O PP e o mensalão de R$ 30 mil

Publicado em 22/08/2011 18:59 588 exibições

O PP e o mensalão de R$ 30 mil

Os problemas éticos do governo Dilma — o mais apropriado é escrever “do governo do PT” — se revelam cada vez mais método, não desvio de conduta. Por isso é grande o desassossego na base governista, em especial no petismo. E se, de fato, decidirem que é hora de governar segundo a moral e os bons costumes? Aí o castelo desmorona.

Neste fim de semana, o ministro das Cidades, Mário Negromonte, por exemplo, emitiu uma nota em que nega a existência de mensalão para parlamentares do seu partido, o PP. E por que nega? Está respondendo a uma reportagem de Paulo Celso Pereira na edição de VEJA desta semana. O que apurou a revista?

Na quarta-feira, dia 17, um grupo de deputados do partido procurou a ministra Ideli Salvatti (Relações Institucionais) e afirmou que emissários do ministro Negromonte — que está em guerra aberta com o correligionário e antecessor, Márcio Fortes — estão oferecendo uma mesada de R$ 30 mil mensais em troca de apoio. Tudo mentira? Só na terça passada, nada menos de 12 parlamentares do partido estiveram com o ministro. Três deles confirmaram à VEJA a oferta: “Muitos ficaram assustados com a pressão que sofreram no ministério. Quando os argumentos se esgotavam, vinha a proposta de dinheiro”, afirmou um deles. O próprio Ministério das Relações Institucionais confirma que recebeu a denúncia, que já foi repassada à presidente Dilma…

Pois é…

Negromonte e Fortes são do mesmo partido e estão em pé de guerra. Um é ministro; o outro é ex. O atual não esconde a desavença: “Márcio Fortes saiu daqui com raiva de todo mundo porque ele gostaria de ter permanecido”. Não permaneceu, mas não ficou ao relento. Foi nomeado recentemente para a Autoridade Pública Olímpica.

Se a coisa for mais ou menos como dizem os deputados, os chefões do partido quebram o pau, e quem paga a conta é a população.

Por Reinaldo Azevedo

Parece uma cena de “O Poderoso Chefão”, de Coppola, mas é só Lula em ação

Ele decide quem é candidato. E ponto!

Ele decide quem é candidato. E ponto!

Leiam o que informa o Estadão Online. Volto em seguida:

Por Gustavo Uribe, da Agência Estado:
O ministro da Educação, Fernando Haddad, disse no início da tarde de hoje que não conta neste momento com a desistência da senadora Marta Suplicy (SP) da disputa pela vaga de candidato do PT para prefeito de São Paulo nas eleições de 2012. Haddad, que também é pré-candidato petista, afirmou que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva está animado com o debate em torno das eleições municipais paulistanas e admite a possibilidade de a disputa para indicação do nome petista ser definida por meio de prévias. “Ele reconhece a possibilidade”, disse Haddad, ao deixar a sede do Instituto Lula, na capital paulista. “São cinco postulantes e (a situação) caminha para isso.”

O ministro disse ainda que, caso haja uma consulta às bases do partido, o ex-presidente crê que o PT sairá unido da disputa interna. O ministro almoçou com o ex-presidente na sede do Instituto Lula. Haddad relatou que, no encontro, a disputa pelo posto do PT na corrida eleitoral foi um dos temas abordados. “Discutimos a evolução do quatro eleitoral”, afirmou. “O ex-presidente disse que está animado, que o debate está evoluindo bem e que o nível da discussão está bastante elevado.”

O ex-presidente se reúne esta tarde com o deputado federal Carlos Zarattini (SP), outro pré-candidato na disputa municipal. O deputado federal Jilmar Tatto (SP) e a senadora Marta Suplicy também irão conversar com Lula na tarde de hoje.

Voltei
É ou não é uma legítima cerimônia do beija-mão? A propalada “vida partidária” do PT se resume, no fim das contas, à vontade de Lula. Todos têm de ir tomar a bênção, e a decisão democrática será aquela que ele tomar.

Dia desses, respondendo à entrevista que José Serra concedeu ao jornal espanhol El País, em que afirmou que será Lula o candidato do PT à Presidência em 2014, contestou o Apedeuta: “Em primeiro lugar, quem decide sou eu; depois é o PT”. Tudo muito claro, como se nota.

É o nosso “partido moderno”.

Por Reinaldo Azevedo

Lula liquidou Marta com a ligeireza de quem tira um cisco da roupa; vem aí o leninista de família…

Luiz Inácio Apedeuta da Silva liquidou a candidatura de Marta Suplicy (PT-SP) à Prefeitura de São Paulo assim como quem esmaga um piolho ou se livra de um cisco na roupa. É visível que ela não tem disposição nem subjetiva nem objetiva de enfrentar o “coroné”, o dono do partido.

Lula quer Fernando Haddad disputando o cargo. Eis aí uma evidência do que chamam “modernidade” da candidatura à Prefeitura de São Paulo do atual ministro da Educação. Vai ser o nome do partido na base do dedaço. Será porque Lula quer e ponto final. A operação está dando certo. O nome de Haddad já foi adotado por todos os colunistas de esquerda da imprensa paulistana — e quase todos eles são de esquerda…

A situação de Marta, que já era muito difícil tendo Lula como adversário interno, piorou muito depois que Mário Moyses, seu braço-direito, foi preso pela Operação Voucher, da Polícia Federal. No petismo, acham que a candidatura foi ferida de morte. Não que sua vida fosse ser muito fácil caso decidisse enfrentar o Babalorixá de Banânia. Agora, dá-se internamente a situação por liquidada.

Haddad, o trapalhão mais superfaturado do petismo, será vendido como a renovação da política paulista — ou, mais especificamente, paulistana. É um petista legítimo. Poucos encarnam como ele a mistificação do partido e sabem fabricar números fantasiosos para seduzir incautos, como se verá ainda hoje neste blog. Nunca antes na história destepaiz alguém criou tantas universidades virtuais como Haddad.

Lula leva a sério a máxima de que o primeiro dever do estadista é a traição. O esmagamento público a que Marta está sendo submetida pelo lulismo é a forma como a máquina trata “alguém de dentro” que decidiu resistir à vontade do chefe. Imaginem quando eles decidem destruir a reputação de quem não é da turma…

Vem por aí o bom moço, o leninista de família, com cara de bom genro. A tese é a seguinte: se Lula conseguiu emplacar Dilma, então elege quem bem entender. A ver.

Por Reinaldo Azevedo

Planalto cobra unidade do PT para compensar insegurança com aliados

Por Denise Madueño, no Estadão:
Com focos de insurgência interna em diferentes partidos da base, a articulação política do governo busca a unidade do PT para garantir estabilidade nas votações na Câmara e afastar qualquer risco de a insatisfação de aliados se materializar em assinaturas para a criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para apurar denúncias de corrupção no Executivo.

A ministra da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, foi a portadora do apelo. Ela se reuniu com a bancada do PT na Câmara, na semana passada, e deixou claro o recado: “Nós temos a maior parte dos ministérios e quem está no governo tem de ter responsabilidade. A bancada é fundamental na defesa do governo”.

Nos últimos dias, o Palácio do Planalto tem assistido a conflitos internos em sua ampla base de sustentação e o temor é que os líderes, interlocutores do governo, não tenham mais tanto controle sobre suas bancadas. Os insatisfeitos com as lideranças, por exemplo, podem querer dar o troco nas votações, prejudicando os interesses do Planalto.

No PMDB, segunda maior bancada na Câmara, com 79 deputados, cresceu a movimentação do grupo contrário à atuação de Henrique Eduardo Alves (RN). No PP, a rebelião resultou na destituição do líder Nelson Meurer (PR), do grupo do ministro das Cidades, Mário Negromonte (PP-BA) e atingiu contornos de escândalo.

Deputados da bancada, segundo reportagem publicada na revista Veja, informaram à ministra de Relações Institucionais, Ideli Salvatti, que Negromonte estaria prometendo uma mesada de R$ 30 mil a parlamentares do partido em troca de apoio político a ele. O ministro negou a denúncia. Ideli, por sua vez, deixou claro que a única informação que chegou ao Planalto foi a divisão na bancada do PP.

Efeito controlado. Até agora, as rebeliões internas não afetaram negativamente o governo. Na única votação em que essa fidelidade foi posta à prova, na semana passada, a base garantiu a aprovação de mudanças na estrutura dos Correios, previstas em medida provisória, mesmo com algumas defecções no PMDB. A votação marcou a estreia do PR na anunciada posição de independência, com os votos majoritariamente contrários à orientação do governo. Dos presentes do PR, só Luciano Castro (PR-RR), vice-líder do governo na Câmara, votou com o governo.

“É uma base muito grande, com visões diferentes e interesses diversificados. É aí que a unidade do PT é fundamental. A responsabilidade está bem aqui, na defesa do governo”, insistiu a ministra Gleisi aos petistas. O temor do governo pode ser traduzido em votações desastrosas para o Executivo. Aqui

Por Reinaldo Azevedo
Baixo clero do PMDB ameaça apoiar CPI para pressionar alto clero do partido…

Por Eugênia Lopes, no Estadão:
A cúpula do PMDB da Câmara está provando do veneno do fisiologismo. Parte da bancada do partido pressiona seus próprios caciques por não ter sido contemplada com cargos de segundo e terceiro escalão no governo.

Com a demora na nomeação de apadrinhados, um grupo de deputados peemedebistas adotou o modus operandi tradicional no PMDB. Assim, ameaça apoiar a criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar suspeitas de corrupção no governo, caso não seja atendida prontamente.

A insatisfação com o alto clero do PMDB na Câmara ganhou força nos últimos dias. O movimento é composto pela ala do partido que não apoiou a condução de Dilma Rousseff à Presidência da República. São 35 deputados, de um total de 79. Desses, 20 estão descontentes com o não atendimento de suas reivindicações, ou seja, a não nomeação de seus indicados.

Estaria nessa situação, por exemplo, o deputado Lúcio Vieira Lima (BA), irmão do ex-ministro Geddel Vieira Lima, atual vice-presidente de pessoa jurídica da Caixa Econômica Federal. Ambos haviam indicado um nome para uma diretoria do Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), na Bahia. O cargo, não entanto, não saiu - graças à intervenção do governador da Bahia, o petista Jacques Wagner. Lúcio almejaria também ser líder do governo no Congresso, posto vago com a ida de Mendes Ribeiro (RS) para a Agricultura.

Em situação semelhante estaria a vice-presidente da Câmara, Rose de Freitas (ES). Ela não conseguiu emplacar uma indicação para uma comissão do Ministério do Turismo.

Já José Priante (PA), primo do senador Jader Barbalho (PA), estaria aborrecido com a demora na nomeação de Francisco Carneiro para a superintendência do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), em Santarém (PA). Priante pode abandonar a turma dos insatisfeitos em breve. Anteontem, a nomeação de seu pupilo foi publicada no Diário Oficial.

Líder. Essas críticas recaem, sobretudo, sobre o líder do PMDB na Câmara, Henrique Eduardo Alves (RN). “O clima é de insatisfação, não de revolta”, afirma o deputado Danilo Forte (CE), espécie de porta-voz dos lamuriosos. Antes dessa legislatura, Forte comandou, entre 2003 e 2007, a Fundação Nacional de Saúde (Funasa). O então ministro da Saúde, José Gomes Temporão, criticou sua gestão, mas o peemedebista, hoje insatisfeito, foi defendido com veemência pela cúpula de seu partido. Aqui

Por Reinaldo Azevedo

Sarney usa helicóptero do MA em viagem particular

Por FeliPe Seligman e João Carlos Magalhães, na Folha:
O presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), usou um helicóptero da Polícia Militar do Maranhão para passear em sua ilha particular duas vezes neste ano.  A aeronave foi adquirida no ano passado para combater o crime e socorrer emergências médicas. Foi paga com recursos do governo estadual e do Ministério da Justiça e custou R$ 16,5 milhões.  Numa das viagens até a ilha de Curupu, onde tem uma casa, o senador foi acompanhado de um empresário que tem contratos milionários no Maranhão, que é governado por sua filha Roseana Sarney (PMDB).

No fim do passeio, o desembarque das bagagens de Sarney atrasou o atendimento de um homem com traumatismo craniano e clavícula quebrada que fora socorrido pela PM e chegara em outro helicóptero antes de Sarney.  Um cinegrafista amador registrou imagens que mostram Sarney e seus amigos desembarcando no heliponto da Polícia Militar em São Luís em dois domingos, 26 de junho e 10 de julho. A Folha obteve cópias dos vídeos.  Em nota de sua assessoria, o senador disse que tem “direito a transporte de representação em todo o território nacional” e afirmou ter viajado no helicóptero a convite da “governadora do Estado”.

Políticos que usam bens públicos em “obra ou serviço particular” podem ser punidos com a perda da função e suspensão de direitos políticos, conforme a Lei de Improbidade Administrativa. Uma lei estadual de 1993 proíbe “a utilização de veículos oficiais em caráter pessoal” no Maranhão, mas não deixa claro se a restrição pode ser aplicada aos helicópteros da polícia.  Ao discursar na entrega da aeronave em 2010, a governadora Roseana disse que a aquisição era “uma demonstração [de] que estamos investindo em uma polícia moderna, [...] afastando de vez a bandidagem” do Maranhão.


A gravação feita no dia 10 de julho mostra Sarney e sua mulher, Marly, saindo da aeronave. O senador usa roupas claras e uma boina.  Os primeiros a desembarcar foram o empresário Henry Duailibe Filho e sua mulher, Cláudia. Primo do marido de Roseana, Jorge Murad, Duailibe é dono de uma construtora e de concessionárias de automóveis que têm contratos de pelo menos R$ 70 milhões com o Estado. Os vídeos obtidos pela Folha não têm cortes, mas as imagens são pouco nítidas em alguns momentos, porque foram captadas por uma câmera amadora a mais de 500 metros de distância. Mesmo assim, é possível ver com clareza a saída dos passageiros e os funcionários da base da PM descarregando a bagagem depois. Aqui

Por Reinaldo Azevedo
Deputado dá R$ 560 mil a firma-fantasma

Por Elvira Lobato, na Folha:
O deputado federal José Vieira (PR-MA) repassou R$ 560 mil da verba de custeio de atividade parlamentar a uma empresa-fantasma. Durante dois anos, Vieira, que tem avião próprio, simulou despesas com afretamento de aeronaves para seus deslocamentos no Maranhão. Os pagamentos foram feitos à Discovery Transporte e Logística, uma suposta empresa de táxi aéreo, que só existe no papel. A Discovery não possui avião, nem sede, nem funcionários. O endereço que consta como sede da empresa na Receita Federal é uma residência em um conjunto habitacional simples, em São José do Ribamar, na região metropolitana de São Luís.

A empresa foi registrada em nome de um piloto que prestava serviços ao deputado em Bacabal, cidade maranhense da qual Vieira já foi prefeito. O piloto, José Joaquim Nina, morreu no início do ano, mas já não pilotava havia muito tempo. Mesmo depois da morte dele, os pagamentos à empresa continuaram.

SEM REGISTRO
A Discovery é conhecida das empresas de táxi aéreo regulares do Maranhão como empresa de fachada que vende notas fiscais. No aeroporto de São Luís, a Infraero informou que a Discovery não faz voos. Ela também não tem registro na Anac (Agência Nacional de Avião Civil) como empresa de táxi aéreo. Já o deputado possui um avião Sêneca modelo 34-220T, no valor de R$ 607 mil, conforme consta na declaração de bens que ele apresentou à Justiça Eleitoral no ano passado. O principal item de despesa do deputado pago com a cota parlamentar é a contratação do suposto serviço da Discovery. Os gastos começaram a ser lançados em julho de 2009. Em alguns meses, foram mais de R$ 60 mil. Neste ano, a Câmara pagou R$ 83 mil de notas da Discovery. A cota parlamentar para os deputados federais do Maranhão é de R$ 31.637 por mês. A verba é para cobrir gastos com alimentação, hospedagem, passagens aéreas, combustível, afretamento de avião e outras despesas. O único item da cota que tem limite de gasto é o combustível (R$ 4.500 por mês). Aqui

Por Reinaldo Azevedo
A queda de Kadafi e o mundo que nos espera

Muamar kadafi já era! Os rebeldes tomaram Trípoli, o bastião de resistência do tirano. Consta que dois de seus filhos foram presos: Mohammed Kadhafi e Saif Al-Islam, que funcionava como uma espécie de porta-voz do regime e parecia empenhado em dar um ar civilizado ao pai. O que será da Líbia?

A queda de um déspota asqueroso como Kadafi é, em si, uma boa notícia. Posto o fato no conjunto da obra, aí é preciso aguardar. Os ditos rebeldes não são exatamente paladinos da justiça e da liberdade. E há evidências disso. O regime que se seguirá ao de kadafi será mesmo democrático? A democracia é um “valor universal” para os… democratas! Mais: é preciso que haja democratas para que exista democracia. Não é um bem imaterial, só um norte ético, que os homens de bem buscam alcançar. Trata-se de um modelo de governo, que não se subordina, por exemplo, a uma religião. Quantos querem democracia na Líbia?

Não foram os ditos “rebeldes” que derrubaram Kadafi, mas a Otan — na verdade, Estados Unidos e Inglaterra. A aplicação da tal resolução da ONU, que aprovou apenas a proteção aos civis, foi violada de maneira clara, insofismável. A Otan se meteu numa guerra civil, sem a autorização de ninguém, e escolheu um dos lados. Bombardeou de modo sistemático posições de Kadafi para permitir o avanço de seus adversários.

Os governos da Tunísia e do Egito — e logo acontecerá o mesmo com o Iêmen, quem sabe com a Síria — caíram no enfrentamento com os seus adversários internos, sem uma intervenção estrangeira. Na Líbia, como se viu, foi diferente. Sem os EUA e a Inglaterra — e a Otan —, é bem possível que Kadafi tivesse vencido. Isso impõe às potências ocidentais uma obrigação: zelar pela qualidade democrática do futuro governo. Eu me permito ser um tanto cético.

A Líbia de Kadafi foi, durante muitos anos, um celeiro de terroristas — aliás, era governado por um. Aí o homem se engraçou com o Ocidente, declarou inimigos os jihadistas e passou a colaborar efetivamente com o combate ao terrorismo, tanto que recebeu o afago dos governos dos EUA e da Grã-Bretanha. O jihadismo se alinhou com os rebeldes. Alguns de seus soldados são veteranos ainda da guerra do Afeganistão contra a… União Soviética! Quem dará o tom do novo governo? É uma tolice imaginar que toda a sociedade líbia repudia Kadaf.

Parece que eu estou pouco animado? A questão, é evidente!, não é essa. Quero mais é que o tirano arda no mármore do inferno. Mas é preciso que fiquemos atentos ao governo que lá vai se instalar e a seus valores. Democracia, já disse, não cai do céu. EUA e Grã-Bretanha se fizeram promotores e guardiões do “novo regime” líbio. Se o Egito, a Tunísia e outros países que enfrentam revoltas nas ruas optarem por formas veladas de ditadura, a Otan não tem mesmo nada com isso. No caso da Líbia, terá de demonstrar que não abriu fogo contra o governo do país para entronizar novos facínoras.

Egito
As coisas são mais complexas do que faz crer, por exemplo, um Barack Obama, grande expoente da simplificação. O atentado a Israel evidenciou um fruto indesejado, mas absolutamente previsível, da desconstituição do governo daquele país. Os terroristas saíram de Faixa de Gaza e chegaram ao Sul do Israel passando por território egípcio. E não foram contidos. Três soldados do Egito morreram na resposta israelense, o que já inflamou os ânimos. Dá-se como certo que, qualquer que seja o governo que se instale no país, ele certamente será mais anti-Israel do que a ditadura de Mubarak. Parte do território iemenita é hoje controlada por forças ligadas à Al Qaeda. A Irmandade Muçulmana mobiliza milhares que hoje pedem a renúncia de Bashar Al Assad na Síria.

Se é um primado moral e ético censurar a ação de déspotas sanguinários como Mubarak, Kadafi e Bashar Al Assad, não dá para fazer de conta que forças democráticas despertaram de seu longo sono para depor governos tiranos, dispostas a morrer — no caso da Líbia, da Síria e do Iêmen, dispostas também a matar. Infelizmente, as coisas não se dão dessa maneira. Alguém as mobiliza e com um propósito. O Egito já emitiu um péssimo sinal. Ainda que se venha a constituir um núcleo de governabilidade pautado pela democracia — as coisas andam confusas por lá —, esse governo certamente não tratará os terroristas a ferro e fogo, como fazia Mubarak; essa era a única face positiva do seu regime, o que valia também para Kadafi, ao menos o dos últimos anos.

Eu gostaria de estar mais otimista, mas não estou, não. Há algo de profundamente errado quando se afirma que a “Primavera Árabe” contribui para aumentar os riscos de Israel. Que diabo de “primavera” é essa que expõe ainda mais ao perigo uma nação democrática e contribui para elevar a tensão no Oriente Médio? Às vezes, sinto um tanto de “inverno da razão” nessa euforia, o que não quer dizer que aqueles tiranos sejam menos moralmente miseráveis do que são. Aplaudo o fim de Mubarak, de Kadafi e, quem sabe, de Bashar Al Assad… E só. Ainda não dá para saudar uma nova aurora.

Por Reinaldo Azevedo

A história fora da gaiola mental

A VEJA desta semana traz uma entrevista que fiz com o sociólogo Demétrio Magnoli sobre seu mais recente livro, escrito em parceria com a historiadora Elaine Senise Barbosa. Reproduzo um trecho. Leia a íntegra na revista.
*
Acaba de chegar às livrarias o volume l de “Liberdade Versus Igualdade”, com o subtítulo “O Mundo em Desordem, 1914-1945″ (Record; 458 páginas; 46,90 reais), escrito pelo sociólogo Demétrio Magnoli e pela historiadora Elaine Senise Barbosa. O volume 2 - “O Leviatã Desafiado, 1945-2001″ - sai no ano que vem. Trata-se de um compêndio de história como qualquer outro, mas diferente de todos os outros. Os autores leram episódios e conflitos importantes da primeira metade do século XX através da lente do confronto entre o discurso da igualdade, que marcou o socialismo e o fascismo, e o da liberdade individual, base do liberalismo. É um trabalho rigoroso, que liberta os fatos da gaiola mental dos manuais submarxistas que costumam orientar a historiografia, sem se perder, enfatize-se, no proselitismo. Entre suas muitas qualidades, está a preocupação com o leitor. O livro será útil a estudantes, professores e a quantos queiram saber mais sobre o mundo. Com liberdade. Segue uma conversa com Magnoli

Dá-se por certo que a luta por igualdade tem raiz na esquerda.
Sim. O termo “direita” foi envenenado pelos fascismos e pelo nazismo, que eram anticomunistas, mas. também, visceralmente antiliberais. O “partido dos liberais” conduziu as revoluções antimonárquicas de 1848 na Europa. Os “pais” da economia neoclássica - os austríacos liberais Mises. Hayek e Schumpeter - experimentaram a tragédia que se abateu sobre o seu país no período entre guerras: um governo socialista em Viena, o golpe reacionário de 1934, a invasão nazista subsequente, que os forçou ao exílio. Extraíram a convicção de que as liberdades só poderiam ser salvas se a economia ficasse fora do alcance do estado. Eis o pilar doutrinário da direita liberal.

O livro mostra a aversão que os socialistas tinham à democracia, repulsa compartilhada petos vários fascismos. O que explica a sobrevivência ideológica do socialismo, ainda que como promessa de um passado derrotado?
Na Revolução Russa, o socialismo se dividiu em correntes conflitantes. A social-democracia rompeu com os comunistas precisamente em torno do tema da liberdade. Dessa ruptura nasceram os atuais partidos social-democratas, que tentam conciliar o programa da igualdade com o da liberdade. O socialismo soviético sofreu uma derrota fragorosa, definitiva, em 1989. Mas uma entranhada rejeição à liberdade sobrevive em franjas da esquerda, assim como na extrema-direita ultranacionalista. O traço que os une é a aversão ao individualismo e ao cosmopolitismo.

Por Reinaldo Azevedo


Tags:
Fonte:
Blog Reinaldo Azevedo

0 comentário