Itamar Franco: Morre um político pobre, e isso é mesmo uma notícia um tanto espantosa. (por Reinaldo Azevedo)

Publicado em 03/07/2011 19:35 e atualizado em 07/03/2020 13:38 2111 exibições

Itamar Franco: Morre um político pobre, e isso é mesmo uma notícia um tanto espantosa. Ou: Uma estranha forma de a “Virtù” se casar à “Fortuna”.

Morre Itamar Franco, aos 81 anos. Era um político controverso, polêmico, mas não moralmente ambíguo. Morreu pobre, por exemplo, com um patrimônio compatível com a sua trajetória de homem público. E isso, convenham, é tão raro nestepaiz que já merece ser aplaudido, especialmente no tempo em que petistas, que se apresentam como monopolistas da ética — e assim se colocaram também contra Itamar —, ficam milionários da noite para o dia fazendo “consultoria”. Itamar tem uma boa folha de serviços prestados ao país. Sem querer usar a contradição como muleta dialética, pode-se afirmar que sua maior besteira acabou resultando no maior bem que fez ao país; que seu maior defeito acabou sendo a sua grande qualidade. Vamos ver.

Que besteira foi essa? Itamar pertencia àquele grupo que viria a ser conhecido como os “autênticos do MDB”, eleito na leva de senadores de 1974, a primeira derrota da ditadura nas urnas. Integra mais tarde o PMDB e ali permanece até 1986, quando deixa o partido, tangido pelos “patriotas” de Newton Cardoso, o “Newtão” — que não morre pobre nem que comece a queimar dinheiro amanhã. Migra para o PL e se torna, então, um político bem maior do que o seu partido. E é nessa condição que faz a tal besteira que virou tábua de salvação: aceita ser o vice na chapa de um certo rapaz chamado Fernando Collor de Mello. Itamar migra para o PRN — Partido da Reconstrução Nacional —, a legenda inventada pelo “caçador de marajás” e é eleito vice-presidente da República.

Collor queria alguém que lhe conferisse alguma credibilidade no meio político. Itamar era a figura mais próxima do establishment a lhe dar ouvidos. Já durante a campanha ficou claro que era um peixe fora d’água naquele grupo que ficou conhecido como “República de Alagoas”. Eleita a dupla, o vice ficou encostado e dava sinais evidentes de desconforto com o “estilo” e as escolhas do titular. Nunca foi ouvido, consultado ou auscultado. Era ignorado pelo fortão que tinha “aquilo roxo” e aquilo outro menos cinzento do que se imaginava…

A crise que resultou na renúncia de Fernando Collor, diante de um impeachment certo, conferiu grandeza à biografia de Itamar Franco. Deu-se conta da gravidade do momento, percebeu que só conseguiria governar propondo uma espécie de pacto entre os partidos e, a despeito de seu dito “temperamento mercurial”, não se entregou a arroubos cesaristas.

Atenção, leitor! Neste ponto, deixo o “fio Itamar Franco” para pegar um outro: o “fio PT”. Depois, junto os dois. Destaco um momento notável de má fé do partido, que, por caminhos inesperados, também faria um grande bem ao país.

PT na oposição
O PT, junto com quase toda a nação, participou ativamente do “Fora Collor”. A mobilização dos chamados “movimentos sociais” ficou por conta da legenda, então principal alvo de Collor, que a acusava de tentar disputar o “terceiro turno” das eleições — acusação que os petistas fazem hoje a seus adversários; não por acaso, Lula e Collor são agora aliados.

O PT, que ajudou a derrubar o governo, recusou-se a participar da base de apoio a Itamar Franco — e olhem que era aquele um momento de certa tensão até institucional. O primeiro presidente eleito diretamente depois do ciclo militar era também o primeiro a testar um país pós-impeachment, que só não se deu legalmente porque ele renunciou primeiro. O petismo ajudara a desestabilizar Collor por bons motivos e decidiu que tentaria desestabilizar também seu sucessor, aí por maus motivos.  O motivo dos petistas era e é um só: jamais dar apoio a uma Presidência que não seja comandada pelo partido. Foram para a oposição o PT e o PFL — este partido, justiça seja feita, não havia colaborado para a queda de Collor ao menos; foi coerente no seu erro.

Petistas demonstravam, em suma, a sua notável habilidade para sabotar governos e a disposição de faltar ao país mesmo num momento de crise aguda porque preocupados apenas com seu projeto de poder. Luíza Erundina foi punida pela legenda por ter aceitado o cargo de ministra da Administração de Itamar. Decidiu deixar a legenda. Para todos os efeitos, os petistas não aceitavam “alianças com partidos burgueses” — Lula recusara o apoio de Ulysses Guimarães no segundo turno de 1989, naquele que foi, talvez, o ato mais indigno de sua história. De verdade, o partido estava de olho em pesquisas que indicavam que o Babalorixá de Banânia era o favorito à sucessão de Itamar. Assim, diante da possibilidade de chegar ao poder, por que se comprometer com a governabilidade do país, não é mesmo?

Juntando as pontas
Então junto agora este fio com aquele outro que larguei lá atrás. As circunstâncias da posse de Itamar Franco, que dependia do núcleo de estabilidade e credibilidade que passou a lhe fornecer o PSDB, e o fato de o PT, por maus motivos, ter decidido ficar fora do governo permitiram que Fernando Henrique Cardoso, ministro da Fazenda, juntasse a inteligência econômica necessária para elaborar e aplicar o mais ousado e bem-sucedido plano de estabilização da economia jamais havido no Brasil. Em muitos aspectos, dizem alguns especialistas em que confio, único na história. Durante um bom tempo, o Brasil passou a funcionar com duas moedas. Não faltou quem antevisse o desastre. O Brasil começava a se reinserir na ordem econômica mundial. Sim, o plano foi coordenado e liderado por FHC; sim, ele foi aplicado no governo Itamar Franco. O presidente era fraco o bastante para depender do PSDB e da massa crítica que fez o Real; ele era forte o bastante para bancar o risco — e foi preciso alguma coragem política.

O PT, claro!, ficou na oposição e tentou sabotar o plano de estabilidade — e todas as outras iniciativas que se seguiram, já no governo FHC, para estabilizar a economia. Lula e seus bravos, especialmente Aloizio Mercadante, anteviam um desastre de proporções monumentais. Lembro, à margem, que foi no governo Itamar que seu deu a privatização da CSN. Ali o petismo dava início à sua sanha vigarista “contra a venda do patrimônio nacional”, que se estenderia pelos anos seguintes. Retomo.

Eleito FHC, com o apoio de Itamar, o já ex-presidente deu mostras de que não havia entendido exatamente o alcance do plano que fora efetivamente implementado em seu governo e que demandava um conjunto de medidas para se consolidar — ele decidiu se opor a elas. Passou a falar como um político mais ou menos de oposição. Há quem queira que pretendia se candidatar à sucessão de FHC, eventual intenção frustrada com a aprovação da emenda da reeleição. Em 2002, Itamar apoiou a candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva.

Eleito governador de Minas em 1998, ainda na linha do confronto com FHC, que conseguiu seu segundo mandato das urnas, Itamar decretou uma polêmica moratória em Minas, que ajudou um tanto a bagunçar as contas públicas. As relações com o tucano nunca voltaram a ser, digamos, normais, embora tenham recuperado a polidez. Itamar sempre considerou que haviam lhe roubado a paternidade do Plano Real, o que não é, definitivamente, fato. Acima, explico as circunstâncias em que o plano se deu. Sua grandeza, reitero, foi ter tido a coragem de dar sustentação política a uma ousadia cuja extensão, ele próprio revelou depois, desconhecia.

Eleito para o Senado pelo PPS no ano passado, Itamar prenunciava uma atuação firme, em defesa de boas causas, combatendo o cesarismo inescrupuloso do PT. Infelizmente, a trajetória foi interrompida. Morre, reitero, um político cuja vida é compatível com seus rendimentos, que fez um breve governo, sim, mas honrado. Henrique Hargreaves, seu chefe da Casa Civil e seu assessor até hoje, viu seu nome envolvido numa acusação de tráfico de influência. Itamar tomou uma decisão rara — na verdade, até hoje, única: afastou imediatamente o auxiliar para que a investigação fosse feita com lisura. Provada a inocência do ministro, ele voltou. Para quem vê o PT afagar culpados, estranha um presidente que afastou mesmo um inocente, sobre quem, no entanto, pesavam algumas suspeitas.

Também entrou para a história um episódio envolvendo o então senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA), um dos políticos que mais o fustigavam. ACM dizia ter um calhamaço de evidências de que havia corrupção no governo. O presidente marcou uma audiência com o político baiano, que prometeu levar uma pasta recheada de documentos. Itamar, então, fez algo inesperado: chamou a imprensa e convidou o senador a apresentar as suas provas também aos jornalistas. Eram só recortes antigos de jornal.

Encerro
Queria Maquiavel que o feito notável de um príncipe requer que a “Virtù”, o conjunto das qualidades pessoais do governante, possam se casar com a “Fortuna”, um conjunto de fatores que caracterizam uma época, de que todos fazemos parte, mas que estão fora do nosso alcance; não dependem da nossa vontade. No caso de Itamar, isso se deu de um modo estranho: o dado mais notável de sua “Virtù” era justamente a sua fraqueza ao assumir o governo, o que o fez depender da boa-vontade de estranhos. As circunstâncias pediam um ato radical em favor da estabilidade da moeda, o que só poderia ser feito se o PT estivesse fora da aliança que sustentava Itamar — e o PT estava fora.

Olhem que formidável! A fraqueza de um e o mau-caratismo de outro permitiram que o Brasil saísse do buraco. Morre Itamar, um homem que fez bem ao Brasil. De quantos  da estirpe dos políticos se pode e se poderá dizer o mesmo? Que Deus o acolha em sua infinita bondade!

Texto publicado originalmente às 18h44 deste sábado
Por Reinaldo Azevedo

(da coluna de Augusto Nunes):O adeus do colecionador de singularidades

O mineiro registrado em Salvador com o nome de Itamar por ter nascido a bordo de um ita no mar da Bahia já chegou ao mundo colecionando singularidades e paradoxos. Foi o que fez Itamar Augusto Cautiero Franco até o fim da vida: nos últimos cinco meses, por exemplo, reafirmou no Congresso que o destino determinou no dia do nascimento que aquele seria ─ ele sim ─  um homem incomum: aos 81 anos, mostrou-se o único senador da oposição disposto a combater o governo com o vigor e a determinação de um líder estudantil.

Diferente desde o berço, chegou ao Senado pela primeira vez em 1974, quando ainda era um político de província, empurrado pela onda de insatisfação com o regime militar. O fenômeno transferiu para Brasília, sem escalas, o prefeito reeleito de Juiz de Fora que nunca tivera votos fora do município. Integrante da bancada majoritária, obstruiu sozinho dezenas de sessões para impedir a aprovação de projetos que o desagradavam. Irretocavelmente honesto, aceitou ser candidato a vice de Fernando Collor. Sorte do Brasil: a decretação do impeachment seria muito mais complicada se o substituto fosse como o titular.

Impulsivo, temperamental, rompeu com o companheiro de chapa já no começo do mandato, mas não o atacou ostensivamente nem estimulou conspirações. Premiado pela conjunção de acasos com o cargo que todo político cobiça, adiou a posse por alguns dias para ficar ao lado da mãe enferma. Turrão, montou o primeiro governo de união nacional da história republicana. Como o PT preferiu hostilizá-lo, resolveu o problema à mineira: convenceu Luiza Erundina a representar no ministério o partido que ajudara a fundar.

Erundina foi suspensa pelos companheiros, mas ampliou coleção de espantos produzidos pelo novo presidente. Instalado no gabinete mais importante do país, irritava-se com jornalistas que o impediam de namorar em paz no cinema de Juiz de Fora. Avesso a exibicionismos, apareceu num camarote na Marquês de Sapucaí ao lado de uma modelo sem calcinha. (Num artigo na Zero Hora, creditei-lhe a invenção da primeira-dama por uma noite. Ele retrucou com uma carta manuscrita em que me acusava de fazer-lhe “oposição sistemática”).

Sem entender de economia, nomeou para o Ministério da Fazenda um sociólogo que, embora também pouco entendesse, acabaria dividindo com o presidente a paternidade do Plano Real. Só um Itamar Franco pensaria em tirar Fernando Henrique Cardoso do Ministério das Relações Exteriores para encarregá-lo de domar a inflação. Só um Itamar Franco daria plenos poderes à equipe de economistas recrutados por FHC que livraram o Brasil do pesadelo inflacionário. E só um Itamar Franco, depois de ter desencadeado o processo de ressurreição da economia em frangalhos, pensaria em ressuscitar o Fusca.

A Volkswagen voltou a fabricar o modelo pré-histórico a pedido do presidente, que amparou a reivindicação em motivos estritamente estéticos: ele achava bonito o carrinho feioso. Monoglota, fez questão de virar embaixador ao deixar o poder. Contemplado com postos disputados a cotoveladas por todos os diplomatas, não demorava a entediar-se: achava que os palácios e mansões onde morava ficavam muito longe de Minas em geral e, em particular, de Juiz de Fora. (Num artigo no Jornal do Brasil, recomendei-lhe que ficasse mais tempo no local de trabalho. Ele replicou com outra carta desaforada).

“O Itamar guarda os ódios na geladeira”, disse Tancredo Neves. Não sobrou espaço para estocar alguns ressentimentos que o atormentaram depois da passagem pela Presidência. O mais evidente distanciou-o de FHC ─ e, por algum tempo, aproximou-o perigosamente de Lula. “O Fernando não reconhece que foi eleito por mim e que o Plano Real aconteceu no meu governo”, zangou-se em incontáveis entrevistas. Fernando Henrique sempre revidou com elogios e manifestações de gratidão, mas só recentemente a reconciliação se consumou.

Feitas as contas, Itamar acertou bem mais do que errou. Mas bastaria a evocação da rara marca de qualidade que marcou o presidente morto na manhã deste sábado para garantir uma avaliação positiva: político em tempo integral desde a juventude, ele foi sempre franco, honesto e honrado. Num Brasil em decomposição moral, vai fazer muita falta.


Prejudicadas por heranças de Lula, promessas de Dilma para economia ainda não saíram do papel

No Estadão:
Uma combinação de brigas com aliados, crise política, problemas de saúde e heranças malditas da Era Lula - como inflação em alta e situação fiscal deteriorada - acabou fazendo com que a agenda econômica da presidente Dilma Rousseff andasse a passo de tartaruga no primeiro semestre de 2011. Os principais compromissos de campanha - avançar na reforma tributária, desonerar a folha de pagamento das empresas, corrigir os limites do Simples e ampliar a desoneração do setor produtivo como uma nova política industrial - ficaram no papel, informa reportagem de Martha Beck e Cristiane Jungblut.

Dilma foi obrigada a passar os seis primeiros meses do mandato se dedicando a questões econômicas emergenciais e dificuldades que ficaram pendentes. Foi preciso ganhar a confiança do mercado por meio de um grande ajuste fiscal que ajudasse a conter pressões inflacionárias. Além disso, a enxurrada de dólares que entraram no Brasil fez com que a equipe econômica tivesse de adotar uma série de ações paliativas para tentar segurar a queda da moeda americana e ajudar a indústria nacional.

Também coube ao novo governo fazer uma dura negociação com o Congresso em torno do reajuste do salário mínimo. Isso sem mencionar votações polêmicas envolvendo o Código Florestal e o Regime Diferenciado de Contratações Públicas (RDC) para a Copa de 2014 e as Olimpíadas do Rio, em 2016. Tudo isso ocorreu ao mesmo tempo em que a presidente enfrentou uma pneumonia que a deixou fora de combate por semanas e que um escândalo sobre evolução patrimonial - alimentado por brigas internas no PT e insatisfação da base aliada - levou à queda de Antonio Palocci da Casa Civil.

Um balanço das medidas provisórias publicadas este ano mostra que nenhuma das 14 propostas de iniciativa do Executivo está relacionada com os compromissos de campanha. Sete delas tratam de temas da área econômica, como a desoneração para a produção de tablets no Brasil e a criação da Secretaria de Aviação Civil (SAC), mas consumiram toda a agenda do primeiro semestre, sendo votadas no limite, ou seja, às vésperas de perder a validade.

O Congresso entra em recesso no dia 17 de julho, o que significa que as demais propostas de interesse do governo devem ser jogadas para o segundo semestre. Isso inclui, além das MPs, o Pronatec, que trata de formação de mão de obra.

A lentidão tem sido tão grande que a primeira reunião de Dilma com sua equipe para tratar do que será a Política de Desenvolvimento da Competitividade (PDC) - nova política industrial - foi há apenas duas semanas. Não se chegou a nenhum consenso. A conclusão foi apenas que será preciso abrir mão de uma receita polpuda se o governo quiser ajudar a indústria nacional.

Por Reinaldo Azevedo
Dívida externa do país aumenta 43% desde fim da crise

Por Gustavo Pau e Eduardo Cucolo, na Folha:
Passado o impacto mais agudo da crise internacional, a recuperação da economia brasileira provocou um efeito colateral ainda pouco comentado e compreendido: a alta mais acelerada da dívida externa desde o Plano Real. Ou, mais exatamente, desde que, em 1994, às vésperas do lançamento da atual moeda, foi fechado o acordo com os credores para normalizar os pagamentos e reabrir o mercado global de crédito para o governo brasileiro e para as empresas do país. Do final do ano retrasado para cá, a dívida externa conjunta de empresas, administrações públicas e famílias cresceu 43%. A taxa supera a expansão ao longo dos 15 anos anteriores, de 34%. Se as consequências dessa escalada ainda não estão claras, as causas são fáceis de explicar: no mundo desenvolvido, as taxas de juros despencaram para reativar a produção e o consumo; no Brasil, os investimentos públicos e privados tiveram uma forte retomada.

JUROS ALTOS 
O cenário criado após o terremoto financeiro de 2008-2009 estimulou bancos e empresas do setor produtivo a buscar empréstimos e financiamentos no mercado internacional para aplicar e investir no mercado doméstico -no qual a oferta de recursos é escassa e os juros são os mais altos do planeta. A dívida externa, que era de pouco menos de R$ 200 bilhões no final de 2009, chegou a R$ 284 bilhões em maio. A parcela privada da dívida, hoje equivalente a três quartos do total, cresceu R$ 87 bilhões, enquanto a parcela pública da dívida encolheu R$ 1 bilhão. Autor de um trabalho recente sobre o tema, o economista Julio Gomes de Almeida, do Iedi (Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial), afirma que, embora não haja risco imediato, o salto da dívida ameaça a sustentabilidade do crescimento econômico.

RISCOS 
“Esse é um processo insustentável a longo prazo e arriscado do ponto de vista empresarial”, diz Almeida.  O perigo mais óbvio da dependência crescente de capital externo é a eventual reversão do quadro favorável atual. A alta dos juros externos ou das cotações do dólar pode tanto criar dívidas impagáveis quanto derrubar a produção nacional. O próprio governo já manifestou preocupação com o crescimento da dívida do setor privado. Em março, para conter esse movimento, houve aumento do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) para dívidas com prazo inferior a dois anos. Nos dois meses seguintes, as dívidas continuam crescendo, mas com prazos mais longos. Aqui

Por Reinaldo Azevedo
E quem ficará no lugar de Itamar no Senado? Zezé Perrela. investigado por evasão de divisas, lavagem de dinheiro e enriquecimento ilícito…

Por Fábio Fabrini, no Globo:
Deverá provocar barulho a chegada ao Senado do suplente do ex-presidente Itamar Franco, Zezé Perrella (PDT-MG). Com a morte do senador mineiro, o presidente do Cruzeiro herda um mandato quase inteiro no Senado e, de quebra, ganha refresco em investigações por enriquecimento ilícito, lavagem de dinheiro e evasão de divisas. Na condição de parlamentar, terá foro privilegiado, o que significa que as investigações agora dependem de autorização do Supremo Tribunal Federal (STF).

Um colecionador de títulos na Raposa, pelo Cruzeiro, Perrella se notabilizou pelas complicações com o Ministério Público e a Polícia Federal. Há pouco mais de um mês, a Promotoria de Defesa do Patrimônio Público de Minas abriu investigação para apurar como o cartola, que exerceu mandato de deputado estadual entre 2007 e 2011, adquiriu a Fazenda Guará, em Morada Nova de Minas, produtora de grãos e gado. A propriedade valeria mais de R$ 50 milhões, apesar de Perrella ter declarado à Justiça Eleitoral, no ano passado, patrimônio de R$ 490 mil, numa denúncia feita inicialmente pelo jornal “Hoje em Dia”.

A Guará está em nome da Limeira Agropecuária e Participações Ltda., empresa em nome dos filhos de Perrella, Carolina Perrella Amaral, e o deputado estadual mineiro Gustavo Henrique Perrella, eleito no ano passado, graças ao apoio do pai. O cartola alega que “doou” seus bens aos filhos. A Polícia Federal apura indícios de lavagem de dinheiro na aquisição da fazenda e pesados investimentos feitos na propriedade, posteriormente.

No ano passado, a PF já havia indiciado o futuro senador Zezé Perrella por lavagem de dinheiro e evasão de divisas na venda do jogador Luisão, em 2003. O inquérito foi remetido ao Ministério Público Federal. O zagueiro foi negociado por US$ 2,5 milhões com o empresário Juan Figger, que teria usado o Central Espanhol Futebol Clube, time uruguaio de pouca expressão, como “laranja” na operação. Em seguida, o jogador foi vendido por US$ 1 milhão a menos ao Benfica. Segundo a PF, o esquema teria sido usado para ocultar dinheiro não declarado ao Fisco. Perrella nega as acusações.

Por Reinaldo Azevedo
Empresa de senador leva R$ 57 milhões da Petrobras em contratos sem licitação

Por Leandro Colon, no Estadão:
Uma empresa do senador e ex-ministro Eunício Oliveira (PMDB-CE), a Manchester Serviços Ltda., assinou sem licitação contratos que somam R$ 57 milhões com a Petrobrás para atuar na Bacia de Campos, região de exploração do pré-sal no Rio de Janeiro. Documentos da estatal mostram que foram feitos, entre fevereiro de 2010 e junho de 2011, oito contratos consecutivos com a Manchester.

Os prazos de cada um dos contratos são curtos, de dois a três meses de duração, e tudo por meio de “dispensa de licitação”, ou seja, sem necessidade de concorrência pública. Eleito senador em outubro, Eunício é presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), a mais importante da Casa.

Cerca de R$ 25 milhões foram repassados pela Petrobrás à Manchester em 2010, ano de eleições. A nove dias do segundo turno presidencial, por exemplo, Petrobrás e Manchester fecharam um novo contrato - via “dispensa de licitação” e pelo prazo de 90 dias - no valor de R$ 8,7 milhões. Desde então, já no governo de Dilma Rousseff, novos contratos foram celebrados sem concorrência pública com a empresa do senador, entre eles um de R$ 21,9 milhões (de número 4600329188) para serviços entre abril e junho deste ano.

A Manchester tem sede em Brasília, mas instalou filial em Macaé num sobrado de uma rua sem saída, a poucas quadras da sede da Petrobrás na cidade fluminense. A empresa é contratada para fornecer mão de obra terceirizada à estatal, incluindo geólogos, biólogos, engenheiros e administradores. O diretor da Área Internacional da Petrobrás, Jorge Zelada, e o diretor de Abastecimento, Paulo Roberto Costa, foram indicados no governo passado pelo PMDB, partido de Eunício, e mantidos no governo Dilma.

A Petrobrás confirmou ao Estado os valores e a “dispensa de licitação”. Informou que novos contratos foram feitos com a Manchester sem concorrência pública “em decorrência de problemas em processo licitatório”. Eunício se nega a falar sobre o assunto, sob a alegação de que está afastado das decisões da empresa. Ele escalou o sócio Nelson Ribeiro Neves para se manifestar à reportagem. O senador é dono de 50% da sociedade da Manchester, conforme informação dele mesmo à Justiça Eleitoral e confirmada na Junta Comercial.

Antes de virar senador, Eunício foi deputado federal e ministro das Comunicações do governo Lula. É membro da Executiva Nacional do PMDB. Em julho do ano passado, ofereceu um jantar em sua casa para Dilma com a presença de mais de 300 pessoas. A mesma casa foi palco de homenagem, em dezembro, ao então presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

“Não vincule”. A empresa do senador fornece mão de obra para áreas estratégicas da Petrobrás, que, por ser estatal, não precisa publicar seus contratos no Diário Oficial da União nem no Portal da Transparência, mantido pela Controladoria-Geral da União (CGU). Segundo a gerente da empresa em Macaé, são pelo menos mil funcionários da Manchester atuando na gestão administrativa “on shore” (em terra) em Macaé. Procurada pelo Estado na quarta-feira, a gerente da empresa na cidade, que se identificou como Fabiane, fez um apelo para que a reportagem não fizesse a vinculação da Manchester com a Petrobrás. “Só não quero que mencione a empresa. Não vincule o nome da empresa neste momento.”

Os documentos da Petrobrás mostram que um contrato de R$ 4,3 milhões foi feito para prestação de serviços entre 23 de fevereiro e 29 de abril de 2010. Outro de R$ 8,7 milhões referiu-se ao período de 10 de maio a 26 de julho do mesmo ano. De 13 de agosto a 24 de setembro, Petrobrás e Manchester firmaram contrato de R$ 4,3 milhões, e logo depois, entre 22 de outubro e 22 de janeiro, a empresa do senador recebeu mais R$ 8,7 milhões.

O primeiro contrato fechado no governo Dilma com dispensa de licitação ocorreu no dia 26 de janeiro, com vigência até 22 de maio, pelo valor de R$ 8,7 milhões. Entre 18 de abril e 14 de junho, aparece o contrato de R$ 21,9 milhões. As duas empresas ainda assinaram um contrato menor, de R$ 872 mil, vigente de 11 de março a 11 de junho. Por “convite”, a Manchester receberá mais R$ 298 mil para prestar serviços administrativos até fevereiro de 2012. Aqui

Por Reinaldo Azevedo
O sistema perfeito de Eunício: empresas recebem de estatais e do governo e financiam campanhas eleitorais do seu dono

Por Leandro Colon, no Estadão:
A Manchester Serviços Ltda., que tem o senador Eunício Oliveira (PMDB-CE) como sócio, doou oficialmente R$ 400 mil para a campanha dele ao Senado em 2010, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Foram R$ 200 mil por meio de um cheque, no dia 2 de setembro, e R$ 200 mil, em dinheiro vivo, 20 dias depois. Naquele período, vigorava um contrato de 43 dias - entre 13 de agosto e 24 de setembro - no valor de R$ 4,3 milhões da empresa com a Petrobrás.

Mais uma vez, o contrato foi assinado por meio de “dispensa de licitação”, segundo documentos da própria estatal. O contrato tem o número “4600315823″.

Eunício é sócio ainda da Confere Comércio e Serviços de Alimentos, que doou R$ 160 mil para a campanha dele ao Senado e R$ 240 mil para o comitê regional do PSB no Ceará. Ano passado, a Confere faturou R$ 5,7 milhões com o governo federal, cinco vezes mais que nos dois anos anteriores. Já foram R$ 2,7 milhões pagos em 2011 por contratos com a Fundação Nacional de Saúde (Funasa), o Ministério dos Transportes e a Fundação da Universidade de Brasília.

O peemedebista recebeu R$ 500 mil do comitê cearense que cuidou da campanha de Dilma Rousseff à Presidência da República no Estado. A campanha de Eunício declarou uma despesa de R$ 7,7 milhões para ele ser eleito senador com 36% dos votos. Ele declarou à Justiça Eleitoral um patrimônio de R$ 36,7 milhões.

Eunício é ainda dono da Confederal Vigilância e Transporte de Valores, que tem contratos com órgãos públicos. A empresa recebeu R$ 14 milhões do governo federal em 2010. Desde janeiro, foram pagos R$ 4 milhões por contratos com a Funasa e o Ministério da Agricultura, cujo comando é do PMDB.

A Confederal gastou oficialmente R$ 728 mil para ajudar a campanha de seu dono ao Senado e de candidatos cearenses a deputados estadual e federal pelo PMDB, PTB e PSL. O senador pôs ainda na campanha dele dinheiro oriundo de sua conta pessoal, R$ 950 mil, entre 26 de julho e 27 de setembro do ano passado, por meio de cheque e transferência eletrônica.

Assim como na Manchester, Eunício alega que está afastado da administração da Confederal, embora seja dono de 98% dela.

Um sobrinho dele, Ricardo Augusto, é quem cuida dos negócios da empresa de vigilância. A Confederal foi personagem em 2004 de uma investigação da Polícia Federal que desmontou um esquema de fraudes em licitações no Tribunal de Contas da União. Na época, o diretor comercial da empresa foi preso. Aqui

Por Reinaldo Azevedo

Oposição cobra de Eunício explicações sobre contratos

Por Rosa Costa, no Estadão:
Parlamentares da oposição vão pedir ao senador Eunício Oliveira (PMDB-CE) que esclareça os motivos pelos quais sua empresa, a Manchester Serviços Ltda., foi dispensada da licitação em contratos com a Petrobrás que somam R$ 57 milhões.

O líder do DEM, senador Demóstenes Torres (GO), informa que, se as explicações não forem convincentes, o partido pedirá ao Ministério Público que analise a “regularidade” dessas contratações. “Tem de haver uma razão, a dispensa da licitação não pode ser entendida como um procedimento normal, corriqueiro”, alega Torres.

Reportagem publicada ontem no Estado revelou que a Manchester fez contratos com a Petrobrás para atuar na Bacia de Campos, região de exploração do pré-sal no Rio de Janeiro. Os prazos dos contratos são curtos, de dois a três meses de duração, todos eles realizados mediante a “dispensa de licitação”. A Petrobrás confirmou o procedimento, mas limitou-se a informar que isso ocorreu “em decorrência de problemas no processo licitatório”.

A empresa é contratada para fornecer mão de obra terceirizada à estatal, incluindo geólogos, biólogos, engenheiros e administradores.

O senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP) afirma ser necessário saber qual foi o problema da licitação. “É preciso saber qual foi a emergência e se atende ao que diz a lei”, defende.

Eunício Oliveira é presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado e homem de inteira confiança do governo. O senador Randolfe Rodrigues (PSOL-AP) vai sugerir que ele apresente as explicações na próxima reunião da CCJ, na quarta-feira. “Esperamos que ele tenha explicações claras, convincentes, sobre a dispensa da licitação desses contratos de valor elevado”, afirma. Aqui

Por Reinaldo Azevedo
Truque: Estados declaram pensões e leite como gastos em saúde

Por Fernanda Nascimento, Gabriel Castro e Adriana Caitano, na VEJA Online:
A criatividade dos governos estaduais na hora de declarar os gastos com saúde não tem limites. Para atingir o valor que, por lei, eles devem investir em ações e serviços públicos da área, vale tudo - despesas com pensões, assistência social, fundos habitacionais, reforma agrária e até compra de leite. Inflados, os gastos garantem que os estados cumpram as regras definidas em 2000 pela Emenda 29, que estipula a destinação de, no mínimo, 12% de suas receitas à saúde.

Em cinco anos, no período de 2004 a 2008, vinte estados camuflaram um montante de 13,4 bilhões de reais em investimentos em saúde. Minas Gerais lidera o ranking: declarou 4,6 bilhões de reais a mais do que efetivamente gastou na área. Avaliação feita pelo Sistema de Informações sobre Orçamentos Públicos em Saúde (SIOPS), órgão do Ministério da Saúde, encontrou entre as despesas gastos com a Polícia Militar, com o Corpo de Bombeiros e até com o Fundo de Apoio Habitacional da Assembléia Legislativa. Os dados coletados entre 2004 e 2008 são os mais recentes analisados pelo Ministério da Saúde.

Em nota, o governo de Minas Gerais afirmou ao site de VEJA que “cumpre regularmente suas despesas com a saúde, obedecendo aos critérios definidos pela Instrução Normativa 19/2008 do Tribunal de Contas do Estado (TCE)”. Logo atrás de Minas vem o Rio Grande do Sul que, em cinco anos, colocou 2,9 bilhões na conta da saúde indevidamente. Procurado, o governo do estado alegou que os baixos repasses para a saúde são herança de governos anteriores e afirmou que vai aumentar gradativamente os repasses na área para alcançar o patamar exigido por lei.

Acesso universal - A avaliação do Ministério da Saúde se baseia em uma resolução do Conselho Nacional de Saúde (CNS) que, em 2003, determinou o que são gastos na área. O entendimento beira o óbvio. São despesas em saúde aquelas destinadas às ações e serviços de acesso universal, igualitário e gratuito. Ou seja, investimentos ligados a servidores públicos ou policiais, por exemplo, não compõem o patamar mínimo. Aposentadorias e pensões, frequentemente incluídas pelos estados no orçamento da saúde, também ficam de fora.

Só em 2008 foram declarados pelos estados como investimentos na área cerca de 30 bilhões de reais. Deste valor, 7% não eram despesas com saúde de acordo com o Siops. “O Brasil é um país que gasta pouco com saúde. Mais dinheiro não vai resolver o problema, pois existe uma enorme ineficiência na utilização da verba que vai para a saúde”, avalia o economista José Márcio Camargo, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ). “O sistema deveria ser alterado para melhorar a utilização da verba”.

O problema é que, por enquanto, os estados estão livres para interpretar o que são gastos na saúde. A discussão sobre a regulamentação da Emenda 29 se arrasta há onze anos. Só com a aprovação da proposta que está na Câmara dos Deputados é que a resolução do CNS passa a ter valor de lei, tornando os governos alvo de investigações caso sejam constatadas irregularidades na declaração.

Longe do mínimo - As consequências das irregularidades não são pequenas. O orçamento inflado fez com que, entre 2004 a 2008, dezessete estados não cumprissem o patamar mínimo de 12% destinado à saúde. Se descontados os gastos não considerados pelo Conselho Nacional de Saúde, apenas os estados da região Norte, São Paulo, Distrito Federal e Rio Grande do Norte atingiram a parcela estipulada por lei.

Rio Grande do Sul e Minas Gerais figuram mais uma vez entre as maiores defasagens, em primeiro e segundo lugar, respectivamente. O estado do Sul destinou apenas 4,5% do orçamento do período para ações e serviços de acesso universal, igualitário e gratuito, segundo a análise do Ministério da Saúde. Já o governo mineiro gastou 7,5% da receita total do estado nestes cinco anos com a saúde. Aqui

Por Reinaldo Azevedo
Saúde na UTI - Para atender 80% da população, rede pública só conta só com 56% dos aparelhos existentes no país

Luiz Inácio Apedeuta da Silva já chamou o sistema de saúde no Brasil de quase perfeito, lembram-se? Leiam o que segue:

Por Fábio Frabini, no Globo:
Um bolo pequeno e dramaticamente repartido. É esse o retrato da tecnologia no Sistema Único de Saúde (SUS). Para atender 152 milhões de pessoas, o equivalente a 80% da população, as unidades de saúde pública contam com apenas 56% dos aparelhos para diagnóstico e tratamento de doenças disponíveis no país. O restante está exclusivamente a serviço de clientes privados ou de planos de saúde, público que corresponde a um terço da clientela do governo. O cálculo foi feito pelo GLOBO, com base em dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O país tem 704,8 mil equipamentos, classificados em seis grandes grupos pelo IBGE (de diagnóstico por imagem; de manutenção da vida; de terapia por radiação; de funcionamento por métodos gráficos e óticos; e “outros”). Desse total, 396,9 mil estão alocados em serviços próprios ou credenciados pelo poder público. É como se cada máquina tivesse de ser dividida por 382 pacientes, mais que o dobro do verificado na saúde privada (151). Do prosaico aparelho de pressão à ressonância magnética, a desproporção é imensa.

Há no país 1.358 aparelhos de raios X para densitometria óssea, por exemplo, só um quarto na rede pública (367). São 3.019 tomógrafos no total, dos quais 1.145 no SUS. O mesmo vale para aparelhos de endoscopia digestiva (7.529, contra 2.972), eletroestimulação (19.230, contra 7.644), laparoscopia (3.458, contra 1.402), eletroencefalograma (3.123, contra 1.305) e muitos outros. Números que ajudam a entender a longa espera por exames e tratamentos.

Não raro, a oferta de serviços não atende ao previsto pelo próprio Ministério da Saúde em normativos para orientar os gestores do SUS. Portaria de 2002 prevê, por exemplo, um tomógrafo para cada cem mil habitantes, quando há, de fato, um para cada 166 mil brasileiros (ou 132 mil se considerado apenas o público do SUS). Conforme a norma, haveria um aparelho de raios X para densitometria óssea para cada 140 mil pessoas. Na realidade, segundo os números do IBGE, há um para cada 520 mil (ou 414 mil, levando-se em conta a clientela do SUS).

Por Reinaldo Azevedo
MST cobra nomeações no Incra e critica Dilma

Por Roldão Arruda, no Estadão:
A demora na nomeação de superintendentes regionais do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) começa a desgastar a relação de dirigentes do Movimento dos Sem Terra (MST) com o governo da presidente Dilma. Além das declarações públicas de desagrado, que se tornam cada vez mais azedas, líderes do movimento preparam protestos contra o governo que ajudaram a eleger.

O movimento acusa o governo de ter paralisado a reforma agrária. O principal indicador do descaso com a reforma, segundo o MST, é o fato de que num total de 30 superintendências do Incra só seis contam com novos diretores. As indicações para as outras 24 cadeiras estão paralisadas em virtude de disputas políticas que envolvem tanto correntes internas do PT quanto partidos da base aliada. O próprio MST tem interesse nessas nomeações e tenta influenciar a escolha dos nomes a partir da aliança com partidos, como o PT.

O fato de a Presidência ter decidido devolver para o Ministério do Desenvolvimento Agrário um conjunto de processos de desapropriação e aquisição de terras para a reforma também provoca irritação do MST. Concluídos durante a gestão de Rolf Hackbart, que comandou o Incra no governo de Luiz Inácio Lula da Silva, e à espera do sinal verde da presidente Dilma, os processos retornaram com a explicação de que precisam de justificativas mais robustas. “Foram devolvidos 90 kits de desapropriação já concluídos”, reclama João Paulo Rodrigues, porta-voz da coordenação nacional do MST. “Atitudes como essa paralisam o Incra e a reforma agrária.”

Na semana passada, Rodrigues postou em seu Twitter a seguinte mensagem endereçada à presidente: “Dilma, estamos em junho e até agora os diretores do Incra não foram nomeados, ou seja: a reforma está parada. Poderia nos informar o que se passa?”

No final de semana, outro dirigente nacional, Jaime Amorim, também atacou, em entrevista no site da organização: “Mesmo no projeto de combate à miséria que a presidente Dilma instituiu a reforma não está colocada”.Aqui

Por Reinaldo Azevedo

A missão deles. Ou: De namorico com Dilma sobre a ponte

Queridos, é um daqueles textos um tanto longos, mas que, acredito, toca em algumas questões essenciais. A avaliação, como sempre, é de vocês.

Na quarta-feira, o ex-governador de São Paulo José Serra apresentou umdocumento para ser debatido pelos demais membros do Conselho Político do PSDB, presidido por ele. Com algumas costelas e um braço fraturados, o senador Aécio Neves (MG) não compareceu à reunião, em Brasília. Estavam presentes, além de Serra, os governadores Geraldo Alckmin (SP) e Marconi Perillo (GO), o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o deputado Sérgio Guerra (PE), presidente da legenda. O texto foi enviado a Aécio. Não se tratava de um abaixo-assinado, resolução ou linha oficial de conduta a ser adotada pelo partido a partir daquele encontro - infelizmente para a oposição, não era nada disso. Tratava-se tão-somente de documento de uma de suas lideranças. Mesmo assim, deu-se um pequeno sururu. No dia seguinte, uma solenidade no Senado, a que compareceram políticos de diversas legendas - inclusive do PT (aquele evento em que Nelson Jobim lamentou ter de suportar alguns “idiotas” imodestos) -, comemorou os 80 anos de FHC, completados no último dia 18. Serra discursou. Falou inequivocamente como homem de oposição. Novo sururu. Nos dois casos, acusou-se um Serra acima do tom, inadequado àquele que seria um clima de cordialidade entre governo e oposição. As circunstâncias em que uma avaliação como essa prospera, com o auxílio luxuoso de certa imprensa que estupidifica o debate político, dizem bem da miséria política que experimentamos.

Tornado público o documento, Sua Excelência o “Off” - vocês o conhecem? - começou a dar declarações à imprensa afirmando que o texto não representava um consenso, mas apenas a visão de seu autor. Era uma meia-verdade - e, portanto, uma meia-mentira. Como meia-verdade, com efeito, tratava-se de uma avaliação do ex-governador posta em debate, que não buscava a adesão formal dos conselheiros. Como meia-mentira, ignora-se o fato de que os presentes acharam que o documento era bom e retratava com correção o momento. Ao fim do encontro, indagado sobre as críticas, FHC chegou a afirmar: “Eu sigo o Serra”.

Antes que continue, uma nota à margem: editores e diretores de jornal deveriam rediscutir o estatuto do off. Antigamente, ele servia para que fontes denunciassem falcatruas ou dessem algumas dicas preciosas aos jornalistas, colocando-os na pista certa numa determinada apuração. Hoje em dia, com a proliferação da chamada “cobertura política de bastidores”, tornou-se um instrumento do político que cai nas graças do repórter, do editor ou do colunista. Ele pode falar o que bem entende, mandar o seu recado, e não tem como ser contestado ou contraditado. Ou por outra: quem publica uma avaliação política “em off” está fazendo assessoria de imprensa. Sigamos.

Diante da celeuma armada em torno do documento, no sábado à noite, Sérgio Guerra divulgou a seguinte nota:
“O governador José Serra apresentou ao Conselho Político do PSDB um documento sobre a conjuntura brasileira e também comentários sobre as ações do partido. Serra nunca pretendeu que sua proposta fosse assumida como do Conselho ou do Partido. É um texto de qualidade, como são as manifestações do governador, e será discutido no ambiente partidário e político. Esse era e é o propósito do governador Serra.”

Em seu site, Serra escreve:
“O texto é de minha autoria. Levei-o à primeira reunião do Conselho Político do PSDB, o qual presido, no dia 29 de junho, em Brasília, para servir de base ao debate  sobre a conjuntura política e o partido. Fiz o elenco daqueles que considero os problemas do país, as dificuldades do governo, a missão do nosso partido e os riscos que podem rondar a legenda. Trata-se de um texto extenso e com temas muito diversificados. Não tinha a pretensão, nem propus - todos os  presentes  à reunião sabem disso - transformá-lo em um documento formal do PSDB,  subscrito por todos.”

Mas o que Serra disse de tão grave?
Mas, afinal, o que disse Serra de tão grave? Apontou o que chamou de “herança maldita” de Lula - especialmente a crise na área infraestrutura no país; apontou as hesitações e falta de rumo do governo; criticou com ênfase o novo regime de contratação de obras para a Copa, que vai facilitar a corrupção, e alertou o partido para o risco de divisões internas. No discurso em homenagem a FHC, lembrou que o ex-presidente não é do tipo que passa a mão na cabeça de aloprados. Havia petistas presentes. Algumas normalistas, inclusive da imprensa, consideraram a fala uma descortesia. Daqui a pouco estaremos proibidos de falar mal do Marcola para não ferir susceptibilidades.

Começou uma impressionante gritaria na imprensa. Serra estaria cometendo o grave erro de investir no confronto (ó, meu Deus! Que coisa feia!), quando o momento é de concórdia. Alguns chegaram a lembrar, imaginem vocês!, que Dilma enviara, não faz tempo, uma mensagem simpática a FHC, reconhecendo seus méritos. Como o ex-governador ousa, dado esse fato, acusar erros, desvios, desmandos e incompetências do petismo? Não sei se notam a armadilha intelectual e moral que há nessa consideração. Sua síntese é a seguinte: enquanto Dilma - ou petistas graúdos - não reconheciam os méritos do ex-presidente, tudo bem haver algum confronto etc e tal. Agora que ela se rendeu, ao menos parcialmente, aos fatos, então os tucanos ficam proibidos de criticar petistas. Corolário: o PT é que determina quando seu adversário pode ou não atacá-lo. E exercerá esse poder regulando a sua própria disposição para elogiar os desafetos.

Nunca vi isso. Aliás, nunca antes na história do mundo democrático alguém viu algo parecido.

Leio no Estadão deste domingo, na coluna de João Bosco Rebello, a seguinte nota, intitulada “Inércia aparente”:
Há outra interpretação para o comportamento da oposição, que explica sua criticada inércia como uma aposta nos efeitos do enfrentamento do governo com sua base. A síntese, defendida pelo senador Aécio Neves (PSDB-MG), é a de que o conflito na base dispensaria a oposição, por ora, de ações mais agressivas.Prova disso seria a ponte lançada pela presidente Dilma ao PSDB, materializada no reconhecimento do legado de Fernando Henrique Cardoso. No espaço de um semestre, Dilma passou da crítica ao elogio à maior expressão tucana, no mínimo para arrefecer o ânimo oposicionista. Não conseguiu isso de José Serra, seu adversário derrotado nas eleições, que divulgou à revelia do partido um documento com pesadas críticas ao governo na busca de afirmar-se candidato do partido em 2014, condição que disputa com Aécio.

Heeeinnnn?
Eu entendi errado, ou o senador Aécio Neves está a dizer que, por enquanto, a tarefa de fazer oposição a Dilma é da própria base aliada, cabendo à oposição pegar leve, não criar tensão. Olhem, eu até entendo o que alguns petistas querem dizer quando afirmam que a imprensa - ao menos aquela que se preza - é o verdadeiro partido de oposição do Brasil. Embora seja uma mentira estúpida, uma vigarice, uma afirmação canalha, ela é compreensível. É o jornalismo que informa o patrimônio fabuloso de um Antonio Palocci, o esquema corrupto armado no Ministério dos Transportes, o fabuloso faturamento de uma empresa de Eunício oliveira, que fornece serviços à Petrobras sem licitação. É… Faz sentido! Em muitos aspectos, a imprensa faz o papel que caberia à oposição, mas não porque seja oposicionista e queira o poder, mas porque defende as instituições, vigia o poder e cobra o respeito às leis.

O governo tem uma base de tal sorte gigantesca que é razoável que ela se divida e que haja uma pressão danada para ocupar cargos. Mas isso não quer dizer que a oposição deva se acomodar, deixando de cumprir o seu papel, esperando que os próprios governistas batam cabeça. O que propõe Aécio? Silenciar diante de um Palocci? Calar-se diante dos descalabros do Ministério dos Transportes? Não dizer uma vírgula sobre a empresa do patriota Eunício Oliveira? E só para reiterar: o documento de Serra, como atesta a nota de Guerra, não foi divulgado à revelia do partido.

Teoria da ponte
A que ou quem serve “a ponte” que Dilma teria lançado, seguindo o pensamento de Aécio, relatado por João Bosco Rebello? Bem, se ela tinha a intenção de desarmar e de desarticular a oposição, a serem as coisas como quer Aécio, então Dilma estaria sendo muito bem-sucedida, não é mesmo? Depois de ter passado 17 anos esculhambando os tucanos, bastaria um elogio para que a oposição se derretesse. Compreende-se, nesse contexto, que seja considerada inadequada e fora de tom a fala de um político que lembra que a oposição existe e que, na democracia, é ela que legitima o governo , uma vez que só há oposição livre… na democracia!

Não estou criticando a coluna de João Bosco. Registra o pensamento de um senador da oposição, um dos pré-candidatos do PSDB à Presidência da República. O que me espantou foi certo colunismo, que se revelou quase ofendido com o documento e com o discurso de Serra. Na sexta, o deputado Mendes Ribeiro (PMDB-RS),  nomeado líder do governo no Congresso, revelou a recomendação que lhe fizera a presidente Dilma no exercício do cargo: “desarmar os espíritos”, “buscar o entendimento” e “ter paciência”.

Entende-se, pois, que o espíritos andam armados, que o entendimento inexiste e que a pressão é grande. Sim, em um aspecto ao menos Aécio está certo: o governo encontra alguns severos problemas em sua base de apoio. Deve, por isso, a oposição renunciar à sua tarefa? Deve, então, deixar de dizer o que tem de ser dito para ficar assistindo à confusão da base, enquanto transita na “ponte”? Ora… Não custa lembrar que Luiz Inácio Lula da Silva, que é quem manda no PT e quem vai comandar as alianças dos petistas já neste 2012, não enviou nem mesmo simples “parabéns” a FHC. Sei lá… Talvez ache injusto até mesmo algo de que o tucano certamente não faria a menor questão: completar 80 anos primeiro!

Oposição é parte da construção democrática
Atenção para uma questão essencial! Uma oposição não tem nem mesmo a obrigação de ser justa! Fosse essa uma exigência para que alguém pudesse se opor ao poder, estaríamos numa tirania, ainda que eventualmente virtuosa, em que um tribunal julgaria de antemão os motivos dos adversários do governo. Imaginem, então, quando as razões abundam, e a sua evidência está nas recomendações que a própria mandatária dá a seu líder no Congresso!

Mais ainda: oposições justas não conseguem, muitas vezes, lograr o seu intento. E pode acontecer de as injustas serem bem-sucedidas. Isso tudo é parte do jogo democrático, daquele sistema que, como bem observou Churchill, no que já é um clichê, mas de verdade intrínseca ainda insuperável, é “a pior forma de governo, com exceção de todas as outras que têm sido tentadas de tempos em tempos”. A propósito: Churchill venceu Hitler, mas foi derrotado pelos britânicos, que o apearam do poder. Foi justo? Não importa! Foi democrático! Qualquer outro regime que impedisse o povo de fazer a sua escolha seria pior, com o que o próprio Churchill concordava.

Vão fazer outra coisa!
Se os tucanos consideram que o PSDB não suporta um discurso como o de Serra ou um documento como aquele, que, então, mudem de ramo ou mudem de lado. Num caso, devem parar de fazer política; no outro, devem se juntar a Dilma Rousseff na esperança tola, estúpida, de que, quem sabe?, ela se desgrude um tantinho de Lula e do PT. O Brasil tem jabuticaba, tem pororoca, Tiririca, mulher-melancia; tem até bandido-filósofo, que lê Nietzsche na cadeia - e tem filósofos-bandidos também, que justificam o terrorismo, por exemplo. Não nos faltam exotismos. Mas uma coisa é certa: não conseguimos um outro feito único no mundo, que seria transformar uma oposição governista em algo virtuoso para a democracia.

Não há uma só democracia do mundo em que o direito de fazer oposição - ou melhor: A OBRIGAÇÃO - seja contestado por setores da própria imprensa e até por líderes da oposição. Num editorial deste domingo, o Estadão escreve algo que certos oposicionistas hoje talvez considerem de um radicalismo insuportável:
“Tudo fica ainda pior quando a essa dificuldade estrutural se soma a inexperiência, ou a inaptidão, do presidente da República para manter sua maioria no Congresso sob relativo controle. É o que se tem visto, uma vez e outra e outra ainda, no governo Dilma Rousseff. Não se lhe fará a injustiça de ignorar que ela procura dar o melhor de si no desempenho da função. Mas tampouco se pode imaginar que ela desconhecesse, ao tomar posse, as realidades do exercício do poder no País, das quais faz parte a disposição dos políticos de pagar para ver a mão de quem, conforme o seu patrimônio de liderança, ou aprenderão a respeitar ou insistirão em chantagear (…).O episódio dos restos a pagar é, por baixo, o terceiro tropeção do governo em assuntos relevantes, depois da votação do Código Florestal e do zigue-zague de Dilma no caso do sigilo eterno (ou limitado a 50 anos) dos papéis oficiais considerados ultrassecretos. A repetição não deixa dúvidas: a presidente governa por ensaio e erro, e o seu governo é a coisa mais parecida que existe em Brasília com uma sanfona. Não adianta culpar por isso o disfuncional sistema político. Dilma é que tarda a assumir a sua responsabilidade primária: encarnar na Presidência.”

Quem quer chegar ao poder tem de se preparar para vigiar o governo, apontar as suas falhas, debater caminhos, propor alternativas - e olhem que, a exemplo do que fez o PT, nem precisa necessariamente cumprir as promessas. O conteúdo do documento de Serra foi deixado de lado para privilegiar, mais uma vez, o racha interno, a picuinha, as fofoquinhas, os “offs” plantados… Em suma: a base de Dilma Rousseff, como evidencia a reportagem de VEJA desta semana sobre o PR, causa-lhe muita dor de cabeça. Não é que há tucanos se oferecendo para um namorico na ponte?

E o que há do outro lado da ponte? O PT! Ou seja: a derrota!

Por Reinaldo Azevedo
Tags:
Fonte:
veja.com.br

0 comentário