Ibovespa fecha em queda pressionado por Vale e pacote econômico no radar

SÃO PAULO (Reuters) - O Ibovespa fechou em queda nesta terça-feira, após três sessões com sinal positivo, pressionado particularmente pelo recuo das ações da Vale, com agentes financeiros também cautelosos após o governo adiar o anúncio de pacote econômico.
Índice de referência do mercado acionário brasileiro, o Ibovespa <.BVSP> caiu 0,42%, a 101.864,05 pontos, de acordo com dados preliminares. O volume financeiro da sessão somava 21,6 bilhões de reais.
Bolsa fecha em leve baixa de 0,18%, com foco na situação fiscal

Em Nova York esta terça-feira foi mista e de variações também contidas, com o Dow Jones em baixa de 0,21% no fechamento, refletindo a proximidade da retirada da Exxon Mobil do índice, a partir de segunda-feira, enquanto S&P 500 apontava alta de 0,36% e o Nasdaq, de 0,76%, ambos em novas máximas históricas de encerramento, em dia de fraca leitura sobre a confiança do consumidor americano, do Conference Board.
Aqui, o mercado tomou nota do adiamento do anúncio do programa Renda Brasil, o que foi visto de forma até positiva, na medida em que parece indicar que a equipe econômica permanece comprometida em entregar um valor mensal minimamente sustentável para as contas públicas. "Está todo mundo de olho no Renda Brasil e, a depender do valor que terá, o efeito sobre as contas públicas, sobre o Orçamento de 2021. O Guedes está nesta situação complicada, de prover recursos a partir de remanejamentos, porque não há espaço para mais impostos, o Congresso não aceitaria, nem a sociedade", diz Luiz Roberto Monteiro, operador da mesa institucional da Renascença. "A rota de Guedes e Bolsonaro tem sentidos opostos, um pensando no fiscal e o outro nos votos que conseguirá, especialmente no Norte e Nordeste, com um auxílio superior ao Bolsa Família", acrescenta.
Neste contexto de incerteza, o Ibovespa tem se mantido ao longo da maior parte do mês em faixa curta, sem fôlego para se desvencilhar da estreita margem de 101 a 102 mil pontos que tem prevalecido nos fechamentos desde o último dia 11, quando o impasse nas negociações sobre novos estímulos nos EUA e as preocupações em torno da situação fiscal no Brasil se impuseram como fatores de cautela, interrompendo a progressão do índice.
"Os últimos dois dias foram até favoráveis no exterior, mas a expectativa pelo pacote do Guedes está contribuindo para segurar o Ibovespa, com os receios sobre a situação fiscal. Hoje, tivemos padrão semelhante ao de ontem: no começo da sessão, o Ibovespa buscou testar a região de 102,5 mil pontos, ontem nos primeiros 15 minutos, hoje na meia hora inicial", observa Rodrigo Barreto, analista gráfico da Necton. "Se passar para cima, tenderia a abrir caminho para que o Ibovespa busque os 103 mil pontos e, depois, resistência aos 104,4 mil pontos", acrescenta o analista. No lado oposto, ele observa suporte a 100,3 mil que, uma vez perdido, levaria o índice de volta à faixa de 99 mil pontos.
O fraco desempenho das ações de bancos em 2020 continua a limitar ganhos adicionais do índice, apontam analistas: no ano, as perdas acumuladas nas ações das grandes instituições do setor, o de maior peso no índice, estão agora entre 32,41% (Itaú) e 38,16% (Santander).
Nesta terça-feira, Itaú Unibanco PN fechou em baixa de 0,74% e a Unit do Santander, de 0,72%. Na ponta negativa do Ibovespa, destaque para Braskem (-3,51%), seguida por Cielo (-3,38%) e JBS (-3,02%). No lado oposto, Lojas Renner subiu 4,29%, Rumo, 3,48%, e Hering, 3,17%. Entre as commodities, destaque para queda de 2,13% em Vale ON, em dia no qual o preço do minério em Qingdao (China) caiu 1,79%, em meio à recuperação gradual da oferta. Petrobras teve quedas menores na sessão, de 0,44% na PN e de 0,47% na ON.
Juros fecham em alta com preocupações sobre quadro fiscal

Os juros diminuíram a alta à tarde, depois que o dólar passou a cair, mas não a ponto de reduzirem a inclinação da curva, que continuou mais elevada em função dos riscos fiscais. O adiamento do anúncio do Plano Renda Brasil em função de divergências na definição dos valores do benefício do programa manteve o desconforto no mercado, que passou a pedir mais prêmio para ficar exposto em ativos prefixados. O alívio no segmento de câmbio foi acentuado na sessão vespertina, mas chegou apenas em parte nas taxas futuras. Um dos destaques da agenda, o IPCA-15 de agosto, veio alinhado à mediana das estimativas, com impacto neutro nas taxas, tampouco alterando o consenso de apostas em manutenção da Selic em 2%.
A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2022 terminou praticamente estável, em 2,75%, de 2,742% no ajuste anterior, e a do DI para janeiro de 2023 fechou em 3,93%, de 3,883% na segunda-feira. O DI para janeiro de 2025 encerrou com taxa de 5,75%, de 5,714% na segunda, e o DI para janeiro de 2027 fechou com taxa em 6,76%, de 6,733%.
Após encerrar a manhã em alta, o dólar passou a cair à tarde, com mínimas até R$ 5,51, trazendo alívio limitado para a curva, até porque a melhora do câmbio decorreu de um fator técnico (fluxo de vendas atraído pelas cotações elevadas) e não de fundamentos.
O "fico" de Paulo Guedes e a vitória do governo na manutenção do veto ao reajuste do funcionalismo pelo Congresso haviam dado um alento aos mercados na semana passada, elevando a expectativa para o amplo pacote econômico que seria lançado nesta data - houve anúncio apenas do programa Casa Verde e Amarela, que vai substituir o Minha Casa Minha Vida, nesta terça-feira.
Na segunda, porém, o adiamento da divulgação já prenunciava que algo não ia bem, o que se confirmou com as informações de que o presidente Jair Bolsonaro defendeu um valor maior (R$ 300), do que os R$ 247 proposto pela equipe econômica para o Renda Brasil, que vai entrar no lugar do Bolsa Família. Guedes disse que para isso só com redução nas deduções do Imposto de Renda.
Para o economista-chefe da SulAmérica Investimentos, Newton Camargo Rosa, a abertura das taxas reflete a percepção de clara falta de coordenação dentro do governo sobre as medidas a serem adotadas e a quais custos e, ainda, as chances de aprovação pelo Congresso. "A equipe econômica tenta mostrar que o cobertor é curto, mas o presidente avalia a questão com outros olhos, os dos votos, e a curva acaba abrindo mais em função dessa desconfiança", disse.
Nesse contexto, dado ainda o destaque que o próprio BC vem dando para o papel que a política fiscal passou a ter na condução da política monetária, a curva projeta chance zero de novos cortes da Selic.
O IPCA-15 de agosto subiu 0,23%, menos do que em julho (0,30%), e coincidiu com a mediana das estimativas. Os núcleos avançaram, mas ainda são considerados bem comportados, permitindo imaginar que a taxa de juros siga em níveis estimulativos nos próximos meses.
0 comentário
Ações de Hong Kong se recuperam após decisão da Suprema Corte dos EUA sobre tarifas
Brasil e Coreia do Sul concordam em ampliar cooperação em minerais e comércio
UE diz que não aceitará nenhum aumento nas tarifas dos EUA após decisão da Suprema Corte: “acordo é acordo”
Índia adia negociações comerciais com os EUA após Suprema Corte rejeitar tarifas de Trump, diz fonte
Chefe do comércio dos EUA afirma que nenhum país disse que irá se retirar dos acordos tarifários
Alckmin diz que nova tarifa de 10% anunciada por Trump não afeta competitividade do Brasil