O previsível déficit mundial de café

Publicado em 28/05/2014 16:47 e atualizado em 29/05/2014 18:11 1141 exibições

Diante das altas volatilidades dos últimos 60 dias, aproximadamente 40 centavos de dolar por libra, que correspondem a US$ 53,00 por saca, é necessário relembrarmos o que ocorria nos cenários do mercado de café antes da anomalia climática ocorrida no primeiro trimestre de 2014.

Podemos considerar, sendo conservadores e otimistas, que em Janeiro deste ano o potencial produtivo da safra brasileira de café para 2014, era de 54 milhões de sacas, sendo 37 milhões de sacas de cafés arábicos e 17 milhões de sacas de conilon, não se esquecendo que esta safra é “ON”, isto é, apesar de que o evento da bienalidade haver se reduzido, este é um ano de safra cheia brasileira. Relembrando das previsões na primeira quinzena de Janeiro 2014, segue abaixo alguns reportes do início do ano:

Volcafé
Jan. 6 - “Nós encontramos evidências no campo que nos encorajam a estimar um volume de 51 milhões de sacas para a safra 2014/15, com 35 milhões de sacas de arábica e 16 milhões de sacas de conilon”.  

Citigroup
Jan.6 (Bloomberg) - “A produção no Brasil, o maior produtor mundial, deverá alcançar entre 52,6 milhões e 53,2 milhões de sacas em 2014, sendo que a primeira estimativa apontava para 58,5 milhões de sacas, de acordo com Sterling Smith, especialista em mercados futures do Citigroup Inc”.   

Terra Forte
Jan.8 – "Nosso número final para a estimativa é 53,7 milhões de sacas, porém, com um vies negativo. Uma média de 52 a 54 milhões de sacas é mais segura no momento. O volume de arábicas deverá ser de 36,250 milhões e de conilon de 17,440 milhões de sacas".    

O que ocorreu depois, isto é, após a primeira quinzena de janeiro de 2014?

Uma extrema anomalia climática, com uma longuíssima estiagem, altíssimas temperaturas e intensa radiação solar sobre o parque cafeeiro brasileiro de cafés arábicas, uma anomalia jamais imaginada e nunca vista.

Esta anomalia acima descrita, mas com uma intensidade muito menor é chamada de veranico, que , quando e aonde ocorreu o veranico, trouxe quebras aproximadas de 10% sobre a produção.

Voltando ao início de janeiro, sabíamos que os tratos culturais já eram deficitários devido ao baixo preço do café, pois o arábica estava sendo vendido abaixo do custo de produção.

Sendo assim, quais eram as perspectivas de produção para a safra de 2015?

No parque produtivo de cafés arábicas, sendo 2015 um ano de safra “OFF”, isto é, de menor produção, aliado a piores tratos culturais devido aos preços baixos, poderíamos estimar que a produção para a safra de cafés arábicas em 2015 seria menor que a de 2014, assim sendo uma produção de 34 milhões de sacas seria próxima a uma realidade. Para os conilons, dadas as condições econômicas e fisiológicas das plantas, devido também a uma pequena bienalidade poderíamos esperar um leve declínio em relação à safra de 2014, sendo assim, poderíamos projetar 16 milhões de sacas para a safra de 2015, então o total potencial produtivo brasileiro seria na ordem de 50 milhões de sacas de café.

Partindo destas premissas, qual a real dimensão na produtividade devido a esta extrema anomalia climática ocorrida entre janeiro e março de 2014?

Safra de 2014: tendo como base o artigo do Prof. Rena publicado em Março de 2014, uma perda de 22% de produção nos cafés arábicos não irrigados é perfeitamente plausível, no montante de 7,04 milhões de sacas, assim sendo, a previsão de safra para 2014, chega-se em 29,96 milhões de sacas de cafés arábicas e 17 milhões de sacas de conilons, perfazendo um total de 46,96 milhões de sacas . 

Safra de 2015: O menor crescimento vegetativo registrado até o momento, devido à perversa anomalia climática no primeiro trimestre de 2014, na fase mais importante de vegetação, juntamente aos menores tratos culturais devido a questões econômicas e a impossibilidade de fazê-los durante o período da estiagem, uma quebra de 25% no potencial produtivo de cafés arábicos de sequeiro, num total de 7,25 milhões de sacas é realista e conservadora dentro dos fatos apresentados, vejam que o crescimento vegetativo é muito aquém destes 25% estimados para a quebra. 

Importante salientar que neste ano de 2014 teremos um expressivo esqueletamento nos cafezais adultos, pois como mencionado, o crescimento vegetativo é pífio em muitíssimas lavouras.

Inclusive, os cafés jovens (lavouras até 3 anos), o crescimento vegetativo foi menor ainda, assim este contingente de lavouras novas não terão potencial produtivo satisfatórios.

Não houve nenhuma mágica ou milagre que fará reverter este quadro, pois a futura florada já está definida nos cafeeiros. A arte de produzir café é a arte de produzir ramas vegetativas.

Até o presente momento, em importantes regiões cafeeiras, as chuvas acumuladas desde setembro de 2013 são muito abaixo das médias históricas, como estará o déficit hídrico no solo em setembro de 2014? Pois dependemos desta variável para o bom pagamento da florada e futura produção de café. 

As lavouras de cafés arábicas que já foram colhidas nesta época do ano encontram-se em estado bastante deplorável (sofridas) para a época.  

Assim, estes 25% estimados para a quebra é bastante conservador, então, poderemos estimar otimistamente, que a produção de cafés arábicas para a safra de 2015 tem o potencial de produção em 26,75 milhões de sacas, e, se somarmos os 16 milhões de sacas de conilons, obteremos um total de 42,75 milhões de sacas de café.

Estimativas

Milhões de sacas

     

Biênio

Perdas

 

   

2014

2015

2014 + 2015

 

Janeiro de 2014

Total

arábica + conilon

54

50

104

 
 

Total

conilons

17

16

33

 
 

Total

arábicas

37

34

71

 
             
 

arábicas

irrigado

5

5

   
 

arábicas

sequeiro

32

29

   

Anomalia

climática

 

quebra

-22%

-25%

   
 

perda

-7,04

-7,25

 

-14,29

 

arábicas

sequeiro

24,96

21,75

   
 

arábicas

irrigado

5

5

   
             

Maio de 2014

Total

arábicas

29,96

26,75

56,71

-20,13%

 

Total

conilons

17

16

33

 

 

Total

arábica + conilon

46,96

42,75

89,71

-13,74%

 

O condão deste artigo não é estatístico, e nem tampouco uma precisão de acertos numéricos, é apenas uma reflexão de matemática.

 

Então, previsível é o déficit no suprimento de cafés para o mercado consumidor mundial, que se encontra extremamente frágil, pois nos próximos 24 meses o consumo de café mundial será na ordem de 295 milhões de sacas, e, a produção brasileira será próximo a 89,71 milhões de sacas, e, os outros países produtores não têm a capacidade de suprir este déficit, assim sendo, será necessário o uso dos estoques mundiais para atender a demanda mundial.

Oxalá não tenhamos nenhum outro problema climático nos países produtores de cafés, pois necessitamos que as condições climáticas mundiais sejam extremamente favoráveis a produção de café, pois os estoques podem não ser suficientes para atender a demanda.

Abaixo gráfico de preços iniciando em 1973 até 28 de MAIO de 2014.

Grafico_cafe_artigo_Marco_Jacob

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Fonte:
Marco Antonio Jacob

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