Setor rural propõe recuperar APPs (entenda as alternativas ao Veta Dilma!!!)

Publicado em 13/05/2012 17:04 e atualizado em 05/09/2013 14:54 1065 exibições
por Ciro Siqueira, do blog www.codigoflorestal.com

Setor rural propõe recuperar APPs

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Os deputados Jerônimo Goergen (PP-RS), Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), e
Moreira Mendes (PSD-RO), durante lançamento da proposta.

Enquanto as ONGs e ambientalistas lutam pelo veto absoluto ao texto de reforma do Código Florestal sem oferecer soluções aos problemas gerados pela aplicação da lei, o setor rural oferece soluções. Deputados ligados ao setor rural apresentaram um projeto de lei com regras para a conciliação entre a necessária recuperação das Áreas de Preservação Permanente em margens de rios e a também necessária produção rural.

Objetivo da proposta é corrigir lacunas do novo Código Florestal, que aguarda sanção da presidente Dilma. A recuperação de APPs foi um dos temas que mais gerou impasse durante a votação do código.

A Câmara analisa o Projeto de Lei 3846/12, do deputado Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), que estabelece critérios para a recuperação de áreas de preservação permanente (APPs).

A proposta autoriza o Poder Público a reduzir os limites de recuperação das APPs se houver interesse econômico, público e social, no caso de atividades agrícolas, silvícolas e de pecuária de leite e mantidas as práticas de conservação de solo e água.

Nascentes

Segundo o projeto, em zonas rurais e urbanas, só poderá ser exigida a recuperação das APPs em áreas de nascente após avaliação de órgão ambiental local. Para exigir essa recuperação, o órgão deverá atestar a regularidade de intermitência da nascente. Essa recuperação não poderá ultrapassar o limite de 30 metros de raio.

O deputado afirma que a exigência de regularidade de intermitência vai dar mais segurança jurídica ao produtor. “Dependendo do regime das chuvas, há o aparecimento de inúmeros pontos de afloramento do lençol freático que, muitas vezes, não voltam a aparecer no mesmo local em anos.”

Irrigação

O projeto prevê licenciamento prévio para a irrigação que afete áreas de preservação permanente. Nesses casos, serão exigidas medidas de compensação. “Em nenhum momento, no texto do Código Florestal, foi citada a possibilidade desta prática [irrigação] que, muitas vezes, exige intervenção em APPs para acesso à água”, lembrou o deputado.

“Caso não haja previsão legal, pode haver o entendimento de que a prática da irrigação foi proibida nos casos de intervenção em APP”, acrescentou Henrique Eduardo Alves.

Metragens

A proposta também trata dos imóveis rurais que possuam áreas consolidadas em APPs ao longo de cursos d’água naturais e permanentes.

Segundo o texto, os proprietários desses imóveis deverão promover a recuperação das APPs conforme determinação do Programa de Regularização Ambiental dos Estados e segundo as seguintes metragens, contadas a partir do leito regular:

às margens de cursos d’água naturais e permanentes com largura de até 5 metros, será obrigatória a recomposição das faixas marginais em até 5m;

às margens de cursos d’água naturais e permanentes com largura entre 5m e 10m, será obrigatória a recomposição das faixas marginais em até 7,5m;

às margens de cursos d’água naturais e permanentes com largura entre 10m e 30m, será obrigatória a recomposição das faixas marginais em até 10m;

igual à metade da largura dos cursos naturais e permanentes que meçam acima de 30m de distância entre as margens, respeitando os 50% da largura do rio até o limite de 100m.


Indenização

O projeto determina que os proprietários de imóveis com áreas consolidadas em APPs ao longo de cursos d´água com área de até 4 módulos fiscais sejam indenizados pelo governo federal de acordo com valor de mercado da terra, juntamente com o custo de recomposição das matas ciliares.

Agricultura familiar

O projeto prevê uma situação excepcional para os agricultores familiares e proprietários de imóveis que, em 22 de julho de 2008, detinham até 4 módulos fiscais e desenvolviam atividades agrossilvopastoris nas áreas consolidadas em APPs.

Nesses casos, a exigência de recomposição, somadas as áreas das demais APPs do imóvel, não ultrapassará o limite de 50% na Amazônia Legal e de 20% no restante do País.

Infrações

A proposta suspende, a partir da edição da lei, sanções decorrentes das infrações cometidas antes de julho de 2008, relativas à supressão irregular de vegetação em APPs e em áreas de reserva legal e de uso restrito.

As multas decorrentes de infrações cometidas antes de julho de 2008 poderão ser convertidas em serviços de preservação, melhoria e recuperação da qualidade do meio ambiente. Essa conversão será possível para o produtor que cumprir as obrigações estabelecidas no Programa de Regularização Ambiental ou em termo de compromisso para a regularização ambiental.

“O intuito é não punir monetariamente aqueles que suprimiram vegetação antes da referida data, mas estimulá-los a regularizar a situação”, diz Henrique Eduardo Alves.

Tramitação

O projeto será distribuído às comissões temáticas da Câmara.

Íntegra da proposta: PL-3846/2012

Com informações da Agência Câmara de notícias. e foto de Antônio Cruz, da Agência Brasil.

 

População vê Reserva Legal como área inútil

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Policiamento Ambiental desarticula invasão à reserva legal em Iranduba (AM)
Durante a operação conjunta, que contou com a Polícia do município e Delegacia de Meio Ambiente, 500 pessoas foram retiradas da área de proteção ambiental

O Batalhão de Policiamento Ambiental na tarde da última terça-feira (08), conseguiu desarticular uma invasão a uma reserva legal situada no Km 4, na estrada de acesso ao município de Iranduba, localizado à 22 quilômetros de Manaus. Ao todo, a operação evitou que cerca de 500 pessoas se instalassem na área de proteção ambiental.

Conforme o tenente Bruno, comandante da operação, a invasão foi interrompida na fase inicial, no entanto, o processo de retirada da vegetação nativa e marcação do terreno já haviam sido iniciados. “Quando nossa equipe chegou ao local da ocorrência percebemos que os invasores estavam na fase de supressão da cobertura da vegetação e marcação do terreno em lotes. Apesar disso, conseguimos retirá-los da área que se trata de reserva legal de uma propriedade privada. E a legislação ambiental prevê que nem mesmo o proprietário pode fazer uso do espaço da reserva”, relata o comandante.

Nenhum invasor foi detido. “Não houve flagrante, mesmo eles estando dentro do terreno, por isso também não houve detenção dos envolvidos”, tetou explicar o comandante da operação.

A informação foi publicada no site do jornal A Crítica, de Manaus (leia na fonte). Vejam abaixo o comentário de um leitor do postado no rodapé da notícia: "Bem isso não é verdade a POLICIA so estave no local e nao izeram nada; ainda continua lá os aproveitadores; o POLICIAMENTO AMBIENTALnão estao fazendo nada; os invasores estao desmatando; colocando fogo; destruindo uma grande area verde. E ai como fica a questão ambiental. Ta na hora de falarem a verdade. PURA MENTIRA ninguem desarticulou nada. Pelo contrario até policiais estão na invasão...ISSO É BRINCADEIRA....Com a palavra as autoridades que se dizem competetes......"

O município de Iranduba fica na margem direita do Rio Negro, do outro lado, na margem esquerda fica Manaus. As terras do município se valorizaram após a inauguração da ponte ligando as duas margens do Negro. Produtores rurais que mantiveram suas Reservas Legais preservadas por força do Código Florestal agora estão tendo essas áreas invadidas pela população pobre de Manaus. Os populares vêem as Reservas Legais como área inútil, sem produção aparente e as invadem como se fossem áreas sem dono.

Em tempo, me deixem contar uma outra história sobre a inutilidade das Reservas Legais. Trabalhei numa grande empresa que arrendava áreas na Amazônia para plantar eucalipto. A empresa pagava ao produtor apenas pelo que chamávamos de "área útil", que era a área do imóvel arrendado onde poderíamos efetivamente plantar. O restante do imóvel, encostas, APPs, Reservas Legais e áreas de mata remanescentes eram áreas inúteis.

São dois bons exemplos de como a sociedade enxerga de fato as áreas de reserva dentro dos imóveis. Embora os ecotalibãs se esforcem para sustentar o sofisma de que essas áreas são socialmente necessárias por prover serviços ambientais à sociedade, a população as enxerga epenas como um ativo tangível.

 

Você acha que todo ambientalista é do bem? Surpreenda-se:

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Fiscal do Ibama sendo "educado" com um produtor rural

Dois fiscais do Ibama estão presos no Mato Grosso por cobrar propina para liberar. “Quando eles chegaram, foram deslocados para o município de Alta Floresta. Ouvimos relatos de que eles se desviaram do caminho e procuraram uma madeireira, cobrando dinheiro para não apertar a fiscalização nessas empresas", disse o o chefe de Controle e Fiscalização do Ibama em Sinop.

Os agentes atuavam na Operação Verdes Veredas, de combate ao desmatamento em Mato Grosso. Desde o início da operação, em fevereiro, fiscais de vários estados se revezam em períodos de 15 a 30 dias para reforçar a equipe local. Os dois servidores deveriam acompanhar o transporte de madeira extraída ilegalmente até a prefeitura de Cláudia. Antes da operação, eles propuseram um acordo ao vice-prefeito da cidade para vender a parte nobre da carga e dividir o lucro.

Segundo balanço do Ibama em Sinop, a Operação Verdes Veredas, emitiu 125 multas, no valor total de R$ 78 milhões. Os fiscais também apreenderam 41 tratores e 13 caminhões. Sabe lá Deus quantos milhões em propina os salvadores da floresta extorquiram do povo da Amazônia.

Com informações da Agência Brasil.

 

ONGs internacionais convocam o mundo contra a agricultura brasileira

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We want your support!!

Três grandes ONGs internacionais, Greenpeace, WWF e Avaaz lançaram uma grande campanha internacional para pressionar a Presidente do Brasil a vetar o Código Florestal. Até o momento mais de 1,5 milhão de pessoas de vários países do mundo, nenhum deles com lei sequer parecida com a nossa, já aderiram à iniciativa. A ideia das ONGs é fazer pressão internacional para que Dilma leve em consideração o "clima internacional" de rejeição ao código, às vésperas da Rio+20. 

"A petição vai ser impulsionada por uma campanha liderada pelos três grupos que vai estimular os seus milhões de apoiadores a causar um dilúvio de mensagens e ligações para as embaixadas brasileiras ao redor do mundo demonstrando oposição ao código", afirma um comunicado divulgado pelas três ONGs. A campanha pede ainda manifestações nas redes sociais. 

"Milhares de pessoas do mundo inteiro estão soando o alarme e telefonando para as embaixadas brasileiras para pedir que a presidente Dilma Rousseff salve a Amazônia", disse o diretor executivo da Avaaz, Ricken Patel. "A presidente tem uma escolha a fazer: assinar a sentença de morte ou proteger os pulmões do planeta e emergir como uma heroína pública", sugeriu o ecólatra sem se importar com as consequências do veto no setor rural do Brasil. 

Kumi Naidoo, diretor executivo do Greenpeace interancional pediu que a presidente do Brasil não se posicione ao lado do que descreve como "a destruição de sempre contida no Código Florestal".

 

O dia em que divergi do setor rural brasileiro

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No dia 24 de novembro de 1976, um jornal novaiorquino passou a previsão do tempo logo após apresentar uma notícia sobre o estupro de uma menina de cinco anos de idade. Ao cortar a transmissão ao vivo para o homem do tempo, o apresentador, Tex Antoine, emendou a notícia do estupro com a seguinte frase:"With rape so predominant in the news lately, it is well to remember the words of Confucius: 'If rape is inevitable, lie back and enjoy it.'". Mal traduzido Antoine disse o seguinte: "Com estupros tão recorrentes no noticiários hoje em dia, é bom relembrar as palavras de Confuncio: "Se o estupro é inevitável, deite-se e aproveite".

Tex Antoine, a cavalgadura, foi demitido dias depois, mas imortalizou a frase que adquiriu outras formas em diversas partes do mundo. No Brasil, depois de burilada por Paulo Maluf e pela sexóloga Marta Suplicy, a frase foi sintetizada para "Se o estupro é inevitável, relaxa e goza". É um absurdo engraçadinho.

Hoje um grupo de 11 entidades representantes do setor rural, as maiores, a Associação Brasileira de Celulose e Papel (Abracelpa), Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG), Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), Associação das Empresas de Biotecnologia na Agricultura e Agroindústria (Agrobio), Associação dos Produtores de Soja e Milho do Matogrosso (Aprosoja), Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Instituto de Estudos do Comércio e Negociações Internacionais (Icone), Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), União das Indústrias de Cana de Açúcar (Unica) e União Brasileira de Avicultura (Ubabef), subscreveram e apresentaram um documento à Presidente da República sugerindo a contabilização das florestas em terras privadas, as Reservas Legais e as Áreas de Preservação Permanente previstas no Código Florestal, nas metas internacionais de preservação de biodiversidade assumidas pelo Governo Brasileiro em convenções internacionais.

Apenas as florestas preservadas em unidades de conservação públicas (UCs) e terras indígenas contam para as metas de preservação de biodiversidade assumidas internacionalmente para o Brasil. Apenas o decreto de criação é suficiente, não sendo necessária a implantação de facto da unidade. O papel basta. Isso cria uma pressão para que o Governo crie UCs na base do canetaço, sem aportar recursos para sua efetivação e gerando problemas medonhos para os produtores rurais na área das novas UCs.

Por outro lado, os milhares de hectares de florestas hoje existentes em terras privadas, nas RLs e APPs, a maioria dos quais comporta florestas cuja biodiversidade é tão importante quanto qualquer outra e cuja preservação é obrigatória, não contam como área preservada na meta. O documento das entidades pede ao Governo que inclua as florestas privadas no cômputo de áreas preservadas que compõem a meta brasileira de biodiversidade. A ideia é reduzir a pressão pela criação indiscriminada de UCs ao mesmo tempo em que empresta alguma importância prática às RLs e APPs.

A construção do documento foi articulada pelo pessoal do Icone, um dos signatários, com o auxílio da ONG interacional The Nature Conservancy (TNC). Logo depois que o documento foi divulgado à imprensa, o WWF anunciou a proposta como "uma saída para o Código Florestal". Eis o inusitado: ONGs ambientalistas internacionais e o setor rural unidos em torno de uma proposta. Todo mundo é a favor. Menos eu.

Embora alguns ambientalistas cuspam na minha cara a acusação de trabalhar para ruralista, como se isso fosse imoral, não guerreio essa guerra por soldo. Guerreio por princípios. Dentre eles, talvez o que me seja mais caro, seja a imoralidade, o erro, da imposição da preservação de florestas em terras privadas. Sou convicto de que os benefícios da preservação florestal são grandes demais e baratos demais para serem privados. Preservação de florestas, e suas consequências ambientais, são bens da sociedade que o Estado, por sua natureza, deve prover ao cidadão.

Na minha concepção de mundo APP tem que ter a largura necessária à eficaz preservação do manancial hídrico. Se essa largura inviabilizar o modo de vida de alguém, o Estado deve retirá-lo de lá garantido ao mesmo tempo seus direitos básicos e a preservação da APP; e Reserva Legal tem que ser Zero.

Não estou dizendo com isso que os produtores rurais devam ser autorizados a desmatar suas florestas. Estou dizendo apenas que preservação florestal é função do Estado e que função de produtor rural é produzir da forma mais amigável ao ambiente possível, economizando adubo e defensivos, conservando solo, incrementando tecnologia, maximizando produtividade e minimizando perdas. Esse é o mundo pelo qual luto.

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Aldo Rebelo e eu minutos antes das caipiroskas de açai em Belém.

Anos atrás, numa noite quente de verão amazônico, em Belém, contei esses dois últimos parágrafos ao Deputado Aldo Rebelo enquanto bebericávamos caipirokas de açaí depois de uma das muitas palestras que o Deputado fez Brasil a fora. Ele se virou pra mim com um semblante tranquilo naquela cara de pai que ele tem e disse: "Mas ninguém concorda com você".

Era verdade e naquela noite eu me senti meio como hoje, mas permaneci forte porque é natural que o setor rural brasileiro, tendo convivido com códigos florestais que impõem preservação de florestas em terras privadas por quase um século, tenha se habituado ao conceito. É como um boi velho de engenho que depois de aposentado, sai sozinho do pasto todo dia no mesmo horário e vai rodar em volta da moenda. A besta miserável não sabe fazer outra coisa, nunca fez outra coisa na vida. Girar em volta da moenda é a vida.

Ainda no período colonial, José Bonifácio de Andrada e Silva, redigiu uma sugestão aos legisladores da Corôa que estabelecessem no Brasil a figura das reservas privadas ordenando que um sexto de cada sesmaria permanecesse florestado. "Em todas as vendas que se fizerem e sesmarias que se derem se porá a condição, que os donos e sesmeiros reservem para matos e arvoredos a 6ª parte do terreno, que nunca poderá ser derrubada e queimada sem que se fação novas plantações de bosques, para que nunca faltem as lenhas e madeiras necessárias", escreveu Bonifácio nas recomendações que fez à Coroa (Leia a integra do documento original). Embora a sugestão de Bonifácio jamais tenha virado lei, ele é tido como pai da ideia.

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Meu ferro a lenha sobre meu exemplar do compêndio

Direito Florestal Brasileiro escrito por Osny Duarte Pereira.

A preservação de florestas em terras privadas nasceu com o primeiro Código Florestal, em 1934. Naquele momento o Brasil se movia a lenha. Não existiam fogões a gás, não haviam ferros elétricos, não haviam caminhões à diesel. As roupas eram engomadas com ferros em que se que se colocava madeira em brasa dentro e que tinham uma janelinha que as mulheres abriam para soprar e reavivar a brasa aquecendo o ferro. Tenho um ferro desses em casa. Comprei em um mercado que não os vendia como bibelôs. Também os pães deles de cada dia, àquela época, eram assados em fornos a lenha. Os almoços e jantares de todos os brasileiros eram cozidos em fogões a lenha. O café, que sustentava a economia, se movia do interior de São Paulo e do Paraná até o porto de Santos em trens que se moviam a lenha. Do porto de Santos, o café ganhava o mundo em navios que se moviam a lenha. A medida em que o suprimento de lenha, que era transportado do mato às casas nos lombos de burros ou em carroças, se afastava das cidades o preço subia e o Estado sofria pressão para regular o fornecimento. Carestia na lenha equivalia a um apagão.

Ocorre que no início do século passado não existia a figura das reservas florestais públicas e tornar o Estado um fornecedor de lenha criando uma espécie de Lenhobras, não era opção. Só restou a legislador da época criar a figura das reservas florestais dentro dos imóveis rurais privados na tentativa de impedir o afastamento do suprimento de lenha, a matriz energética do país à época, para a além dos limites em que os jumentos poderiam trazê-la até as cidades.

O primeiro Código Florestal virou lei pela pena do governo ditatorial de Getúlio Vargas em 1934. Logo depois, paulatinamente, vieram os caminhões a diesel e as primeiras hidroelétricas. A matriz energética do pais mudou, veio a Petrobras, a lenha perdeu importância e Código Florestal deixou de ser necessário. Ninguém mais ligou pra ele até a década de 60 quando resolveram reformá-lo pela primeira vez.

Um grupo de técnicos coordenados pelo Desembargador Osny Duarte Pereira, comunista como Aldo Rebelo, que havia publicado o livro Direito Florestal Brasileiro, uma análise profunda do Código Florestal de 34 e do direito florestal comparado, reformulou o Código Florestal vigente. Da equipe coordenada por Osny resta hoje um único componente vivo. O engenheiro agrônomo Alceo Magnanini.

Anos atrás, numa manhã fria do inverno carioca, conversei longamente com o Dr. Alceo na sala da casa dele, no Rio, enquanto bebericávamos um fresquíssimo suco de laranja. Ele me contou, entre outras coisas, que o grupo partiu da assunção de que "um percentual de cada bioma teria que ser preservado" e que a demora foi para definir o tal percentual porque o Osny exigia que o número fosse acompanhado de um justificativa técnica e deveria ser aceito por unanimidade no grupo. Acabaram estabelecendo 50% de Reserva Legal na Amazônia porque era uma região que se conhecia pouco, e 20% no resto do país.

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Eu e o Dr. Alceo Magnanini, o último
legislador vivo do Código Florestal de 1965.

Perguntei a ele diretamente se eles haviam pensando na possibilidade de estabelecer tal percentual através de Unidades de Conservação Públicas. Ele tergiversou. Mas pude perceber da conversa como um todo que eles não cogitaram a opção. Me pareceu que eles estavam habituados à figura das reservas privadas, o Dr. Osny gostava dela (assim como Aldo Rebelo também gosta muito em função da admiração que tem por José Bonifácio) e desconfiavam que o Estado não faria tal preservação.

Ao contrário do legislador de 30, o legislador de 60 tinha, como nós hoje temos, a opção de impor a preservação do tal "percentual que precisa ser preservado" em terras públicas, em UCs, mas optou por manter a criatura do legislador de 30, que tinha outro contexto. A história mostrou que a opção das reservas privadas não foi uma opção eficaz, a Mata Atlântica sumiu de lá pra cá. Essa história toda explica porque eu não desabei por completo quando Aldo Rebelo jogou na minha cara a constatação um tanto obvia de que ninguém concorda comigo. Estamos todos habituados ao paradigma, a rodar em torno da moenda.

Eu, como Galileu, Newton depois Einstein, Lavoisier, Darwin, tenho a força de mil exércitos pra brigar sozinho contra um paradigma errado. Não porque eu seja um gênio como eles, mas pela razão simples de que um paradigma errado esboroa sozinho. A forma avassaladora como se deu o atual processo de reforma, depois que ONGs de ecólatras afirmaram por tanto tempo que nossa lei era "uma das melhores leis ambientais do mundo" é uma evidência de fissuras no paradigma que sustenta a preservação em terras privadas.

Mas o documento assinado pelas 11 entidades que representam o setor rural é diferente. O documento em que o setor rural aceita a preservação de florestas em terras privadas equivale a uma rendição oficial. O documento significa que meus generais depuseram as armas. Ele me transforma em uma coisa sem sentido parecida com aquele soldado japonês que permaneceu entrincheirado na ilha de Guam, comendo raízes, dormindo em buracos, vestindo folhas, defendendo a soberania do povo japonês por três décadas depois do fim da guerra, quando todos os derrotados já eram conhecidos e reconhecidos.

Não que tenha sido um erro assinar o documento. Muito pelo contrário. Os ambientalistas do governo, do Ministério do Meio Ambiente (MMA), abusam do apelo politicamente correto do ato de criar uma UC sobre as terra dos "cães ruralistas do mal" para criá-las de forma irresponsável e inconsequente sobre terras de produtores rurais, gente simples, honesta e trabalhadora. A maioria não tem como se defender do Estado. A pressão para cumprir as metas internacionais apenas através de UCs públicas incandesce o ímpeto e a irresponsabilidade dos ecólatras do MMA. Incluir as florestas preservadas em terras privadas, em RLs e APPs, nas metas reduzirá a pressão pela criação indiscriminada de UCs.

Dadas as circunstâncias, construir e assinar o documento provavelmente foi a melhor decisão que as entidades poderiam ter tomado. Provavelmente será melhor para os produtores rurais se a proposta for aceita. Como disse certa vez o grande filósofo norte americano Tex Antoine, melhor e deitar e aproveitar do que ser currado na marra.

O problema não é o documento e seu conteúdo, tampouco a chancela do setor rural nele. O problema sou eu, minhas convicções e meus princípios. Minha ilha de Guam pessoal, a trincheira contruí pra mim, meu instante de febre, minha gula e jejum, minha biblioteca, minha lavra de ouro, meu terno de vidro, minha incoerência, meu ódio é que me oprimem. 

Das mais de 50 audiências públicas que a Comissão Especial da Câmara dos Deputados fez pelo Brasil para debater a reforma do Código Florestal eu participei de uma. Nela ouvi o Deputado Aldo Rebelo dizer, em outros termos, que tinha a convicção de que, no futuro, quando o efeito do crescimento populacional e do desenvolvimento econômico das nações pressionasse o suficiente a demanda por alimentos, o mundo bateria às nossas portas e nos pediria que aumentássemos nossa produção agrícola.

Nesse momento o preço elevado dos alimentos terá excluído dos mercados a fração mais pobre do mundo e as imagens de crianças famélicas sobrepujarão aquelas de geleiras esboroando. Nesse momento, em que a ratazana ideológica de Marina Silva terá sido descortinada e soterrada pelo óbvio, haverá o ambiente político para se discutir a preservação de florestas em terras privadas. Eu acredito nisso.

Mas hoje, com esse debate ridículo sobre vetos absolutos e metragens homogêneas para um país heterogêneo, com as academias de ciência se ocupando de remarcar o paradigma vigente ao invés iluminar suas fissuras, com atores de TV desfazendo com salamaleques o que o parlamento fez de forma democrática, com ONGs internacionais usando raios laser para escrever Brazilian Forest Code, assim mesmo em inglês, nas paredes do Congresso Nacional brasileiro, não há espaço para se discutir o que deveria ser discutido.

Tenho apenas a impressão de que o documento das entidades saiu medroso. Tenho a impressão de que eles poderiam ter sido mais ousados, poderiam ter olhado mais adiante, usado a premência crescente de produzir alimentos em um mundo superpovoado e rico. Poderiam ter deixado uma porta aberta. Bastava incluir um parágrafo dizendo, ok, tudo bem achamos que esse é o melhor caminha agora, entretanto.... Mas são apenas impressões.

Me permitam encerrar contando uma ultima história. Quando a igreja soube que Galileu havia desenvolvido uma teoria que mostrava que a terra se movia e girava em torno do sol convocou-o ao tribunal da santa inquisição. O paradigma vigente era de que a terra não se movia e o sol e tudo mais girava em torno da terra. Estava errado, mas era conveniente à igreja católica porque permitia a separação clara entre o inferno abaixo da terra, o mundano na superfície da terra e o divino no céu, além da terra. A teoria de Galileu bagunçava o esquema simples da igreja.

Os clérigos disseram a Galileu que ele tinha duas opções, poderia ser torturado até a morte não sem antes confessar que sua teoria estava errada, ou poderia negar sua teoria por bem e sair andando pela porta. Galileu negou a teoria, os clérigos o liberaram e voltaram pro seu mundo errado conveniente. Mas reza a lenda que Galileu, ao passar pelos soldados santos que guarneciam a porta, olhou para um deles, sorriu e murmurou "Eppur, si muove". No entanto, se move.

Cedo ou tarde a verdade estará aí na sua porta, rindo na sua cara.

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Fonte:
Blog Ciro Siqueira

1 comentário

  • Angelo Miquelão Filho Apucarana - PR

    Como pode um Brasil bater no peito e se dizer soberano, quando verga a pressões externas feitas por Ongs e todo tipo de quadrilha malandros? O governo prefere ouvir as quadrilhas de malandros que nada fazem além de tumultuar e atrapalhar a vida de quem produz alimento, que é estratégico hoje e será ainda mais em um futuro breve. Aceitar de bom grado imposições de quem não serve como exemplo é assinar atestado de burrice! Burrice esta que parece acompanhar grande parte dos ditos intelectuais, artistas e ambientalistas defensores do famigerado movimento contra a agricultura brasileira. O Brasil foi roubado no descobrimento e pelo andar da carruagem, continuará sua sina e o pior desta vez que terá o apoio daqueles que poderiam fazer diferente. Estamos mesmo em um mato sem cachorro, repleto de gatos e ratos trabalhando em conjunto! Uma vergonha para o Brasil, uma derrota para os brasileiros todos, que um dia irão pagar muito caro pela idiotice hora aceita!

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