Datafolha: cai a diferença entre Marina e Dilma no segundo turno, mas candidata do PSB resiste à artilharia

Publicado em 11/09/2014 00:08 e atualizado em 11/09/2014 20:40 1112 exibições
por Reinaldo Azevedo, de veja.com + Rodrigo Constantino e Augusto Nunes

Datafolha: cai a diferença entre Marina e Dilma no segundo turno, mas candidata do PSB resiste à artilharia

O Jornal Nacional divulgou há pouco o resultado da mais recente pesquisa Datafolha. Se a eleição fosse hoje, a petista Dilma Rousseff chegaria a 36% dos votos no 1º turno, contra 33% de Marina Silva, do PSB. Aécio Neves, do PSDB, variou de 14% para 15%. Os demais candidatos somam 3%. Dizem que votarão em branco ou nulo 6% dos entrevistados; outros 7% afirmam não saber ainda. Nas pesquisas anteriores do instituto, dos dias 18/08, 29/08 e 3/09, a petista tinha, respectivamente, 36%, 34% e 35%; a peessebista, 21%, 34% e 34%, e o tucano, 20%, 15% e 14%. As variações em relação à semana passada estão dentro da margem de erro, que é de dois pontos para mais ou para menos. O Datafolha ouviu 10.568 eleitores em 373 municípios nos dias 8 e 9 de setembro. A pesquisa está registrada no TSE sob o número BR-584/2014. Os gráficos abaixo foram públicos pelo Portal G1.

presidencial 1º turno

A diferença no segundo turno também variou dentro da margem, mas em favor de Dilma. Marina, é bem possível, venceria a disputa hoje. Ela aparece agora com 47% — há uma semana, 48%. Dilma, que tinha 41%, exibe 43%. A diferença pró-Marina voltou a ser de 4 pontos, a mesma do dia 18 de agosto. Mas já chegou a ser de 10 pontos, no dia 29 do mês passado (50% a 40%); passou a ser de 7 (48% a 41%) no dia 3 de setembro e, agora, é de 4. O Datafolha também simulou outras hipóteses: Marina venceria Aécio por 54% a 30%; o tucano perderia para a petista por 49% a 38%.

presidencial 2º turno

É claro que Dilma melhorou um pouco em relação à pesquisa anterior. Considerados os três últimos levantamentos, a peessebista murcha um pouco, e a petista cresce o mesmo tanto. Mas, se querem saber, Marina está resistindo mais do que muitos esperavam. Observem que a artilharia contra ela é pesada. Vem enfrentando críticas duras de Aécio, por exemplo, mas não uma guerra aberta. No caso do PT, tenta-se mesmo uma ação de extermínio. São 11 minutos da televisão contra 2, mais o peso da máquina. Num eventual 2º turno, é bom lembrar, as duas terão o mesmo tempo na TV, diariamente.

Vejam outro gráfico.

rejeição

Quando se analisa a rejeição, percebe-se que os números de Dilma seguem estáveis e que os de Marina cresceram sete pontos desde o dia 15 de agosto, passando de 11%, então, para 18% — há sete dias, era de 16%. Em relação à semana passada, a de Dilma oscilou de 32% para 33%, e a de Aécio, de 21% para 23%..

A avaliação do governo Dilma segue estável. Os números não variaram em uma semana: 36% o consideram ótimo ou bom; 38% dizem que é regular, e 24% o apontam como ruim ou péssimo.

avaliação do governo

Há duas semanas, as pesquisas trouxeram a ascensão meteórica de Marina. O PT pode se dar por satisfeito por tê-la contido, abalando-a até. Mas não há dúvida de que a candidata do PSB está demonstrando uma resistência que seus adversários certamente não esperavam.

Por Reinaldo Azevedo

Marina lidera em 2 dos 3 estados com o maior número de eleitores

Datafolha nos Estados

O Datafolha também divulgou os dados da pesquisa presidencial em alguns Estados. Marina obtém seus melhores resultados em Pernambuco, com 45% dos votos. Em seguida, está o Distrito Federal, com 43%; depois, vem São Paulo, com 40%, e Rio, com 36%. A sua média nacional é 33%. Em Minas, ela fica abaixo disso: 25%. Veja gráfico acima, publicado pelo G1.

A média de Dilma é 36%. Nesse grupo de Estados, o único em que ela a ultrapassa é Pernambuco, com 38%. Exceção feita a Minas, onde tem 33%, a petista perde para a peessebista em todos os outros, mas ganha do tucano: 26% em São Paulo, 30% no Rio e 22% no Distrito Federal.

Aécio obtém uma média nacional de 15%. Nesse grupo, a sua melhor marca está em Minas, com 26%. Obtém 16% em São Paulo e 17% no Distrito Federal. Em Pernambuco, atinge apenas 2%.

Para Marina, é vital manter o excelente desempenho em São Paulo, que tem o maior eleitorado do país, com 31.998.432 eleitores e segurar a liderança no Rio, com 12.141.145 votantes. O segundo é Minas, com 15.248.681. Se estiverem certos os números, parte das dificuldades de Aécio se explica pelo mau desempenho no Estado que, esperava-se, fosse lhe dar uma folgada maioria. E caminhava para isso não tivesse aparecido uma Marina no meio do caminho.

Minas deu folgada maioria ao PT nas eleições de 2002, 2006 e 2010. Desta feita, o partido conta com apenas um terço do eleitorado. Ocorre que 25% migraram para Marina, não para a candidatura tucana.

Por Reinaldo Azevedo

PT mantém as esperanças numa Minas ainda muito indecisa; no Paraná, onde uma estrela petista naufraga, o tucano Richa venceria no 1º turno

O Datafolha também realizou pesquisa em Minas. Havia a expectativa de que o tucano Pimenta da Veiga houvesse reagido. Segundo o instituto, isso não aconteceu, e a coisa pode até ter piorado um pouco. Se a eleição fosse hoje, Pimenta teria 23% — há uma semana, 24%. O petista Fernando Pimentel obteria 34% (antes, 32%). Tarcísio Delgado fica em 3%. Os demais candidatos somam 6%. O que chama a atenção no Estado é o número alto de indecisos: 26%; dizem que vão votar em branco ou nulo outros 9%. Na prática, 35% ainda estão sem candidato. Embora os números continuem ruins para o tucano, a eleição não pode ser considerada decidida.

Numa simulação de segundo turno, o petista venceria o tucano por boa margem: 42% a 29%. Também nesse caso, no entanto, o número dos sem-candidato é grande: 9% dizem que votaram em branco ou anulariam; enormes 20%, no entanto, afirmam que ainda não escolheram seu candidato. Os dois que lideram a disputa estão entre aqueles com a menor rejeição: apenas 9% para Pimentel e 12% para Pimenta — mais um indício de que tudo pode acontecer. A pesquisa foi realizada entre os dias 8 e 9 de setembro, e foram entrevistados 1.295 eleitores. A margem de erro é de três pontos percentuais para mais ou para menos. Está registrada no TRE sob o número 80/2014.

Paraná
Se, em Minas, o PSDB corre o risco de passar o bastão para o PT, no Paraná, a situação do tucano Beto Richa é folgada. Segundo o Datafolha, se a disputa fosse hoje, ele seria reeleito no primeiro turno, com 44% dos votos. No dia 15 de agosto, tinha 39%. Roberto Requião, do PMDB, caiu de 33% para 28%, e Gleisi Hoffmann, do PT, oscilou de 11% para 10%. Votariam em branco ou nulo 8%, e 6% dizem não saber. A pesquisa foi realizada entre os dias 8 e 9 de setembro. Foram entrevistados 1.201 eleitores em 46 municípios do estado. A margem de erro é de três pontos percentuais, para mais ou para menos. A pesquisa está registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o número BR-584/2014.

Embora Richa vencesse no primeiro turno, há uma simulação de segundo: Richa, com rejeição de apenas 16%, venceria Requião, com rejeição de 27%, por 53% a 33%. O Paraná é mais um estado em que uma estrela petista naufraga espetacularmente: a ex-ministra da Casa Civil Gleisi Hoffmann.

Por Reinaldo Azevedo

No Rio, dos males, o menor, ainda que na forma de um aumentativo; a enormidade estava no diminutivo

O Datafolha confirma a virada do governador Luiz Fernando Pezão (PMDB), no Rio. Ele já empatou com Anthony Garotinho, do PR, no primeiro turno: ambos aparecem com 25%. Marcelo Crivella, do PRB, tem 19%. O petista Lindbergh Farias tem apenas 12%. Os demais candidatos somam 3%. Votariam em branco ou nulo 10%, e 6% dizem não saber. Veja gráfico.

gráficos rio

A rejeição a Garotinho elegeria qualquer um que disputasse com ele. Veja,

Gráficos Rio Rejeição

Em pouco mais de duas semanas, o percentual dos que não votariam de jeito nenhum no candidato do PR passou de 44% para 46%. Lindbergh, petista no qual Lula apostava suas fichas, tem de rejeição mais do que o dobro do que tem de votos: 25%. A de Pezão foi de 17% para 19%, e a de Crivella cresceu de 14% para 20%. A margem de erro da pesquisa é de três pontos para mais ou para menos. A pesquisa foi realizada entre os dias 8 e 9 de setembro com 1.348 eleitores em 32 cidades do Estado do Rio e está registrada no TSE sob o número BR-584/2014.

Garotinho é, já afirmei aqui, o adversário dos sonhos de qualquer um que dispute o segundo turno. Tanto Crivella como Pezão o venceriam com folga. Contra o primeiro, o placar contra ele seria de 45% a 33%; contra Pezão, de 47% a 35%.

Graficos Rio 2º Crivella

Gráficos Rio 2º Pezão

Já escrevi neste blog, comentando a pesquisa Ibope, que o quadro no Rio é tão dramático que só resta dizer: dos males, o menor, ainda que venha na forma de um aumentativo, já que o que vem do diminutivo é uma enormidade, não é mesmo? Repito aqui parte de um estranhamento… nada estranho. Tudo caminha, no Rio, para uma vitória de Pezão. Para quem confunde protestos de minorias extremistas com vontade popular, o resultado pode ser surpreendente. De fato, não é. Vamos ver. Sérgio Cabral deixou o governo debaixo de vara, com uma das rejeições mais altas do país. Parecia que as “Sininhos” da vida representavam a vontade do povo fluminense. Como se vê, nada mais falso.

O mais à esquerda dos candidatos, Lindbergh, “já” está com 9% no Ibope e com 12% no Datafolha. Se formos somar o campo, digamos, mais conservador (sem debater a qualidade desse conservadorismo), chegamos a 68% dos votos no caso do Ibope e 69% no do Datafolha.

E se destaque, mais uma vez, o retumbante desastre do petista, a segunda maior aposta de Lula nas disputas estaduais. A primeira era Alexandre Padilha, em São Paulo. Eis o verdadeiro tamanho dos “revolucionários” do Rio: nos números do Datafolha, conservadores 69% x esquerdistas 14%. Esses 14% representam mais ou menos o tamanho dos “progressistas” abastados que cultivam o socialismo da Viera Souto.

Por Reinaldo Azevedo

Datafolha também dá vitória a Alckmin no 1º turno; um poste venceria Padilha em SP

O Datafolha divulgou o resultado da pesquisa eleitoral em São Paulo. Se a disputa fosse hoje, o tucano Geraldo Alckmin venceria no primeiro turno com 49% das intenções de voto; na pesquisa anterior do instituto, há uma semana, ele tinha 53%. O peemedebista Paulo Skaf segue com 22%, e o petista Alexandre Padilha passou de 7% para 9%. Os demais somam 2%. Segundo o instituto, Alckmin venceria com 16 pontos de vantagem sobre a soma dos adversários. Brancos e nulos são 8%. Dizem não saber em quem votar 9%. A margem de erro é de dois pontos para mais ou para menos. O Datafolha ouviu 2.046 eleitores entre os dias 8 e 9 em 56 municípios. A pesquisa está registrada no TSE sob o número BR-584/2014. Em relação ao Ibope, divulgado ontem, há uma divergência importante apenas no que diz respeito a Skaf, que aparece com 18%. Nesse instituto, Alckmin tem 48%, e Padilha, 7%.

O que chama a atenção nesse levantamento do Datafolha é a rejeição ao petista Alexandre Padilha, que chega a 36%. O PT, definitivamente, vai mal no Estado. Não duvidem de que a gestão Fernando Haddad na Prefeitura da Capital tem um peso enorme. Mais alguns quilômetros de “faixismo” ciclomaníaco, e Padilha atingirá 40%. Skaf é rejeitado por 25%, e Alckmin, por 20%.

Mesmo com a vitória de Alckmin no primeiro turno, o Datafolha simulou um segundo. O tucano venceria o peemedebista por 58% a 30%, com 28 pontos de vantagem. No Ibope, a distância é de 27: 53% a 26%. A gestão do governador segue bem avaliada: 46% a consideram “ótima ou boa”; 38% dizem que é regular, e apenas 13% a apontam como ruim ou péssima.

Lula já se orgulhou de eleger postes. Chegou a dizer, por ocasião da vitória de Fernando Haddad, que, de poste em poste, ele iluminaria o país. Pois é… Parece que isso acabou. Hoje, tudo indica, um poste derrotaria Padilha.

Por Reinaldo Azevedo

O PSDB, Marina, Dilma e a neobabaquice

O presidenciável tucano Aécio Neves afirmou que, caso não se eleja presidente da República, o PSDB será oposição ao próximo governo. Está admitindo a derrota? Não. Está sendo realista. Aécio disputa a Presidência, mas também é presidente do PSDB, e só um lunático não admitiria que a situação é bastante difícil. Está anunciando uma postura intransigente? Não! Está sendo apenas lógico. Vamos ver.

Não sendo ele o presidente, será Dilma Rousseff ou Marina Silva. No primeiro caso, como é dado, as posições são inconciliáveis. Existe uma neobabaquice em curso, que expressa ódio à democracia, segundo a qual as posições inelutavelmente inconciliáveis entre PSDB e PT fariam mal ao país. Uma ova! No mundo inteiro, a democracia é bipartidária, pra começo de conversa, sem trânsfugas. Isso é papo furado, de um lado, de supostos ultraliberais — que confundem economia de mercado com economia de supermercado — e, de outro, da extrema esquerda sociopata. Não se trata de dois extremos que se encontram. Dois extremos nunca se encontram. Eles apenas existem fora da realidade, cada um a seu modo.

Juntar PSDB e PT como? Há dias, Dilma Rousseff afirmou que o Brasil, sob FHC, estava pior do que a Argentina sob Cristina Kirchner. Se o Deus do Velho Testamento fosse ainda tão rigoroso como soía, teria fulminado a governanta com um raio. Juntar PSDB e PT é sonho de quem acha que pode unir Israel com o Hamas, entenderam? Claro! Sempre há os delinquentes intelectuais que sonham pôr fim ao Hamas e… a Israel!

E com Marina? Bem, a mulher anuncia que governará acima dos partidos e que legendas não terão a menor importância no seu governo. Logo… Segundo Walter Feldman em conversa com lojistas dos Jardins, no caso de vitória de Marina, o destino do PSDB é o fim. Diante disso, dizer o quê? Na conversa com os investidores do Bank of America, os “vocalizadores” de Marina repetiram a mesma cascata e acenaram até com um tal “Comitê de Busca dos Homens de Bem”. É um delírio sem par na história da República.

Logo, antes que Aécio anunciasse que o PSDB será oposição a um eventual governo Marina, Marina anunciou que o PSDB será oposição a seu eventual governo — desde, claro, que queria se comportar como partido. Na mesma reunião, Beto Albuquerque demonstrou a confiança de que a peessebista atrairia o baixo clero, que sempre pende para quem vence. Assim, sem a colaboração dos partidos, anunciam que farão a reforma política, tributária, fiscal e do Estado. Além, claro, de melhorar os serviços públicos, a saúde e a educação.

Reitero: para que cheguemos ao Paraíso, só faltam a cobra e a maçã.

Por Reinaldo Azevedo

Contra os antediluvianos de iPad nas mãos

Livro não é a mamãe

Vivemos imersos nos fatos. No mais das vezes, não temos plena consciência do que está à nossa volta. Eis a importância do narrador, do cronista, do moralista, do pensador. Ele não produz objetos de consumo, mas objetos de consciência: liga os fatos aparentemente desconexos, confere ao tempo uma unidade que ilumina a nossa trajetória e a dos outros. Por que isso tudo?

Porque considero obrigatória a leitura do livro “Não é a Mamãe”, do jornalista Guilherme Fiuza, que reúne cem textos que ele escreveu para a revista “Época” e para o jornal “O Globo”. Vocês vivem aqui me pedindo dicas de livros, não é isso? Daqui a pouco, vem o fim do ano, com seus inevitáveis e, espera-se, agradáveis presentes. Ofereça a seus amigos e a quem você ama um pouco mais de clareza. Fiuza — antes de tudo, um escritor competente — faz o mais preciso e, em certa medida, devastador retrato dos quatro anos de governo Dilma. Devastador, nesse caso, não é “depredador”. Depreda quem pensa sem método. Fiuza demole falácias com argumentos.

O livro, primorosamente editado pela Record, é, a um só tempo, um guia saboroso e seguro para entender o que está em curso e, se querem saber, o que virá. “Não é a Mamãe”, desde o título, nos dá o entendimento de presente.

“Não é a Mamãe”, lembrem os mais maduros e saibam os mais jovens, era o bordão do bebê da família Dinossauro. Dilma nos foi oferecida como a mãe do Brasil por Lula, que pretendia ser o pai. Lula e dinossauros se estreitam num abraço insano. Não! Ela não é a mamãe, mas a madrasta má do nosso futuro. Na realidade, afinal, não existe sapatinho de cristal. Se o governo queima os ativos dos brasileiros, terminamos nas cinzas, no borralho.

Olhem para Guido Mantega, por exemplo, o ex-ministro no cargo, situação inédita no mundo. E leiam o que vai no livro de Fiuza. Permito-me reproduzir um trecho:

“Quem estava preocupado com a inflação pode ficar tranquilo. (…) Diante da notícia de que o Índice de Preços ao Consumidor Amplo tinha ultrapassado o teto da meta – batendo em 6,51% ao ano em abril, contra o teto de 6,5% –, Mantega explicou que não é nada disso. Segundo o ministro, a aferição da meta não considera a segunda casa depois da vírgula. Estamos salvos. (…) Melhor olhar só para a primeira casa, onde a moral e os bons costumes monetários estão intactos. Ali não se veem a orgia dos gastos públicos no governo popular, a farra do crédito populista e os subsídios mascarados do Tesouro jorrando dinheiro na praça e fustigando a inflação. Essas cenas explícitas de administração perdulária só são visíveis para quem espiar pela fresta da segunda casa depois da vírgula.”

Texto primoroso, ironia fina. Fiuza não é só um bom cronista da desordem mental que marcou o governo Dilma na economia. O nosso Suetônio contemporâneo também é um agudo observador dos costumes destes tempos, em que patrulheiros antediluvianos saem de iPad nas patas a vituperar contra o capitalismo e o mercado. Enquanto, é claro, para lembrar Fernando Pessoa desancando Rousseau, o bestalhão, “mordomos invisíveis administram-lhe a casa”.

Faça um bem a si mesmo, leitor, e a seus amigos. Vá à livraria mais próxima e compre “Não é a Mamãe’, de Guilherme Fiuza. O silêncio covarde com que o livro foi recebido por veículos de comunicação assustados, esperando Godot, é a prova da sua importância política. Ler “Não é a Mamãe” é um ato de resistência contra a empulhação.

Por Reinaldo Azevedo

EXCLUSIVO – O que os vocalizadores de Marina — que hostilizou os bancos na terça — disseram ao Bank of America na segunda. Ou: Um certo “Comitê de Busca dos Homens de Bem”

Ai, ai… Vamos lá, seguindo sempre a máxima de Voltaire, segundo a qual o segredo de aborrecer é dizer tudo. Nesta segunda, as candidatas Dilma Rousseff, do PT, e Marina Silva, do PSB, passaram o dia tentando saber quem gostava menos de banqueiros e de bancos. Era o confronto de dois discursos do fingimento.

O PT, a partir de 2003, viveu uma verdadeira lua de mel com o setor — interrompida pelo atual governo — não por ideologia, mas por incompetência mesmo. Dilma, é evidente, não tem moral para chamar Marina de “candidata dos bancos”, moral que também falta a Marina para acusar Dilma de beneficiária da “bolsa banqueiro”.

A petista mandou seu recado aos companheiros do mercado financeiro anunciando a demissão de Guido Mantega caso seja reeleita — de fato, demitido ele já está agora. E Marina, mais do que recado, mandou foi uma equipe de emissários para “explicar” seu programa de governo a mais de 500 clientes do Bank of America Merrill Lynch (BofA). O encontro ocorreu anteontem, dia 8, num hotel de São Paulo.

Esperem! Usei a palavra “emissários”? Em “marinês”, não é assim que se fala: eles são “vocalizadores”. Foram falar aos “sagazes brichotes”, como os chamaria o poeta Gregório de Matos no século 17, os seguintes “vocalizadores”: Walter Feldman, João Paulo Capobianco; André Lara Resende; Maurício Rands; Beto Albuquerque e Basileo Margarido.

Este blog teve acesso a uma síntese do que se disse lá. Trata-se, sem dúvida, de um troço bem “sonhático”, o neologismo com que Marina pretende conciliar sonho e pragmatismo. Alguém quis saber sobre o compromisso anunciado pela candidata com inflação e juros baixos. Coube a Lara Resende responder. Inflação, disse, é um sintoma. E começará a ser atacada pela parte fiscal para forçar a queda dos juros. Tá. E os preços administrados represados? Ele respondeu que é um absurdo o estímulo aos combustíveis fósseis. Os que o ouviram saíram de lá com a impressão de que ele defende um tarifaço de cara para retomar a credibilidade…

Os “vocalizadores” de Marina também acham que o câmbio está valorizado de maneira artificial, e se supõe, então, que a turma pretenda trabalhar com um dólar mais forte e um real mais fraco. Não se sabe se o mesmo discurso seria empregado com empresários do setor produtivo ligados à exportação, por exemplo. Este tenderia a ficar assustado.

Os “sonháticos” acreditam que a reforma política é a “mãe” de todas as reformas, mas pretendem começar com a tributária, que simplifique a área, o que seria feito aos poucos, de forma fatiada. Eles também declararam a sua adesão incondicional ao tripé macroeconômico: metas fiscais, de inflação e câmbio flutuante.

No primeiro ano, eles dizem, a meta de inflação poderia ser um pouco maior do que os 4,5%, mas sempre declinante. O empresariado seria ainda convocado para uma espécie de mutirão da infraestrutura, e a categoria deixaria de ser “tratada como bandida”. Falou-se até em rever a postura “perversa e autoritária” da Receita Federal. Ah, sim: como eles gostam duma reunião, seria criado um “Conselho de Responsabilidade Fiscal”, com vários setores da sociedade.

E na política?

Bem, nessa área o bicho pega, e a coisa vai ficando nebulosa, mas todos já estavam encantados com as promessas na área econômica. O negócio é o seguinte: os “sonháticos” acreditam que a vitória de Marina vai acarretar uma profunda reestruturação partidária no país. Não! Ela não estaria preocupada nem com o PSB nem com a Rede. Apelaria, para usar uma expressão lá empregada, a um “banco de reservas” do PT, do PSDB e de outros partidos. Querem fazer uma reforma política com unificação das eleições, mandatos de cinco anos e fim da reeleição para cargos executivos.

Comitê de Busca dos Homens de Bem
Afinal, eles asseguram, na “nova política”, as ferramentas são as mesmas, mas o jeito é outro. Os “vocalizadores” indagaram por que não poderiam escolher os quadros pelo currículo, em vez de falar com o Sarney. Para isso, pretendem criar um tal “Comitê de Busca dos Homens de Bem”, expressão que foi empregada pela própria Marina na sua visita a Minas, nesta segunda. Isso seria sair da “democracia 1.0 para a democracia 2.0”.

A turma quer fazer as reformas política, tributária, fiscal, da Previdência e do Estado. Mas com que Congresso? Feldman assegurou que diversos parlamentares já procuram os “marineiros” em nome dessa relação programática e que será criada uma frente suprapartidária. Talvez não se dando conta exatamente do que falava, Beto Albuquerque, o candidato a vice, lembrou que o “baixo clero” sempre se aproxima de quem vence… Nem diga!

No mais, darão, sim, importância ao pré-sal; saberão compatibilizar ambientalismo com agronegócio; pretendem fixar metas para cada área; querem um estado como protagonista da saúde, educação e segurança — para o resto, contam com a iniciativa privada —; educação pública em tempo integral e melhoria do SUS, com correção das ineficiências. Nesse paraíso, só ficam faltando, como se vê, a cobra e a maçã. Ou será que não?

Todos saíram de lá muito impressionados e achando que Marina, se eleita, será “pró-business”. Houve quem afirmasse que a conversa lembra, assim, uma “Terceira Via” à moda Tony Blair: amigo dos mercados, mas com um sotaque social.

É… Em 1997, Blair pôs fim a 18 anos de governo conservador na Grã-Bretanha. Em 1995, na liderança do Partido Trabalhista, ele fez mudar o conteúdo da famosa Cláusula IV, que havia sido redigida em 1917, ano da Revolução Russa, e que compunha o programa do partido desde 1918. Se vocês clicarem aqui, terão acesso às duas versões. A original afirmava que os operários só seriam donos de seu trabalho e dele poderiam usufruir plenamente com o fim da propriedade privada. Isso acabou.

Ou por outra: Blair mudou o programa do partido, fortaleceu-o, disputou eleições e venceu. Do outro lado, estavam os conservadores não menos fortes e organizados. O plano de Marina, como a gente vê, também expressa uma conversão aos valores de mercado — e isso é bom! —, mas os seus “vocalizadores” dizem que ela vai governar com os bons, apelando a um Comitê de Busca dos Homens de Bem e apostando numa profunda reorganização partidária. Pretende, assim, fazer aquela penca de reformas.

Eu, que sou apenas um ucraniano preocupado, pergunto: alguém já combinou com os russos?

Por Reinaldo Azevedo

PT: o partido dos banqueiros. Ou: Dilma acusa Marina daquilo que faz

Em época de eleição, os banqueiros viram os grandes párias da nação, responsáveis por todos os males que nos assolam. Não falo apenas de uma Luciana Genro da vida, com discurso caricato da esquerda radical acusando o “capital financeiro” como se fosse um Hitler. Falo das principais candidatas mesmo.

Dilma e Marina resolveram trocar farpas para ver quem é a mais camarada dos grandes bancos. A presidente disparou que Marina seria a “candidata dos banqueiros”, fazendo alusão ao fato de que conta com o apoio de Neca Setubal, acionista do Itaú, e também ao seu programa de governo que prega autonomia do Banco Central, como se isso fosse interesse apenas dos grandes bancos, e não do povo brasileiro como um todo.

O PT é mesmo muito cara de pau. Acusa os adversários, que trata como inimigos, daquilo que faz. Marina rebateu que foi a própria Dilma quem recebeu mais financiamento de campanha dos bancos, e acusou de “autoritária” sua visão sobre autonomia do Banco Central.

Quando Dilma diz que não tem banqueiro a apoiando, portanto, mente. O PT em geral e Dilma em particular têm sido como pai e mãe para os bancos. Quando o Banco Votorantim teve dificuldades financeiras por operações equivocadas na área de câmbio, por exemplo, o governo usou o Banco do Brasil para socorrê-lo. Quem defende os banqueiros?

O Santander, cujo presidente faleceu hoje, tinha relação extremamente próxima (ou promíscua) com o governo, Emilio Botín era amigo pessoal de Lula, e o banco espanhol tinha na Petrobras um grande cliente. Seu economista-chefe Alexandre Schwartsman chegou a ser demitido quando ousou criticar o então presidente da estatal em evento público.

A história se repetiu depois. Quando analistas do banco ousaram relatar um fato aos clientes, sobre a alta das bolsas sempre que Dilma caía nas pesquisas, o próprio Botín pediu desculpas em público e demitiu os envolvidos, para não ficar mal com o governo. Amigos ou inimigos?

O Banco BTG Pactual, de André Esteves, fez um “negócio da China” com a Caixa no Banco Panamericano, em uma operação que levantou muitas suspeitas na época. O BTG Pactual jádoou R$ 3,25 milhões, enquanto duas empresas do grupo doaram outros R$ 3,25 milhões, para a campanha de Dilma até agora.

Em relação ao lucro dos dois maiores bancos privados do país, podemos ver que não têm do que reclamar também. Enquanto a economia caminhava rumo à recessão, o lucro do Itaú e do Bradesco disparava:

Fonte: Bloomberg

Fonte: Bloomberg

Fonte: Bloomberg

Fonte: Bloomberg

Notem que mesmo a partir de 2010, quando Dilma assumiu o poder, o lucro dos bancos subiu bem, enquanto a indústria, por exemplo, amarga uma crise sem precedentes. O próprio ex-presidente Lula já reclamou das críticas dos banqueiros, alegando que deveriam estar felizes, pois “nunca antes na história deste país” os bancos ganharam tanto dinheiro.

Logo, fica claro para todos que o PT apenas mente, tenta uma vez mais enganar a população ignorante, usar sua máquina de propaganda enganosa para associar os demais candidatos aos banqueiros “leprosos”, em um país que ainda acredita que bancos apenas exploram de forma parasitária o povo, que deveria ser protegido pelo estado benevolente. É tudo muito absurdo. Mas isso é o PT…

Rodrigo Constantino

PT: o partido amigo dos banqueiros e inimigo das estatais

Já mostrei aqui que o PT mente ao acusar Marina de ser a “candidata dos banqueiros”, uma vez que o próprio PT tem sido um grande pai para os maiores bancos brasileiros. Agora pretendo demonstrar que, além de ser o melhor amigo dos bancos, o PT é também o pior inimigo das estatais, prejudicando milhares de acionistas minoritários e os milhões de brasileiros sócios dessas empresas por meio da União.

Vejam, por exemplo, o desempenho relativo entre as ações do banco Itaú e as da estatal Petrobras desde o começo do mandato de Dilma:

Fonte: Bloomberg

Fonte: Bloomberg

Houve uma valorização relativa de quase 80% a favor do banco até março deste ano. A partir de então, as ações da estatal se recuperaram um pouco, justamente porque aumentaram as chances de Dilma perder as eleições. Ou seja, os investidores do Brasil e do mundo sabem que Dilma maltrata as estatais, mas não os bancos.

A história se repete, até com mais hiato ainda, quando comparamos o Bradesco com a Eletrobras, que foi massacrada no mercado pelas trapalhadas do governo:

Fonte: Bloomberg

Fonte: Bloomberg

As ações da Eletrobras chegaram a cair quase 75% durante a gestão de Dilma, que fora ministra de Minas e Energia, não custa lembrar. Recuperaram-se parcialmente devido às pesquisas eleitorais, que apontam probabilidade maior de derrota do PT, e acumulam queda de cerca de 60% durante o governo Dilma. Enquanto isso, o Bradesco se valorizou quase 40%.

Em suma, Dilma não é a mamãe, segundo Guilherme Fiuza, mas os banqueiros talvez discordem. Já para as “nossas” estatais, que além de frequentarem mais as páginas policiais do que econômicas, perderam bastante valor nos últimos anos, Dilma poderia muito bem ser a típica madrasta dos contos infantis…

Rodrigo Constantino

Tags:
Fonte:
Blogs de veja.com.br

RECEBA NOSSAS NOTÍCIAS DE DESTAQUE NO SEU E-MAIL CADASTRE-SE NA NOSSA NEWSLETTER

0 comentário