Soja: Batalha dólar x yuan pesa mais sobre os preços em 2017

Publicado em 06/01/2017 17:09 e atualizado em 08/01/2017 13:27
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Na conta da formação dos preços da soja em 2017, a disputa cambial entre China e Estados Unidos deverá ocupar mais espaço entre os negócios e chamar mais a atenção dos players nas próximas semanas. O ano começou com o yuan forte e registrando seu mais elevado patamar frente ao dólar em um ano. E apesar de algum recuo nesta sexta-feira (6), em dois dias, no início da semana, a alta do yuan foi de 2,5% frente ao dólar. 

Analistas ouvidos pela publicação chinesa China Daily afirmam esperar um movimento de novas altas da moeda da nação asiática frente à americana ou apenas um ligeiro recuo na medida em que os fundamentos da economia local sigam melhorando. 

A expectativa de especialistas é de que este ano a China irá mais do que redobrar os esforços para proteger sua moeda. A analista da Guoyuan Securities, Zheng Min, explica que boa parte da influência neste movimento do yuan se dá também pelo acompanhamento das mudanças nos reguladores monetários. "O banco central disse, repetidamente, que irá manter o yuan estável e que sua recente regulação do câmbio e do fluxo de capitais já começou a funcionar", explicou em nota, a executiva. 

Em contrapartida, a projeção é de que esse seja um ano de força para o dólar também, acentuada pela chegada de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos, que toma posse no próximo dia 20. "Ainda assim, a depreciação do yuan seria fraca frente ao dólar", diz a analista da Guoyuan. Se tudo o empresário diz será efetivamente cumprido, não se sabe. Afinal, a relação comercial EUA-China é uma das das mais importantes do mundo, se não a mais. 

A expectativa é de que com a promessa de estímulo à economia americana de US$ 1 trilhão feita por Trump sendo cumprida, o Federal Reserve deve continuar subindo a taxa de juros do país agora em 2017. Segundo especialistas ouvidos pela Bloomberg, na medida em que essa medida for se confirmando, a economia chinesa poderia sentir alguns efeitos positivos. Além disso, pode estimular ainda uma alta dos juros também pelo Banco Popular da China. 

Ao mesmo tempo, há ainda o futuro do primeiro ministro chinês Li Keqiang também incerto este ano. A expectativa era de que o premier se mantivesse no cargo para um segundo mandato de cinco anos, conservando sua parceria com o presidente Xi Jinping até 2022, porém, agora já há rumores de que ele poderia ser substituído, ameançando as reformas de abertura de mercado defendidas por ele, além das revisões das empresas estatais. Assim, a perspectiva é de que, caso ele de fato deixe o cargo, a postura de maior centralização defendida pelo presidente Xi prevaleça. 

Como essa relação e o andamento de ambas as moedas vai impactar na demanda chinesa por soja norte-americana é ainda uma das grandes dúvidas do mercado para este ano. A moeda local fortalecida estimula as importações chinesas, a qual, no entanto, vai enfrentar a divisa de uma de suas principais origens de soja também forte. A expectativa agora será, portanto, quanto dessa demanda deverá se voltar com origens mais baratas na América do Sul. 

"Este é apenas um dos fatores. Se for somente este, o mercado resolverá. O duro é se começar uma guerra comercial com a interferência de governos nos mercados e de forma muito acentuada, com cotizações, tarifas, barreiras", explica Camilo Motter, analistas e economista da Granoeste Corretora de Cereais. "O jogo da moeda é o mercado. Claro que o câmbio também pode sofrer interferências acentuadas, sobretudo em se tratando da China, mas em oscilações aceitáveis, como as que estamos vivendo hoje", completa. 

Vendas Semanais Americanas

Nesta sexta-feira, o USDA (Deparatamento de Agricultura dos Estados Unidos) trouxe seu novo boletim semanal de vendas para exportação e os números da soja voltaram a surpreender o mercado. No entanto, dessa vez o impacto foi bastante negativo, já que na semana encerrada em 29 de dezembro, as vendas somaram apenas 87,7 mil toneladas da oleaginosa. Foram 87,7 mil da safra 2016/17 e mais 200 da 2017/18. 

O volume ficou bem abaixo das expectativas, que variavam de 800 mil a 1,2 milhão de toneladas, além de apresentar um recuo de 91% em relação à semana anterior e registrar a mínima em um ano. E a China continua sendo o principal destino da oleaginosa norte-americana. Ainda assim, o total já comprometido pelos EUA nesta temporada continua superando o ano anterior, com 47.972,7 milhões de toneladas e expectativa de que as exportações totalizem 55,79 milhões de toneladas. 

O mercado já esperava por uma redução no ritmo das vendas norte-americanas neste início de ano em função das compras fortes nos últimos meses por parte dos importadores e de uma demanda começando a migrar para a América do Sul, e de forma cada vez mais efetiva na medida em que a oferta brasileira já começa a chegar aos armazéns. Assim, o volume baixo do resultado final e as trocas de contratos (ou movimentos de washouts) que vieram reportados pesaram diretamente sobre as cotações. 

Dessa forma, e já se ajustando às últimas informações sobre o clima na América do Sul - onde as lavouras estão em fases decisivas - e também às especulações sobre dois reportes do USDA que chegam este mês, o mercado da soja fechou a sessão desta sexta-feira com perdas expressivas. Os contratos mais negociados encerraram os negócios com perdas de 14,50 a 17,75 pontos. O janeiro/17 foi a US$ 9,86 e o maio/17, referência para a safra brasileira, a US$ 10,03 por bushel. 

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Mercado Brasileiro

A despencada em Chicago resultou em baixas expressivas nos preços da soja também no mercado brasileiro. No disponível, as baixas nas principais praças de comercialização ficaram entre 0,78% e 3,45%, levando os preços em Tangará da Serra e Campo Novo do Parecis, em Mato Grosso, por exemplo, a R$ 56,00 por saca. 

As perdas foram inevitáveis, apesar do fechamento positivo do dólar frente ao real. A moeda americana encerrou o dia valendo R$ 3,2218 e com ganho de 0,74%, deixando para trás uma sequência de seis sessões consecutivas de perdas, segundo informou a Reuters. 

"O fundamento prevaleceu dado o avanço do salário (nos Estados Unidos) e fortaleceu a postura de dezembro do Fed", afirmou o operador corretora H.Commcor DTVM, Cleber Alessie Machado em entrevista à agência de notícias. 

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Nos portos, os preços da soja também cederam. No terminal de Paranaguá, as referências no disponível e no mercado futuro ficaram, ambas, em R$ 73,00 por saca e com queda de 2,67%. Em Rio Grande, baixa 0,53% no disponível e de 1,28% para a safra nova, com valores finais de R$ 75,00 e R$ 77,00 por saca. 

E veja ainda as cotações completas da soja nesta sexta-feira:

>> MERCADO DA SOJA

Com informações do China Daily e The Wall Street Journal.

Na FOLHA: Banco aponta tendência de real se valorizar mais, apesar de Trump

Depois de ter subido quase 18% em relação ao dólar em 2016, com o melhor desempenho mundial, o real tem boas chances de continuar se valorizando em 2017, na avaliação do Goldman Sachs.

A perspectiva é otimista não só para a moeda brasileira como para as dos outros países que compõem o grupo emergente Brics, com exceção da China, ou seja, Rússia, Índia e África do Sul.

Segundo o banco, o real, o rublo, a rupia e o rand devem prosseguir com o "rally" visto em dezembro. Essas moedas ficaram entre as que tiveram os melhores retornos no mês passado, depois da desvalorização generalizada em novembro por causa da inesperada vitória de Donald Trump para a Presidência dos Estados Unidos.

O real avançou 4% em dezembro ante o dólar e iniciou a primeira semana de 2017 com ganho de 1%. A moeda americana está cotada agora na casa dos R$ 3,22.

Em novembro, a moeda brasileira havia se desvalorizado 6,6%. No dia da eleição, antes da divulgação do resultado, o dólar fechou a R$ 3,27. Em 1º de dezembro, a moeda chegou a R$ 3,47.

A tendência de que os preços das commodities, como o petróleo, continuem se recuperando é um dos fatores que devem impulsionar as moedas desses emergentes.

"Incluímos essas moedas nas recomendações de investimento para 2017, pois esse grupo está indo bem no caminho de recuperar os níveis anteriores a 8 de novembro, dia da eleição presidencial americana, mesmo que o dólar continue a se fortalecer diante da maioria", diz o Goldman, em relatório.

O dólar tem subido contra boa parte das moedas por causa de expectativas de aceleração da economia dos EUA durante a gestão de Trump, que toma posse no dia 20.

Espera-se que o republicano aumente os gastos públicos e corte impostos, o que deverá elevar mais rapidamente a inflação e, consequentemente, os juros daquele país. Dessa forma, a migração de recursos de outros países para investimentos na maior economia do mundo deve crescer.

O Goldman afirma ainda que Brasil, Rússia, Índia e África do Sul têm como atrativos taxas de juros mais altas, inflação em trajetória declinante e perspectiva de crescimento econômico mais forte à frente, entre outros fatores.

"As moedas desses países também têm exposição limitada aos riscos de comércio com os EUA, se a retórica protecionista do presidente eleito se transformar em ação."

De acordo com o banco, esses países têm menor probabilidade de enfrentar barreiras para exportar aos Estados Unidos, porque não teriam competição direta com o mercado de trabalho americano.

"Enquanto isso, China e outros emergentes asiáticos exportam bens que podem ser considerados como competitivos com a indústria americana e têm mais riscos de sofrer restrições."

EMPREGOS NOS EUA

A sequência de quedas do dólar ante o real em direção a níveis pré-eleição de Trump foi interrompida nesta sexta- (6). Acompanhando o movimento global, o dólar à vista subiu 0,64%, a R$ 3,2212.

O motivo foram os dados do mercado de trabalho americano de dezembro. Apesar de a criação de vagas em relação ao mês anterior ter ficado em 156 mil, abaixo das expectativas, o salário médio por hora subiu 2,9% na comparação anual, maior alta desde junho de 2009.

Além disso, a criação de vagas de novembro foi revisada de 178 mil para 204 mil.

"Os números sugerem que a economia americana segue forte, algo que exigirá um Fed mais agressivo em sua normalização de juros", afirma a equipe de análise da Guide Investimentos.

O Ibovespa fechou em queda de 0,65%, aos 61.665,37 pontos. Na semana, porém, o principal índice da Bolsa registrou valorização de 2,39%.

Também o banco central americano tem dúvidas sobre o governo Trump

(EDITORIAL ECONÔMICO DE O ESTADO DE S. PAULO)

O presidente eleito Donald Trump prometeu reduzir tributos, elevar gastos com infraestrutura e desregulamentar a economia. O resultado provável no curto e no médio prazos é uma aceleração do crescimento econômico, acompanhada de redução do desemprego e, possivelmente, de alguma pressão inflacionária

Era esperada a decisão do Comitê de Política Monetária (Fomc) do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano), que elevou em 0,25 ponto porcentual a taxa básica de juro válida a partir de 15 de dezembro de 2016. Assim, a taxa passou de 0,5% para 0,75% ao ano. A previsão predominante no Fomc é de que haverá novas elevações do juro básico em 2017, que chegaria a 1,5% ao ano.

Mas o que predominou na reunião do Fomc foi o sentimento de incerteza em relação ao novo governo, que tomará posse no próximo dia 20. Faltando pouco para a posse, nem o Fed alimenta certezas sobre o futuro da maior economia do mundo – e esse é o fato mais preocupante.

O presidente eleito Donald Trump prometeu reduzir tributos, elevar gastos com infraestrutura e desregulamentar a economia. O resultado provável no curto e no médio prazos é uma aceleração do crescimento econômico, acompanhada de redução do desemprego e, possivelmente, de alguma pressão inflacionária. É o que justifica a expectativa de juros em alta.

O nível de desemprego já é baixo (de 4,8%, em 2016, deve cair para 4,6%, neste ano, e para 4,5%, em 2018, conforme a média das projeções do Fomc) e o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) americano está em alta, de estimado 1,9% em 2016 para 2,1% em 2017. Trump desejaria aceleração maior do PIB. A questão é o custo fiscal das iniciativas do novo governo. Cerca de metade dos dirigentes do Fed levou em conta a hipótese de “uma política fiscal mais expansionista em suas previsões”.

A comunicação correta dos problemas é outro desafio das autoridades monetárias. A palavra insegurança foi citada dezenas de vezes na Ata do Fed divulgada na quarta-feira passada. A bússola do Fed não parece apontar um rumo seguro.

Para países emergentes, há risco de mais protecionismo e menos investimentos, com juros altos atraindo mais recursos para os EUA. A melhor hipótese para o Brasil é beneficiar-se de crescimento mais rápido nos EUA e no mundo desenvolvido. Segundo o Monitor de Política Econômica Global, do Banco Itaú, a zona do euro e países como Japão e Reino Unido já adotam políticas expansionistas.

Fluxo cambial negativo pode ser episódico

Em dezembro, a conta financeira registrou uma saída líquida de US$ 9,0 bilhões, o que pesou muito no resultado. Como se sabe, ao término de cada ano, muitas empresas multinacionais costumam retornar aplicações às suas matrizes para efeito de balanço. Em boa parte, essa saída foi compensada pelo saldo positivo do fluxo comercial, de US$ 7,92 bilhões, de modo que o resultado negativo do último mês do ano foi de US$ 1,09 bilhão.

Estando o País numa situação cambial confortável, com reservas de mais de US$ 370 bilhões, o fluxo cambial negativo em 2016 é episódico e não causa problemas. A questão é saber se o País voltará a atrair os recursos externos de que necessita para retomar o crescimento.

Verifica-se que o grande volume de saídas está ligado a investimentos financeiros diversos, não a investimentos estrangeiros diretos (IEDs), isto é, o capital que vem para ficar, usado para adquirir participação em empresas nacionais para financiar novos empreendimentos e que tem afluído em volume expressivo. Até novembro, os IEDs somavam US$ 46,8 bilhões e a previsão do Banco Central é de, em todo o ano passado, totalizar US$ 54,2 bilhões.

A expectativa é de que, em 2017, com o Programa de Parcerias de Investimento (PPI), os IEDs venham a crescer bastante, pois é extenso o leque de obras a serem leiloadas. Quanto às aplicações financeiras, o que se observa é que elas começam a retornar, atraídas pelos bons rendimentos internos.

É claro que essas aplicações são voláteis e podem ser influenciadas por decisões futuras sobre os juros americanos, repercussões da política econômica a ser adotada pelo governo de Donald Trump, bem como por problemas políticos internos nacionais. Contudo, não é irrealista prever que, assim que o Brasil sair da recessão e com a continuidade das reformas, a entrada de recursos externos possa aumentar num ambiente mais aberto.(O ESTADO DE S. PAULO)

 

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Por: Carla Mendes
Fonte: Notícias Agrícolas/FOLHA/ESTADÃO

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