Três lições de Dilma Rousseff: a porta de saída é uma porta de entrada, pintar a unha acelera a inclusão social e a crise é um W

Publicado em 19/12/2013 05:56 e atualizado em 26/02/2014 16:01 1643 exibições
no blog de Augusto Nunes, de veja.com.br

Direto ao Ponto

Três lições de Dilma Rousseff: a porta de saída é uma porta de entrada, pintar a unha acelera a inclusão social e a crise é um W com uma perna mais profunda

Nesta quarta-feira, os jornalistas que dão plantão no Palácio do Planalto ganharam de Dilma Rousseff um café da manhã e uma entrevista coletiva. Durante mais de uma hora e meia, a presidente despejou sucessivas provas de que o Brasil é governado por alguém capaz de não dizer coisa com coisa sobre tudo. Extraídos sem revisão do Blog do Planalto, seguem-se três dos melhores-piores momentos do falatório, com ligeiros comentários entre parênteses do colunista:

NEURÔNIO EDUCATIVO
“A questão da educação é uma questão fortíssima no Brasil. Acho que ela é, o Brasil hoje é um país, do meu ponto de vista, que tem na educação o seu grande caminho, porque, através da educação eu estabilizo a saída da miséria e a ida para a classe média. Só através da educação que nós vamos estabilizar, e educação de qualidade, senão você não estabiliza, ou então a pessoa fica lá. Então, discutiam porta de saída. A grande porta de saída é uma porta de entrada: é a educação”.

(Segundo Dilma, a estrada que leva da miséria para a classe média, ou vice-versa, passa por uma porta que abre, fecha, ameaça cair ou esbanja estabilidade conforme os humores do sistema educacional. O Celso Arnaldo talvez saiba que lugar é esse onde “a pessoa fica lá”. Mas mesmo o nosso grande especialista em dilmês terá dificuldades para resolver a complexa charada exposta pelo neurônio solitário: se a porta de saída é uma porta de entrada, como alguém vai saber se entrou ou saiu?)

NEURÔNIO INCLUSIVO
“Nesse Pronatec Brasil Sem Miséria, nós já formamos 850 mil pessoas. E formar 850 mil pessoas é dar condição a eles de ter uma profissão. Você forma de ajudante para tratamento de idoso, até a quantidade imensa de cabeleireira que tem nesse país, né meninas? Vocês sabem que nós somos um dos países com maior consumo na área de indústrias da beleza. E prolifera essa questão. Faz parte da inserção, eu acho, da mulher no mercado de trabalho. Não sei se vocês viram essa mulher formada no Pronatec, era engraçadíssima, a unha era desse tamanho assim, pintada assim, toda bonita pintada, e ela era torneira mecânica. Estava formando em torneira mecânica. Mulher vai para torneira mecânica de unha pintada. Acho que esse é um processo inclusivo”.

(“Estava formando em torneira-mecânica” tem jeito de enigma a ser desvendado por Celso Arnaldo, mas é só um besteirol à procura do “se” que sumiu. Também não deve perder tempo tentando descobrir o que significa “E prolifera essa questão”. É só outro desfile de vogais e consoantes sem começo, sem meio e sem fim. Mora na última frase o espesso mistério a decifrar: como é que se faz para transformar em “processo de inclusã”o uma unha pintada? E qual é a cor ideal para a unha de quem caça algum emprego que lhe permita trabalhar menos e ganhar mais?)

NEURÔNIO LETRADO
“Então, do meu ponto de vista acho que 2013 foi o momento em que a chamada crise, que muitos economistas internacionais discutiam se era em U, se era em V, se era em W. Ela é, eu acho, que num W mais profundo para esse momento, se você olhar do ponto de vista da economia internacional como um todo. De alguma economia pode até dizer: olha, foi pior no primeiro momento, lá em 2009. Eu acho que foi pior quando se aprofunda da crise da Europa e se combina com a crise americana, e além disso, com uma redefinição da economia chinesa. E isso indica uma perna para baixo do W mais profunda”.

(Primeiro, Dilma esclarece que 2013 não foi um ano, mas o momento em que a “chamada crise” decidiu virar letra. Depois, avisa que estudou suficientemente o tema para garantir que a crise não é um U nem um V. É um W, só que diferente. Os interessados em conhecer a letra com cara nova precisam olhar ao mesmo tempo a confusão europeia, a crise americana e a economia chinesa. Quem faz isso enxerga nitidamente um W com uma perna para baixo e mais profunda. A doutora em nada não contou se a perna é a esquerda ou a direita).

Não é fácil entender como alguém assim ganha uma eleição presidencial. Mais difícil ainda é entender como é que se consegue perder uma eleição para alguém assim.

(por Augusto Nunes)

 

Opinião

‘Tuma lá, dá cá’, de Carlos Brickmann

Publicado no Observatório da Imprensa

CARLOS BRICKMANN

O debate jornalístico sobre o livro-depoimento do delegado Romeu Tuma Jr., Assassinato de Reputações – um crime de Estado, abandonou a pesquisa e a reportagem e mergulhou fundo no clima de campanha eleitoral, como se tornou habitual nos últimos tempos. Tuma Jr. fez uma série de denúncias em mais de 500 páginas; o correto é analisá-las e desmenti-las, ou confirmá-las, ou reconhecer o que há de preciso ou impreciso em cada uma.

 

Algumas denúncias, em princípio, são graves – por exemplo, a de que o então líder sindical Luiz Inácio da Silva, que ainda não havia incorporado Lula a seu nome, era informante da polícia política. Há aí três possibilidades:

1. A informação é verdadeira – e, nesse caso, exige aprofundamento, com abertura de espaço ao ex-presidente Lula para que apresente sua posição;

2. A denúncia é falsa – e, nesse caso, abre-se a possibilidade de processo contra o denunciante e investigação dos motivos que o levaram a inventá-la;

3. Questão de interpretação: tanto Lula quanto o delegado Romeu Tuma, pai de Tuma Jr., eram afeitos ao diálogo, e podem perfeitamente ter combinado os limites da atuação de cada um, trocando informações, para evitar choques que poderiam piorar o clima entre governo e os sindicalistas mais organizados.

Há muitos pontos a esclarecer nas narrativas de Tuma Jr.: o caso Celso Daniel, por exemplo – ele era o delegado de Taboão da Serra (SP) e conduziu as primeiras investigações sobre o assassínio do prefeito de Santo André, chegando a conclusões opostas à de seus colegas de Polícia Civil. Para ele, foi um crime político; para os delegados que comandaram duas outras investigações, foi um crime comum, assalto e sequestro seguido de morte. A conversa que diz ter tido com o hoje ministro Gilberto Carvalho, que teria lhe dito que o dinheiro arrecadado ilegalmente em Santo André era destinado exclusivamente ao partido, às campanhas, e entregue diretamente a José Dirceu. O episódio da prisão do milionário russo Boris Berezovski, que tinha vindo ao Brasil a convite do governo. Sua atuação no Corinthians, onde é um dos destaques da oposição ao grupo do ex-presidente Andrés Sanchez, ligado ao ex-presidente Lula.

Enfim, material é o que não falta. E, no entanto, o que se tentou fazer foi discutir besteiras: desmentir que Tuma Jr. estivesse na polícia na época em que Lula foi preso e ficou sob a guarda de seu pai, Romeu Tuma; negar, com base num erro da Wikipédia, que Tuma Jr. tivesse idade para pertencer à polícia; desmentir sua presença junto a Lula, quando há até fotos dos dois nessa época.

O entrevistador de Tuma Jr., Cláudio Tognolli, que deu o texto ao livro, é um ótimo repórter, investigativo, de grande currículo, ex-correspondente internacional, professor de duas universidades, extremamente cuidadoso na avaliação dos dados a que tem acesso. Levou algo como dois anos entrevistando o delegado e examinando sua narrativa. Pronto o livro, Tuma Jr. procurou seus advogados, que leram tudo com muito cuidado, até atrasando o lançamento nas livrarias. Tuma Jr. se compromete a esclarecer qualquer dúvida, a rebater quaisquer desmentidos e ainda garante que tem material para outro livro.

OK, Tuma Jr. não é um campeão de popularidade. Dizem que é pessoa de trato difícil, participou de episódios controvertidos, colocou-se contra colegas respeitados em investigações importantes. Num episódio triste, trabalhou em dupla com o então presidente da Câmara Municipal de São Paulo, José Eduardo Martins Cardozo, do PT, hoje ministro da Justiça. Cardozo interrogava testemunhas durante doze ou mais horas e, em seguida, as entregava a Tuma Jr., que as levava, já exaustas, para ser ouvidas na polícia.

Mas não se trata de analisá-lo como santo ou demônio, como petista, tucano ou PFL (que foi por muito tempo o partido de seu pai), nem de elegê-lo Mr. Simpatia, nem de discutir sua idade – até porque, se comprovadas, suas informações demonstrarão que tem idade suficiente para causar um terremoto político. E, se desmentidas, não haverá como recuperar sua imagem, seja qual for sua data de nascimento, por muitos e muitos anos.

É um livro a ser lido com calma. E a ser dissecado pela imprensa fato por fato, frase por frase. O importante não é ser amigo ou inimigo de Tuma Jr. É verificar se aquilo que ele conta é verdade ou mentira. E daí tirar as consequências.

Leia outras notas de Carlos Brickmann no site do Observatório da Imprensa

 

Direto ao Ponto

Um dos melhores momentos do Roda Viva: Chico Caruso imita Lula traduzindo para o português a música de Frank Sinatra que Paulo Caruso canta em inglês

ATUALIZADO ÀS 19H26

Quem lê jornais e revistas sabe há muito tempo que os irmãos Paulo e Chico Caruso conseguem ser sempre brilhantes como cartunistas, chargistas, caricaturistas e outras derivações do desenho de humor. Mas muita gente descobriu só nesta segunda-feira, ao longo do Roda Viva (clique aqui para ver a íntegra) protagonizado pela dupla, que os Caruso esbanjam talento também na sátira musical. Num dos melhores momentos do programa, Chico imita Lula traduzindo para o português a letra de One For My Baby (And One More For The Road), de Frank Sinatra, que Paulo interpreta em inglês. Confira:

Eu estou convencido de que nunca antes na história deste país foi tão desnecessário saber inglês. Todo mundo sabe inglês, nós somos colonizados mesmo. Eu vou mostrar isso para vocês com uma música do meu amigo Frank Sinatra chamada Uof o my baby uof o the road. E eu vou traduzir pra vocês. Vai, Frank.

It’s quarter to three.

Precisamos cortar essa árvore

There’s no one in the place

Destoa dessa praça

except you and me.

aceite-me a mim.

So, set ‘em up, Joe,

Muita Seven-up enjoa,

I got a little story

eu tenho um livro de história

I think you oughtta know.

que embananou.

We’re drinkin, my friend,

O Valdik, meu amigo,

to the end

Essa é fácil: até o fim

of a brief episode.

até o fim mesmo, essa vodka é foda, não deixa nada barato.

So make it one for my baby

Sou mais aquilo que eu bebo

and one more for the road.

o meu fornecedor, é claro.

I got the routine,

Agora tem o Garotinho aí, pode?

so drop another nickel

Tem como amigo

in the machine

Um tal de Marcinho

(por Augusto Nunes)

 

Direto ao Ponto

Gilberto Carvalho acertou a previsão que fez há exatamente um ano: o bicho que iria pegar em 2013 pegou até o caixa preta do PT

“2013 vem aí e vem muito bravo”, avisou Gilberto Carvalho no meio da mensagem de Natal endereçada aos devotos da seita lulopetista divulgada há exatamente um ano. Depois de desejar “muita paz” aos companheiros, e recomendar-lhes que homenageassem  parentes e amigos com demonstrações de afeto, o seminarista que virou coroinha de missa negra prostrou-se aos pés do chefe supremo, canonizou os sacerdotes ameaçados pelo Supremo Tribunal Federal, condenou à danação eterna os hereges que se recusavam a engavetar o caso Rose e encerrou o vídeo divulgado em 15 de dezembro de 2012 com a exortação beligerante: “Vamos descansar bem agora, por que em 2013 o bicho vai pegar”.

Pegou mesmo, e os estragos não pouparam ninguém, informa o balanço do ano que vai terminando. Mas pegou com especial severidade o PT, o governo e o próprio Gilberto Carvalho. Em 2013, com a prisão dos mensaleiros, o partido descobriu que há vagas na cadeia também para delinquentes da primeira classe. Com as manifestações de rua que explodiram em junho, a presidente Dilma Rousseff descobriu a nação dos descontentes que existe fora do Brasil Maravilha registrado em cartório. Seus habitantes exigem um Brasil padrão Fifa e gostam de desmoralizar institutos de pesquisas que inventam campeões de popularidade.

No começo de dezembro, o bicho assumiu o formato de livro e pegou de jeito Gilberto Carvalho. As revelações do delegado Romeu Tuma Junior tornaram ainda mais cabeludas as histórias muito mal contadas que infestam seu prontuário. Embora apareça invariavelmente como coadjuvante, ele se destaca pela aplicação com que interpreta papéis repulsivos. Quando VEJA antecipou o capítulo reservado ao assassinato do prefeito Celso Daniel, o acusado prometeu processar o acusador. O livro já está na segunda edição. A ameaça de revidar na Justiça não foi reeditada, nem será. Quem tem culpa no cartório quer distância de tribunais.

(por Augusto Nunes)

 

Opinião

‘Mudança de rota’, de Dora Kramer

Publicado no Estadão desta terça-feira

DORA KRAMER

A presidente Dilma Rousseff não tem boas relações com o capital privado, seja da indústria, da agricultura ou do setor financeiro, certo? A insatisfação é cada vez mais explícita e preocupa os arquitetos de sua campanha à reeleição.

Tanto que o ex-presidente Lula da Silva aconselhou a sucessora a ser mais amável na fala, nos gestos e nas decisões relativas ao empresariado. Dilma tentou um movimento aqui, outro ali, mas o ambiente continua arisco.

Nesse espaço, os dois prováveis oponentes, Aécio Neves e Eduardo Campos, têm trabalhado com afinco e sem trégua. Rara a semana em que não há notícia de uma reunião do senador de Minas Gerais e do governador de Pernambuco com um grupo de empresários ou investidores.

Ainda que de maneira discreta, ambos têm colhido senão adesões entusiasmadas, inequívocos sinais de simpatia. Aproximam-se de um grupo do qual Dilma se distanciou. Isso tudo é fato.

Agora, uma suposição: caso sejam consolidados os bons humores de um lado (da oposição) e os maus de outro (do governo) nesse período que antecede o início oficial das campanhas, é de se imaginar que a disposição das empresas para ajudar financeiramente este ou aquele candidato seja influenciada pelos fatores de confiança, simpatia e identificação programática.

As empresas em geral dividem suas doações entre as várias forças, mas tendem a contribuir com aquelas que lhes pareçam em melhores condições de retribuir a ajuda.

E aqui não falamos – ou melhor, não entraremos no mérito – das chamadas “relações perniciosas” para não criminalizar desde já um sistema por ora legal nem misturar financiamento contabilizado com uso de caixa dois.

Ora, se o empresariado está insatisfeito com o modo Dilma Rousseff de governar e vier a se convencer de que Aécio ou Campos podem representar alternativas mais condizentes na perspectiva deles, é de se imaginar – mais, de se acreditar que os candidatos a oponentes estejam investindo nisso – que conseguirão arrecadar bom dinheiro com esse pessoal.

Isso não interessa ao PT, bastante satisfeito que está na proibição de doações por pessoas jurídicas. Claro, o partido tem posição favorável ao financiamento público e aqui estaria aberta uma porta para se tentar chegar lá.

Mas, ao mesmo tempo, se proibido o financiamento empresarial valendo já para 2014 – o que é factível, pois a discussão no Supremo Tribunal Federal não se concentra na legislação eleitoral que exige anterioridade de um ano para entrar em vigor –, os candidatos de oposição ficariam desprovidos dessa fonte de recursos.

O baque também atingiria a campanha do PT, é verdade, o partido tem sido o mais beneficiado pelos donativos. Em contrapartida, está no poder e tem muito mais condições de mobilizar pessoas físicas para doar.

Aliás, pessoas nem tão físicas assim. Funcionários terceirizados da Petrobrás, por exemplo. Podem ser convocados pelo partido a dar um dinheiro cada um, coisa pouca, mas que somado ao volume de gente com interesse em que o PT continue sendo governo para não perder o lugar, vira muita coisa.

Esse dinheiro vem do Estado. Bem como viriam do Estado recursos doados por pessoas físicas ocupantes de cargos de confiança, cuja boa vontade em contribuir seria motivada pelo mesmo sentido de permanência.

E os filiados a sindicatos e entidades que recebem substanciosas verbas governamentais? E por que não pensar no público de 12 milhões beneficiados pelo programa Bolsa Família devidamente instruídos a separar uns R$ 20 ou R$ 30 para não correrem o risco de vir a perder o benefício se eleito alguém da oposição?

São meras hipóteses. Mas demonstram que o fim das doações corporativas por si só não asseguram o equilíbrio de condições aludido pelos defensores da proibição.

(em O Estado de S. Paulo)

(por Augusto Nunes)

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Fonte:
Blog de Augusto Nunes (de VEJA)

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