Corrupção, Democracia, Política.... Estranhas prioridades

Publicado em 17/05/2014 20:23 e atualizado em 09/07/2014 14:35 1420 exibições
por Rodrigo Constantino, de veja.com.br

Cultura

Ah, de volta ao Brasil!

É sempre bom voltar ao nosso lar, doce lar, mesmo após uma rápida passagem por um país mais civilizado, onde as coisas simplesmente… funcionam! O grande espanto, o grande choque ao se regressar ao Brasil é ver como as coisas mais básicas são, por aqui, complicadas.

Não falo da chegada ao aeroporto, já aquele primeiro grande contraste, ou mesmo das favelas todas que decoram o trajeto de volta para casa; e sim dos temas que norteiam os debates e as preocupações em nossos país. A gente precisa deixar a Banana Republic, a loja, para trás e mergulhar na República das Bananas, o país. Isso demanda um patriotismo e tanto…

Abro o jornal e vejo a notícia em maior destaque: Trabalho infantil fere cinco e mata um por mês. Diz a matéria:

Em 5 de março último, Max Fernandes Ritzel dos Santos, de 14 anos, estava no seu primeiro dia de trabalho em uma construção na cidade de São Leopoldo (RS). Ao manusear uma betoneira de misturar concreto, sem usar equipamento de proteção, sofreu um choque mortal.

— Era só um fiozinho desencapado, mas o choque estourou o coração dele. O meu orgulho é saber que morreu trabalhando e não na mão de algum policial ou traficante. Assim como Deus sabe a hora de pôr no mundo, sabe também a hora de recolher — chora a mãe Roseli Ritzel, que ainda deve R$ 1.300 pelo enterro do menino.

Na última quinta-feira, após uma semana no emprego, J.J.R., de 15 anos, limpava por dentro um forno de cal, de 13 metros de altura e dois de diâmetro. O forno desabou e mais de 13 toneladas de terra e entulho soterraram o adolescente. O trabalho de resgate pelo Corpo de Bombeiros de Formiga, cidade a 200 quilômetros de Belo Horizonte, durou 12 horas.

As duas atividades, por serem mais arriscadas e insalubres, são proibidas para menores de 18 anos no Brasil. Estão incluídas na lista de piores formas de trabalho infantil que o país se comprometeu a erradicar no ano que vem. A lei prevê que qualquer forma de trabalho é proibida para menores até 14 anos. Entre 14 e 16 anos, o jovem pode trabalhar apenas como aprendiz. E, mesmo após os 16, o trabalho em atividades perigosas ou insalubres é proibido.

Em seguida, outra reportagem em grande destaque diz: Distante do fim da estiagem – Burocracia emperra funcionamento dos 21 poços abertos no Nordeste. Diz ela:

Em abril de 2013, quando a Região Nordeste atravessava a pior seca dos últimos 50 anos, a presidente Dilma Rousseff anunciou, durante a reunião do Conselho Deliberativo da Sudene, um novo pacote de medidas para mitigar os efeitos da estiagem, que, na ocasião, afetava 1.415 municípios. Entre elas, estava a perfuração de 21 poços profundos, de grande vazão, pela CPRM/Serviço Geológico do Brasil, em áreas escolhidas a dedo para fazer chegar água subterrânea de boa qualidade ao sertanejo — um projeto de R$ 40 milhões. Devido à urgência, pelo menos 17 obras de perfuração foram contratadas sem licitação. O Observatório da Seca, lançado no mesmo encontro, registra a conclusão de 21.

Engana-se, porém, quem pensa que os poços, cavados a profundidades acima de 400 metros, resolveram as dificuldades de muita gente: 14 seguem parados por falta de bombas, energia ou adutoras para levar a água a quem precisa. Na maioria dos casos, não há sequer previsão para o restante da obra. O problema é que o Ministério da Integração Nacional não se responsabiliza por todas as etapas. Só após o poço ficar pronto, começa a discussão do fornecimento de energia para que as bombas funcionem, o que deve ser feito pelas concessionárias de cada estado. A canalização é outra dificuldade: municípios com até 50 mil habitantes têm de buscar verbas na Fundação Nacional de Saúde (Funasa) para viabilizar adutoras e redes de abastecimento. Ou seja, o que era urgente no período da seca cai nos estraves de sempre da administração pública.

A realidade brasileira é muito dura. Menores de idade tendo de trabalhar em funções arriscadas por completa falta de alternativa, e a própria mãe reconhecendo que era isso ou deixar o filho nas mãos de traficantes. Nordestinos que até hoje não podem contar com o fornecimento adequado de água. São coisas típicas de um país… africano! Só que o Brasil não é a África, e se ainda não perdemos o juízo, esse tipo de coisa deveria ser revoltante.

Miami não tem os melhores indicadores sócio-econômicos dos Estados Unidos. Longe disso. Há pobreza, criminalidade, não tem nada de perfeito. Mas só mesmo um Sakamoto da vida, “especialista” convidado por Regina Casé para seu programa sensacionalista e ícone do esquerdismo retrógrado que assola nosso continente, poderia dizer que se lá é a “América Latina que deu certo”, como afirmei, então já demos errado!

Pobreza, por lá, significa morar em um bairro humilde, com índices de violência maior do que a média nacional (e bem menores do que a nossa média nacional), ter uma casita discreta (mas nada comparado às favelas cariocas) e um carro na garagem (que no Brasil seria de classe média). E um iPhone, claro, pois todos possuem um iPhone, mesmo nos bairros mais pobres. É isso que quer dizer “ser pobre” em Miami, via de regra. Crianças manuseando uma betoneira de misturar concreto? Gente sem acesso a água? Isso parece uma realidade muito distante.

Cada um com sua realidade. Mas eis a revolta: por que a nossa precisa ser essa, tão miserável, em um país tão rico e com tanto potencial? O que eles têm de tão especial? Só vemos latino-americanos em Miami. Só escutamos espanhol e português. São cubanos, porto-riquenhos, argentinos, brasileiros, todos vivendo em uma cidade misturada, mas organizada, limpa, sem pichação estragando tudo que é viaduto, com ótimas estradas, e respeito às leis.

O que eles têm? Talvez fosse melhor começar pelo que eles não têm: um bando de “intelectuais” de classe média disseminando marxismo pelas universidades, por exemplo. Ou sociólogos afirmando que a criminalidade é fruto apenas da condição social e que, portanto, todo criminoso é na verdade uma “vítima da sociedade”. Claro, eles também não têm uma praga chamada PT, apesar de uma ala do Partido Democrata de Obama tentar chegar perto em grau de demagogia.

Não podemos perder nossa capacidade de indignação. Não podemos nos entregar ao fatalismo de que isso aqui é assim, uma porcaria mesmo, e que sempre foi assim e nunca vai mudar. Não podemos colocar a culpa no “povo”, como se fosse algo inato, genético, e deixar por isso mesmo. Não! A qualidade de nossas elites é muito ruim. São elas que, em pleno século 21, ainda enaltecem Marx ou idolatram Paulo Freire! São elas que votam, também, no PT ou no PSOL!

Estou de volta ao Brasil. É o meu país, onde nasci, vivi pelos últimos 37 anos. Não quero abandonar tudo e viver exilado em Miami, como tantos fizeram, por razões óbvias e compreensíveis. Quero lutar por um país melhor, mais capitalista, liberal, próspero, justo. Sabemos quem são os inimigos desse progresso; ironicamente, eles se intitulam “progressistas”, mas representam o atraso.

São os defensores do socialismo, do modelo bolivariano, da ditadura cubana, de um estado cada vez maior. É essa a mentalidade que precisa ser derrotada se queremos um país mais parecido com Miami e menos com Caracas. É o que eu desejo. E você, caro leitor? Então o que está esperando para abandonar o discurso derrotista e se unir nessa luta por um Brasil melhor?

Rodrigo Constantino

 

CorrupçãoDemocraciaPolítica

Estranhas prioridades – Veja impressa

Segue trecho da minha coluna na Veja impressa desta semana. Para ler na íntegra, basta se tornar assinante aqui.

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Rodrigo Constantino

 

FascismoPolíticaSocialismo

O PT reacionário não tem futuro

Tchau, futuro!

Socialistas sempre prometeram o paraíso na Terra para conquistar seguidores dispostos a todo tipo de sacrifício no presente. É assim que o ímpeto revolucionário sempre funcionou, como substituto das religiões, só que em vez de vender um paraíso após a morte, ele era oferecido ainda em vida, sendo mais sedutor, portanto.

Já os fascistas preferem vender medo, explorar o risco de uma catástrofe iminente ou o retorno a algum passado mítico, idealizado, em que havia quase perfeição e o sentimento de orgulho nacional era avassalador. Esse tipo de mensagem costuma funcionar bem em épocas de crise, de humilhação generalizada, como após a derrota em uma guerra ou a destruição da moeda.

O PT, que sempre foi revolucionário e com claras inclinações socialistas, adotou o discurso fascista, reacionário. É o que mostra Reinaldo Azevedo em sua coluna de hoje na Folha. Incapaz de manter acesa a chama da esperança em um futuro melhor, restou ao governo Dilma adotar a tática do medo, incutir pânico nos eleitores, apelar para o terrorismo eleitoral.

O badalado vídeo feito pelo marqueteiro João Santana, mostrando um risco de retrocesso a um país miserável, como se graças ao PT isso fosse coisa do passado, representa uma guinada à estratégia fascista do medo. Sem condições de oferecer um futuro ensolarado, sem projetos para conquistar sonhos, restou ao PT a saída reacionária: sua grande bandeira é preservar o status quo das “conquistas” sociais. Diz Reinaldo:

Depois de quase 12 anos no poder, o PT não tem futuro a oferecer. Por mais que o filminho de João Santana tenha as suas espertezas técnicas, a verdade é que a peça terrorista revela o esgotamento de uma mitologia, e tenho cá minhas desconfianças se o vídeo não será contraproducente, ainda que peças assim sejam submetidas previamente a pesquisas qualitativas.

A linguagem e a estética de esquerda repudiam, por natureza, o presente. Sem os amanhãs sorridentes, o dia que virá, a Idade do Ouro, como cobrar o sacrifício do povo, a sua mobilização, o seu ímpeto revolucionário, suas paixões sanguinolentas? Nas campanhas petistas de 2002, 2006 e 2010, o passado era demonizado, sim, mas o eixo estava num presente que mirava o futuro. […]

Estou a antever a derrota de Dilma? Ainda não. Apenas evidencio que o PT não tem mais nada a oferecer. Se emplacar mais quatro anos de mandato, o país ficará refém da capacidade de planejamento e de administração de gestores e estrategistas como Aloizio Mercadante e Guido Mantega. Se a presidente for reeleita, são eles os portadores da utopia. E isso parece pavoroso.

Bota pavoroso nisso! É uma imagem assustadora, e basta olhar para a Argentina ou a Venezuela para ter ideia do resultado. O PT matou o futuro do Brasil, e matou isso na expectativa do povo. Agora, apela para um risco fictício de retrocesso, que é real justamente no caso de sua permanência no poder. Preservar o país como ele está hoje, eis a grande oferta do PT nessas eleições, na melhor das hipóteses. Quem pode se mobilizar por isso?

É um PT reacionário em vez de revolucionário, ao menos no discurso. É um PT fascista, incutindo medo para evitar mudanças e continuar no poder. Mas o PT reacionário não tem futuro a oferecer. E, assim sendo, não tem futuro, não irá sobreviver, pois é impensável um país pobre como o nosso aceitar que esse presente terrível é o melhor que temos disponível. O povo deseja sonhar com um futuro melhor, e este o PT não é capaz de oferecer. Ou alguém acha que é possível ter bons sonhos com Mercadante e Mantega?

Rodrigo Constantino

 

EmpreendedorismoFilosofia políticaSocialismo

Foco em desigualdade é papo de rico

O socialismo sempre foi defendido por muita gente rica, e quem leu meu livro sobre a esquerda caviar não ficará surpreso com isso. O foco obsessivo na desigualdade é um luxo de quem já deixou a pobreza para trás há muito tempo. Quem é pobre prefere focar no crescimento, na criação de riqueza. Já parte da elite abastada gosta de expiar seus “pecados” com o discurso igualitário.

Esse foi o tema da coluna de Marcos Troyjo hoje na Folha, criticando a nova sensação das esquerdas, o economista francês Thomas Piketty. Troyjo, que tenta fomentar o empreendedorismo nos países emergentes, mais especificamente nos BRICs, condena a bandeira socialista levantada por milionários ou por intelectuais de países ricos. Ele está mais preocupado com a criação de riqueza, enquanto os ricos podem se dar ao luxo de debater apenas sua melhor distribuição. Diz ele:

Decepciona, em Piketty, não ver referência a “empreendedorismo”, “competitividade”, “start-ups”, “papel da inovação”, ou à “destruição criativa” de Schumpeter.

A principal tensão do mundo contemporâneo não advém do conflito distributivo entre capital e trabalho. O cabo de guerra é entre empreendedores e burocratas, seja na forma da grossa camada de gestores cujo intuito é a autopreservação ou nas inúmeras esferas estatais que esclerosam o dinamismo econômico.

Para países como o Brasil, o grande desafio é encontrar seu próprio modelo de capitalismo competitivo que o permita pagar o preço da civilização.

Deixemos para amanhã manuais de instalação de um “Welfare State 2.0″, como o IPS ou o tijolo de Piketty. Concentremo-nos, agora, nas lições de Acemoglu e Robinson em “Por que as Nações Fracassam”.

No alvo! O problema não é o capitalismo, nem mesmo a desigualdade, e sim a burocracia excessiva, as estatais paquidérmicas, a carga tributária absurda, o “capitalismo de estado”. Falta mais empreendedorismo, mais investimento em “start-ups”, em empresas inovadoras e dinâmicas, mais meritocracia, mais liberdade econômica.

Pensar em adotar modelos ainda mais concentradores de poder e recursos no estado, em nome do combate à desigualdade, é dar um tiro no pé de nosso crescimento. É engessar nossa economia a ponto de punir de maneira insensível os mais pobres, que precisam de mais crescimento, não de esmolas estatais.

Só discordo de Troyjo quanto à possibilidade de um welfare state 2.0 funcionar nos países ricos. Nem lá isso funciona! Sim, os ricos podem se dar ao luxo de distribuir riquezas sem uma catástrofe iminente. Vivem de herança, que leva tempo até ser consumida.

Mas um dia acaba, se as galinhas dos ovos de ouro forem mortas. E são, sempre que o estado resolve que seu papel não é garantir as regras do jogo no livre mercado, e sim bancar o deus onisciente que vai distribuir recursos de forma mais “justa” por aí. Ou seja, nem mesmo os ricos suportam por muito tempo o socialismo igualitário, que dura até acabar o dinheiro dos outros, como dizia Thatcher…

Rodrigo Constantino

 

IntervencionismoLiberdade EconômicaProtecionismo

“Patriotismo econômico”: o fantasma de Colbert

Colbert, ministro das Finanças de Luiz XIV

De olho na proposta de compra da gigante Alston pela GE, o governo da França baixou um decreto de “patriotismo econômico” que permite o bloqueio de compras de empresas do país por estrangeiras. A medida engloba setores considerados estratégicos, como água, energia, saúde, transporte, telecomunicação e defesa. O ministro da Economia, Arnaud Montebourg, sai fortalecido, pois tem combatido a compra da Alston. Ao “Le Monde”, ele afirmou: “É o fim do laissez-faire”.

Pausa para respirar. Então quer dizer que a França, país dos mais dirigistas e com um dos estados mais intervencionistas na economia, tinha até agora um modelo de laissez-faire? Incrível! Eu poderia jurar que era um modelo estatizante, com várias empresas grandes ainda sob o controle, direto ou indireto, do estado. Mas vamos em frente.

O ministro disse em entrevista se tratar de um “patriotismo econômico”. Montebourg, que é admirador de Colbert, o poderoso ministro de Luiz XIV e quem acabou contribuindo para o surgimento do conceito laissez-faire, pois os empresários franceses não aguentavam mais tanta “ajuda” estatal em sua gestão, Montebourg, dizia eu, afirmou que “não se pode pedir aos países que abram mão de seus interesses estratégicos”.

Mas quem foi que pediu isso? E aqui vale fazer essa importante, diria fundamental distinção: não é porque um serviço ou um setor é estratégico para o país que ele deve ser dominado pelo estado ou só contar com empresas nacionais. Isso não passa de uma falácia. Uma falácia adorada pelos estatólatras, que sempre usaram e abusaram desse termo – estratégico – para impor uma agenda de avanço estatal sobre tudo (basta pensar em nossas privatizações, que a esquerda sempre condenou com base nesse mesmo conceito).

Então se a Portugal Telecom, a italiana TIM e a mexicana Claro competem para oferecer serviços de telecomunicação, isso afeta o nosso interesse nacional? De que forma mesmo? Como exatamente seria melhor ter a volta da Telebras sob o controle estatal e monopolista? Será que a fusão da Oi com a Brasil Telecom, que levou o ex-presidente Lula a mudar a lei para recriar uma super-tele verde e amarela, era o caminho para proteger nossos interesses estratégicos, e não os de Lulinha e companhia?

Isso sem falar que hoje em dia, com grandes corporações cuja base acionária é totalmente pulverizada entre milhões de acionistas no mundo todo, fica até difícil falar em nacionalidade da empresa. De quem é a GE? Sim, é uma empresa americana, mas não tem um dono, ou nada parecido com aquela velha imagem de um capitalista com bengala e chapéu. Seu controle é diluído entre vários acionistas de várias nacionalidades.

Colbert era o ícone da mentalidade mercantilista destroçada por Adam Smith em seu magistral Riqueza das Nações, em que derruba vários mitos até hoje endossados pelos dirigistas. Aprendemos com a história que poucos aprendem com a história. É impressionante como nações inteiras caem nas mesmas armadilhas do passado.

No Brasil, temos em Luciano Coutinho, presidente do inflado BNDES, que escolhe os “campeões nacionais”, um dos maiores representantes dessa mentalidade. Tudo isso significa mais intervenção estatal, mais corrupção, menos “destruição criadora” capitalista, menos riqueza. Em nome do nacionalismo e dos interesses estratégicos, governos impedem o livre funcionamento dos mercados, força espontânea responsável pelo avanço da prosperidade.

Rodrigo Constantino

 

Liberdade EconômicaSocialismo

Bachelet aprova aumento de impostos e Chile caminha para trás

Entre companheiras?

Michele Bachelet voltou à presidência chilena com um discurso de campanha mais radical e esquerdista. Cheguei a comentar aqui o risco de retrocesso do país caso não fosse apenas um discurso eleitoreiro para vencer. Logo no começo, escândalos derrubaram pessoas ligadas a ela, um começo preocupante. Agora, vemos em reportagem de José Casado que a presidente deve realmente conseguir uma reforma tributária radical, que aumenta bastante a carga de impostos sobre o capital:

A presidente do Chile, Michelle Bachelet, aprovou na Câmara, na madrugada de quinta-feira, uma reforma tributária que impõe um significativo aumento dos impostos sobre o capital. Empresas que hoje pagam 20% sobre lucros devem pagar 35% em tributos a partir do próximo ano. O projeto de lei agora vai à votação no Senado, onde a oposição admite que não têm votos suficientes para derrubá-lo. O governo e partidos aliados intensificam a campanha explicativa na televisão

O Chile arrisca-se numa radical mudança de rumo na política econômica, a partir de profundas alterações na estrutura tributária em vigor há quatro décadas — incluindo a criação de imposto sobre a emissão de gases de efeito estufa. O objetivo é aumentar a receita governamental em dois pontos percentuais do Produto Interno Bruto, um adicional estimado em US$ 8 bilhões em arrecadação.

Desde a ditadura do general Augusto Pinochet, nos anos 70, o país convive com um sistema pelo qual o ganho salarial pode ser tributado em até 40% e o lucro empresarial no máximo 20% (empresas estrangeiras têm isenção quase total). Essa política liberal teve resultados concretos — o mais destacável é o crescimento econômico acelerado em ambiente de inflação baixa, durante três décadas.

O Chile, de fato, tem os melhores indicadores econômicos da região, mas uma desigualdade acentuada. Se a sociedade chilena escutar os discursos de inveja da esquerda e colocar como prioridade o combate a esta desigualdade, o crescimento será penalizado. Socialistas só pensam em distribuir, mas ignoram que riqueza se cria, e depende justamente dos investimentos do capital, em ambiente de liberdade econômica.

Quem costuma pagar por essas medidas não são os muito ricos, que sempre encontram formas de compensação, e sim a classe média. É esta que acaba asfixiada pelo aumento de impostos ou sofre diretamente com a queda da atividade econômica. Será uma lástima se o legado econômico – a única coisa boa – da era Pinochet for totalmente destruído. Até aqui, nem a esquerda no poder ousou mexer em certas “vacas sagradas”.

Bachelet, ao que tudo indica, vai mesmo levar adiante seu projeto vendido durante as eleições. Se for bem-sucedida, o Chile dará alguns passos para trás, e ficará mais perto dos países bolivarianos, cuja fome estatal por impostos é insaciável. A carga tributária chilena é menor hoje, e este é justamente um dos motivos de seu relativo sucesso, entre outras coisas. Punir o capital é a forma mais rápida de aumentar a pobreza.

Rodrigo Constantino

 

CulturaPoliticamente Correto

Magneto sai do armário e acha moleza!

A esquerda fala muito em diversidade e defesa das minorias. Mas, no fundo, preza a uniformidade politicamente correta e ignora certas minorias, como a dos conservadores em determinados ambientes profissionais. Não é nada fácil se assumir conservador em alguns meios, podendo atrair para si forte preconceito e um alto custo na carreira. Em Esquerda Caviar, escrevi:

Thomas Sowell alfinetou: “Da próxima vez que alguns acadêmicos te falarem o quão importante é a diversidade, pergunte quantos Republicanos existem no seu departamento de sociologia”. Uma pesquisa realizada em 2005, apenas para efeito de ilustração, mostrou que 72% dos professores universitários americanos se consideravam de esquerda, e apenas 15% se descreviam como conservadores. O filósofo Pondé também provocou essa postura esquerdista “isenta” de preconceitos:

Hoje em dia, num mundo em que todo o mundo diz que não tem preconceito, o único preconceito aceito pelos inteligentinhos é contra a igreja: opressora, machista, medieval…

Em Hollywood, por exemplo, nenhum gay precisa de coragem para sair do armário. Eles já saíram há muito tempo, e tomaram conta do show. Já um conservador… Precisa-se de muita coragem para se assumir um conservador por lá. Eleitor do Partido Republicano, então, nem se fala. Religioso cristão ainda por cima? Aí tem de ser macho de verdade, pois corre o risco de total ostracismo e até de boicote na carreira, como mostra James Hirsen em Tales From the Left Coast. São vários casos relatados.

Mel Gibson foi um que sofreu na pele esse preconceito quando resolveu produzir o filme A paixão de Cristo. Até seu pai de 85 anos seria investigado pela patrulha, que só tolera uma opinião sobre o tema: aquela pejorativa, que retrata a crença cristã como algo ultrapassado. O ator James Caviezel, que interpretou Cristo e estava em meteórica ascensão na carreira, foi colocado na geladeira e não conseguiu mais papéis de muito destaque. É o preço por resolver adotar ao pé da letra a ideia de “diversidade”, defendida pela esquerda.

Tudo isso me veio à mente ao ler na Veja desta semana uma rápida entrevista com o ator inglês Ian McKellen. Ao ser perguntado se foi difícil “sair do armário” e se assumir gay, o ator disse que não, comprovando a tese de que, ao menos no cinema, a verdadeira “minoria” oprimida não é a dos homossexuais. O ator defende a igualdade perante as leis, uma bandeira bem liberal, e fala sobre a reação ao seu “comunicado”:

Magneto

“Ao contrário. A partir daí, minha carreira no cinema decolou”, confessa o ator. Nenhuma desvantagem, só vantagens. Que bom que tenha sido assim! O seu mérito deve ser avaliado como indivíduo, como ator, não pela inclinação sexual. E o cara, convenhamos, é Gandalf e Magneto em uma só pessoa! De quebra, também foi Ricardo III, de Shakespeare. Não é para qualquer um.

Mas eu não podia deixar de registrar aqui essa confissão do ator, que corrobora totalmente com a análise feita em meu livro, de que gays não precisam mais de coragem para “sair do armário” em muitos meios. Coragem mesmo tem que ter o ator que rejeita o esquerdismo, as verbas estatais, o discurso “progressista” e politicamente correto. Não é mesmo, Wagner Moura?

Rodrigo Constantino

Tags: Ian McKellenWagner Moura

 

Cultura

Da necessidade de estar “onde as coisas estão acontecendo”. Ou: Tudo pelas aparências!

Eu com

Eu com “minha” McLaren em busca de holofotes

Há tempos escuto falar do restaurante Prime 112 em Miami, bem no comecinho da movimentada Ocean Drive. Mas sempre que vinha aqui, desistia de ir lá conhecer a famosa boutique de carnes. O preço me assustava, confesso. Uma vez passei em frente e só vi Ferrari, Maserati e Bentley estacionados. Desta vez, porém, resolvi lutar contra meu lado mais “muquirana” (uma vez na vida, ora!) e fiz a reserva, com alguma antecedência, pois sabia que o lugar era concorrido. Só não estava preparado para aquilo

Ok, era uma sexta-feira. Mas nada explica o que eu vi ali dentro. Ou explica, como veremos adiante. Minha reserva estava marcada para às 22h, e cheguei em ponto. O local estava apinhado, completamente amontoado. Tinha gente pendurada no lustre, como diria Nelson Rodrigues. Para conseguir chegar até o rapaz da recepção, que cuidava das reservas (ou seja, o Deus todo-poderoso do lugar, bajulado por todos de forma constrangedora), tive de esperar uns 20 minutos, lutando para obter passagem, espremido entre alguns brutamontes.

Nenhuma carne pode ser tão boa assim. Esta poderia ser a primeira impressão de alguém mais desatento: a comida é tão espetacular, tão maravilhosa, tão inesquecível, que as pessoas estão dispostas a se estapear numa sexta-feira para obter o inestimável troféu, um bife de ancho ou um rib-eye inigualáveis. Eu não sou tão ingênuo. E sou leitor de Tom Wolfe…

O jornalista americano é mestre em dissecar esse tipo de fenômeno. Em Sangue nas Veias, que se passa justamente em Miami, ele retrata com perfeição o motivador psicológico desse tipo de gente, desesperada por estar “onde as coisas estão acontecendo”. Tal expressão é repetida diversas vezes no livro, pois talvez exprima com exatidão sua mensagem principal. Fala da carência, da insegurança, da extrema necessidade que alguns têm de se sentir amados, queridos e importantes.

Narcisismo. Vaidade. Somos todos vítimas em algum grau. E todos queremos nos sentir amados. No mais, quem não aprecia um lugar badalado, com gente jovem, bonita e exalando “felicidade”? Se tiver boa comida, então, melhor ainda. Longe de mim, condenar esse tipo de coisa. Deixo o discurso de asceta contra marcas, roupas de grife e consumismo para os “intelectuais” de esquerda, muitas vezes hipócritas que adoram seus iPhones ou suas bolsas da Louis Vitton, ou então invejosos que cospem no capitalismo porque outros têm mais.

Meu ponto é outro. Falo do evidente excesso. Nenhuma qualidade intrínseca de um restaurante justifica uma fila de horas, mesmo com reserva feita, numa sexta-feira. Não! Aquelas pessoas não estão lá pela comida, pelo ambiente agradável (agradável, ficar horas na fila?) ou pela qualidade do restaurante, e sim para ser vistas, para compartilhar do mesmo local das celebridades, para estar onde as coisas estão acontecendo. Tom Wolfe, brincando com o nome das celebridades, escreve sobre um de seus personagens:

Do outro lado do aposento, notou dois astros do cinema, Leon Decapito e Kanyu Reade. Sem dúvida alguma! Lean Decapito e Kanyu Reade… em carne e osso! Leon Decapito e Kanyu Reade… e eu… somos convidados no mesmo coquetel.

Essa sensação de ser um VIP, pois está na presença de celebridades, é um entorpecente e tanto. Quem não fica um pouquinho só mexido por estar perto de uma pessoa mundialmente famosa? Ser visto por outros perto de gente assim, curtindo o mesmo local, mostrando-se cool, in, uma pessoa antenada na última moda, eis o desejo de muitos. Vale tudo pelas aparências…

Não vou negar que a vida exige um pouco de semblante, que genuinidade plena talvez nem seja algo possível. Se as pessoas conhecessem cada pensamento íntimo nosso, ninguém teria amigos ou esposas. Mas daí a transformar a vida toda num grande baile de máscaras, vai uma longa distância. E como deve ser cansativo!

A busca por prazeres genuínos é fundamental, em minha opinião. E tenho sérias dúvidas se aqueles bonecos e bonecas, todos arrumados em cada detalhe para expressar o quão “descolados” são, desfilando com seus carrões ou mini-saias e saltos-altos, estavam efetivamente felizes. Meu rápido estudo “antropológico” diz outra coisa. Ao observar aquela gente toda, com uma postura um tanto artificial, tive a impressão de que estava no museu Madame Toussaud.

Fui embora após minha breve “pesquisa de campo”, para um restaurante mais discreto, mais barato, e com ótima comida, onde as pessoas estavam mais preocupadas com suas próprias conversas em suas respectivas mesas do que com quem famoso chegou agora naquela outra Ferrari. Deixei para conhecer o famoso restaurante em outra ocasião, de preferência em uma segunda-feira mais mortinha…

Rodrigo Constantino

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Blog Rodrigo Constantino (VEJA)

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