MERCADO DO AÇÚCAR: Um pouco mais do mesmo

Publicado em 14/05/2012 07:15 441 exibições
Comentário Semanal – de 07 a 11 de maio de 2012. Por Arnaldo Luiz Corrêa.
A última vez que o mercado de açúcar em NY fechou a semana em alta foi no final de março. De lá para cá, tem sido queda livre. Essa sexta-feira não foi exceção embora o mercado tenha trabalhado praticamente inalterado toda a sessão. Mas acabou fechando a semana com queda de 13 dólares por tonelada no vencimento maio, que encerrou o pregão cotado a 20,22 centavos de dólar por libra-peso, muito próximo da baixa de 20,13 centavos de dólar por libra-peso ocorrida na semana. Os demais meses de vencimento também fecharam com baixa entre 11 e 56 pontos de baixa. Com a desvalorização do real, que chegou a bater 1,9650, o valor médio de liquidação para as usinas baseando-se no dólar futuro negociado via NDF equivale a R$ 41,75 e R$ 46,32 por saca posto usina respectivamente para as safras 2012/2013 e 2013/2014, ou seja, em reais ainda há gordura, se considerarmos o custo de produção estando ao redor de R$ 36,0000.

O cenário macro piora os fundamentos do açúcar que parecem não ter nenhuma importância nessa altura do campeonato. Nada do que venha da parte dos fundamentos parece fazer qualquer diferença, o que vai durar por algum tempo até que se tenha uma ideia mais concreta do que pode ocorrer no Centro Sul do Brasil. O que pode fazer a diferença é como o clima se comporta no Centro Sul e seus eventuais efeitos na safra de cana.

A observação dos fenômenos meteorológicos e seus efeitos na produção de commodities ocorrem desde os tempos de Tales de Mileto, que foi praticamente o primeiro grande filósofo grego conhecido. Tales percebera, 600 anos antes de Cristo, que as condições específicas do tempo – e não os pedidos aos Deuses – contribuíam para uma boa colheita. Foi assim, com o aprimoramento da observação, que ele previu uma grande safra de olivas na região de Mileto e alugou todas as moendas de azeitonas da região, ganhando muito dinheiro depois permitindo a utilização das mesmas devido à crescente demanda. Ou seja, Tales foi o pioneiro na utilização de derivativos há 2.600 anos. E foi pioneiro também em olhar os fenômenos meteorológicos como causa, e não à vontade Divina, das alterações de safra. Hoje, 2600 anos depois, tem gente no mercado que ainda acredita na vontade divina para os preços se recuperarem.

O cenário macro tem dado o tom às commodities enquanto os fundamentos são varridos para debaixo do tapete. Dissemos aqui que 50% da queda do mercado, do final de fevereiro para cá, pode ser atribuída à desvalorização do real, enquanto que 50% são consequências dos fundamentos mais fracos do açúcar. Excedente de açúcar no estoque de passagem brasileiro, menor demanda por parte do mercado internacional, grande entrega na bolsa cuja nomeação de navio está ainda pendente, a Índia exportando mais açúcar, as notícias que os canaviais naqueles pais passam por renovação para o próximo ano apesar do preço da soja ser melhor remunerador, safra maior na Tailândia, ausência da Rússia nas compras, China desacelerando, etecetera. 

Para piorar, no cenário macro, só notícias ruins: um grande banco de investimento nos EUA anuncia um prejuízo de US$ 2 bilhões depois de admitir que as posições que possua no mercado de derivativos de crédito eram mais arriscadas do que pensavam. Com isso, os ativos de riscos sofrem pressão pela liquidação de suas posições, entre eles as commodities. A Europa está em xeque, com a eleição de Hollande que, segundo um analista, é uma espécie de Lula com sotaque francês, e o mercado espera que ele discurse com a esquerda e governe com a direita. Enquanto isso haja pessimismo. Sabe-se lá qual será o tom das conversas na semana do açúcar que se inicia na segunda-feira aqui em NY.

Neste ano, até agora, das commodities agrícolas, o farelo de soja foi a que teve melhor desempenho, valorizando ao longo deste ano 30,5%. Seguem a soja 16,4% e o cacau 9,4%. No lado negativo temos trigo, milho, açúcar, algodão, café e suco de laranja, com quedas que vão de 8.5% para o trigo, 13% para o açúcar até 27,3% para o suco de laranja. Um ano, até aqui, desencorajador para os fundos de commodities.

As apostas são grandes de que teremos não apenas um aumento no preço da gasolina, mas também um aumento no mix de anidro de 20% para 25%.

Fico muito triste ao saber que Jeff Bauml, corretor que está no mercado de açúcar há algumas décadas resolveu estabelecer que dia 31 de maio será seu último dia no mercado de açúcar. Jeff é um dos caras que sempre respeitei desde que estreei no mercado de açúcar em 1994. Faz parte da uma geração de profissionais que sempre colocou a integridade, o respeito, a honestidade e a ética em primeiro lugar. Essas são commodities escassas nos dias de hoje.

O Modelo desenvolvido pela Archer Consulting estima que pelo menos 17,33 milhões de toneladas estejam fixadas para a safra 2012/2013 ao preço médio de 24,34 centavos de dólar por libra-peso. Isso mostra que as fixações nos últimos 30 dias foram pouco mais de 1,14 milhão de toneladas.

Na semana que vem grande parte dos tomadores de decisão estará aqui em NY para o Jantar Anual do Açúcar. Boa viagem para aqueles que estão a caminho e bom final de semana para todos, com bons negócios.
Fonte:
Archer Consulting

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