o desafio proposto pela Embrapa, juntamente com a Fundação MT, de testar o cultivo da flor. “Já no primeiro contato, vi que tinha futuro: a cultura se adaptava muito bem a nossa safrinha, já que as chuvas param exatamente no momento em que a planta já não precisa de água, durante o florescimento. No ano seguinte, semeei 160 hectares”, afirma.

Stefanelo ficou solitário em seu investimento por anos. À época, os produtores da região torciam o nariz para o girassol porque a logística é complicada. Um caminhão que leva 30 toneladas de soja carrega apenas 18 toneladas de girassol, que é mais leve e volumoso – assim, perde-se muito no pagamento do frete. Foi então que o gaúcho buscou o mercado de alimentação para pássaros. “Como eu classificava e ensacava, conseguia agregar peso e podia colocar um metro do produto para cima do caminhão”, conta. Isso deu o fôlego necessário para que o agricultor permanecesse na cultura, quando ninguém acreditava nela. Mas, no início desta década, o cenário começou a mudar.

Com o surgimento da ferrugem da soja, doença cujo principal controle é o plantio de variedades precoces (e o mais cedo possível), a colheita do grão acabou antecipada e abriu-se a oportunidade para a safrinha. Foi aí que muitos voltaram a apostar no girassol – que, frisa Stefanelo, não é concorrente do milho. “São complementares. Quando vai acabando o momento ideal para o plantio de milho, inicia-se o do girassol”, explica ele, que neste ano dedicou 4 mil hectares de sua Fazenda Porta do Céu à flor da safrinha.

A época mais indicada para a semeadura do milho segunda safra é até 20 de fevereiro e a do girassol é desta data até 10 de março. Até então, essa janela de plantio estava dividida entre o cultivo de milho de alto risco e a ociosidade. Apostar no girassol foi a saída para um aproveitamento melhor do solo, das máquinas e da mão de obra. E como viabilizar a cultura se o transporte ainda emperrava seu desenvolvimento? Pois os agricultores fizeram do problema a solução, dando destino ao girassol ali mesmo ao pé das lavouras, ao criar uma unidade de beneficiamento: a Parecis Alimentos.

O projeto da indústria começou a tomar forma em 2008, com um aporte de R$ 9 milhões, vindo do bolso dos próprios produtores. No ano seguinte, já era realizado o primeiro esmagamento. Por ironia, a Parecis Alimentos não foi concebida para ser uma indústria de óleo. “Os produtores tinham certo comodismo com a soja, até que as crises de commodities vieram. Então, fomos incentivando-os a diversificar e agregar valor”, diz Antônio de la Bandeira, gerente do Sindicato Rural de Campo Novo do Parecis, que também foi secretário de Desenvolvimento Econômico do município por seis anos. A princípio, a ideia era erguer um frigorífico para abater frangos, mas desistiram, por ocasião da gripe aviária, em 2006. Enveredaram, então, para o óleo.

Hoje, a Parecis possui 44 produtores responsáveis por manter o fornecimento da matéria-prima, cada um com o compromisso de plantar 300 hectares de girassol. A empresa vende o óleo bruto a companhias que posteriormente fazem o refino, caso dos gigantes Bunge e Cargill. A capacidade atual da fábrica é de 20 mil toneladas por ano, mas esse volume pode dar um salto em breve. O motivo é que um grupo estrangeiro está em conversações avançadas com a Parecis Alimentos com a intenção de investir pesado na ampliação da indústria. Estima-se que sejam necessários R$ 60 milhões para essa expansão. A interessada seria uma empresa de origem holandesa, mas os produtores ainda não confirmam o nome da companhia. Em um primeiro momento, o objetivo seria aumentar o processamento do óleo bruto. “A logística ainda não é favorável para o refino e a embalagem de óleo. É mais interessante que ele vá para grandes centros e lá seja transformado”, explica Vitório Herklotz, diretor industrial da Parecis Alimentos. A obra deve estar concluída em três anos.

Entretanto, ainda há gargalos a ser enfrentados. Um dos principais é a tecnologia para a cultura, que ainda está sendo desenvolvida, muito com base em tentativa e erro. “Herbicida, por exemplo, é um problema sério. Temos perdas porque não há um produto como esse específico para o girassol no Brasil, o que acaba impactando os gastos com a lavoura”, afirma Stefanelo. O custo de produção na região é de 15 a 20 sacas por hectare e a colheita rende de 15 a 35 sacas, em média. “Dessa, não conseguimos ter regularidade. Estamos tendo de prejuízos a bons lucros”, afirma o agricultor. Outro problema são as sementes, quase sempre trazidas da vizinha Argentina. Em função da burocracia de importação, muitas vezes o material perde qualidade no processo. “Mas estamos numa trajetória de consolidação da cultura”, garante Stefanelo.

Campo Novo do Parecis possui 27 mil hectares cobertos com girassol – em uma comparação curiosa, há um hectare para cada habitante do município, cuja população é de 27 mil pessoas. Para o produtor Odenir Ortolan, esse número pode chegar a 100 mil hectares em poucos anos. “Tenho certeza que, com a indústria nova e uma escala maior, teremos um custo menor de extração do óleo e conseguiremos melhor remuneração, o que, com certeza, irá elevar os investimentos na cultura e impulsionar a expansão da área plantada”, prevê.

Por ora, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) sinaliza uma queda de 21,5% na área destinada ao girassol na safra 2010/2011 no Brasil, para 55,7 mil hectares. A produção, por sua vez, deve cair 15,7%, somando 76 mil toneladas (mais da metade produzida em Campo Novo do Parecis). Até maio, o órgão previa aumento na colheita nacional. “É provável que o girassol tenha perdido área para outras culturas de safrinha. O curioso é que o custo de produção é relativamente baixo, os preços estão bons e a venda é garantida, antecipada até. É tudo uma questão de incentivo ao produtor”, opina Manuel Araújo Carvalho, técnico de produto da Conab.

Os preços, de fato, seguem atraentes. Atualmente, o valor pago pela saca de 60 quilos de girassol no Brasil está em torno de R$ 40, sendo o preço mínimo R$ 25,68. Em maio do ano passado, a saca estava cotada a R$ 38,76. Também as cotações internacionais estão em alta: o grão a pouco mais de US$ 600 a tonelada e o óleo oscilando entre US$ 1.200 e US$ 2.200.

O investimento em nichos ajuda a potencializar os ganhos. Ortolan, por exemplo, dedicou nesta safra 600 hectares ao girassol alto oleico, um tipo especial da planta cujo óleo não gera gordura trans (considerada nociva à saúde humana) e que passou a atrair o interesse das indústrias de alimentos processados. Há todo um cuidado com o plantio e a industrialização desse grão. “Ele deve ter mais de 80% de teor de ácido oleico (substância que bloqueia a gordura trans), o que requer um cuidado grande no campo, para não misturar essa variedade com outras. Também na indústria é preciso atentar para a segregação”, diz o produtor, que recebe até 30% a mais por esse girassol diferenciado.

Por outro lado, o preço é ainda um empecilho para o avanço do consumo de girassol no Brasil. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o consumo per capita de óleo de girassol no país é de 200 mililitros ao ano – bem abaixo dos 6,85 litros do de soja. “O valor mais elevado é justificado por suas qualidades”, diz Sérgio Luiz Gonçalves, pesquisador da Embrapa Soja (leia o box abaixo).

Segundo Gonçalves, o plantio de girassol ainda pode avançar no Cerrado e no nordeste do país. “A sclerotinia, doença que inviabiliza as plantações na safrinha do Sul, não acomete o Nordeste e o Cerrado, mais quentes”, afirma. Além disso, a Embrapa tem ensaios em locais bem secos, com menos de 600 milímetros de chuva por ano, onde o girassol produz bem, melhor até que milho e feijão. “Há regiões do Agreste e do Sertão que conseguem 2,5 mil quilos por hectare, acima da média nacional, de 1,5 mil quilos”, afirma.

Atualmente, cerca de 35 milhões de litros de óleo de girassol são produzidos internamente, o equivalente a 50% dos cerca de 70 milhões de litros consumidos no Brasil, de acordo com a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove). “O restante é importado, principalmente da Argentina e do Leste Europeu”, afirma Daniel Furlan Amaral, economista da entidade. Portanto, mercado há.

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Fonte:
Globo Rural

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