Recordar é viver: pronunciamento de Collor na véspera do impeachment...

Publicado em 18/11/2014 14:39 1018 exibições
por Rodrigo Constantino, de veja.com

Recordar é viver: pronunciamento de Collor na véspera do impeachment

Direto do túnel do tempo, esse pronunciamento do ex-presidente Collor, aliado atual de Dilma, pouco antes do impeachment que sofreu, merece ser visto na íntegra. Nele consta a vitimização típica dos políticos pegos com a boca na botija.

E outra coisa que chama a atenção: Collor caiu por acusações que hoje parecem brincadeira perto dos escândalos do governo Dilma. É como comparar o roubo de uma galinha com a máfia italiana. A venda de um apartamento? Obras na “Casa da Dinda”? Um carro? Agora falamos em bilhões desviados da maior estatal do país como se fossem troco. O PT banalizou a corrupção no Brasil. Vejam:

A palavra impeachment, acredito, assombrará o governo Dilma por algum tempo. Ainda é cedo, pois as investigações precisam evoluir e deixar claro até que ponto houve envolvimento da própria presidente ou sua campanha se beneficiou do esquema montado para desvio de recursos da estatal. Como diz Merval Pereira em sua coluna hoje, porém, falar em impeachment pode ser precipitado, mas não é golpismo:

As manifestações a favor do impeachment da presidente Dilma Rousseff, sejam nas ruas, sejam de políticos oposicionistas ou de meios de comunicação, podem ser precipitadas, inconvenientes politicamente, mas nunca golpistas, como defensores do governo as rotulam na expectativa de reduzir o seu ímpeto. Nada tem a ver, pois, com pedidos de intervenção militar, esses sim vindos de uma minoria golpista.

A razão da demanda existe pelo menos em tese, seria a indicação, feita pelo doleiro Alberto Yousseff, de que a campanha de 2010 foi financiada por dinheiro do petrolão. E ainda está para ser aprovada a prestação de contas da campanha deste ano, que até segunda ordem será analisada no TSE pelo ministro Gilmar Mendes. 

Ou ainda um crime de responsabilidade por não ter a presidente impedido o uso da Petrobras para financiamentos de sua base política, ou ter compactuado com esse esquema, durante o período em que foi a principal responsável pela área de energia.

Um leitor preparou a seguinte sequência de capas da revista Veja:

capasVeja

 

Para o bem de nossa democracia, espera-se que as instituições funcionem de forma independente contra a impunidade. Aqueles que falam em golpismo e não desejam investigações jogam contra o Brasil, mostram-se coniventes com a quadrilha instalada dentro do governo, são cúmplices. Mesmo que fosse verdade que o PT fez muito pelo social, o que não é, isso jamais justificaria fechar os olhos para os escândalos de corrupção. O país avança quando corruptos vão presos.

Se ficar comprovado o envolvimento, direto ou indireto, da própria presidente no Petrolão, então o impeachement poderá se tornar realidade sim. E não custa lembrar de como os petistas defenderam essa medida quando era Collor o alvo. Inclusive o ex-presidente Lula…

Rodrigo Constantino

 

A destruição das estatais brasileiras

A presidente Dilma, em sua única empreitada na iniciativa privada, levou à falência uma loja de bugigangas. Não obstante, foi vista por muitos como uma eficiente gestora, sabe-se lá o motivo. Com uma arrogância ímpar, típica dos que se julgam mais sábios do que realmente são, resolveu intervir de forma arbitrária nos importantes setores da economia, e em nossas estatais. Qual foi o resultado?

Em uma palavra: terrível. O setor elétrico vive um verdadeiro caos, e o rombo do voluntarismo da presidente já passa de R$ 100 bilhões, conta a ser paga pelos “contribuintes” e consumidores. Na Petrobras não foi diferente: a empresa vive seu inferno astral, mas a desgraça não foi produzida por astros, e sim pela péssima gestão politizada.

O efeito disso é claro: enquanto a dívida dessas duas mais importantes estatais brasileiras só faz aumentar, o valor de mercado só faz cair. Ou seja, as nossas empresas valem cada vez menos, mas devem cada vez mais. Uma situação complicada, que eventualmente poderá levar ao mesmo destino da loja de Dilma: a insolvência. Vejam o assustador quadro da dívida líquida em relação ao valor de mercado:

Fonte: Bloomberg

Fonte: Bloomberg

Fonte: Bloomberg

Fonte: Bloomberg

Como fica claro, essas duas importantes estatais caminham rumo ao abismo financeiro. Os investidores do mundo todo recusam suas ações, ou aceitam comprá-las apenas com muito desconto, antecipando um futuro sombrio para elas. Enquanto isso, a dívida vai se acumulando nos balanços. A velocidade com a qual ocorreu tal deterioração é impressionante.

Em poucos anos o governo Dilma conseguiu praticamente destruir duas gigantes, fazendo derreter bilhões em valor de nossos ativos. Com uma inflação rodando acima de 6% ao ano, o valor nominal dessas duas estatais está perto das mínimas históricas, como podemos ver:

Fonte: Bloomberg

Fonte: Bloomberg

Fonte: Bloomberg

Fonte: Bloomberg

E pensar que a maioria dos eleitores (votos válidos) deu mais quatro anos para Dilma “governar” o Brasil. O que acontecerá com nossas estatais nesse período? Será que a Petrobras aguenta? Será que a Eletrobras sobrevive? Quem viver, verá…

Rodrigo Constantino

 

A destruição das nossas estatais – Parte 2

Comentei aqui sobre a destruição de nossas duas principais estatais. Outra forma de ver o mesmo fenômeno é comparar o valor de mercado das estatais quando Dilma assumiu e hoje, levando em conta o que aconteceu com as principais empresas privadas negociadas em bolsa. O resultado é impressionante:

Fonte: Bloomberg

Fonte: Bloomberg

Em outras palavras, as três maiores estatais com capital aberto valiam praticamente meio trilhão de reais no final de 2010, valor similar ao de sete das principais empresas privadas do Ibovespa, de setores diferentes. Após os quatro anos de gestão Dilma, as três estatais valem menos da metade do que valiam, enquanto as privadas se valorizaram 40% no total, ultrapassando os R$ 700 bilhões de valor.

Dito de outra forma ainda, as três maiores estatais “compravam” quase a totalidade das sete grandes empresas privadas quando Dilma assumiu, e hoje não “comprariam” nem um terço das mesmas sete empresas:

Fonte: Bloomberg

Fonte: Bloomberg

A destruição de valor de nossas empresas estatais é impressionante. A politização de suas gestões, o grau de interferência do governo, a roubalheira, o uso delas para fins eleitorais, a incompetência administrativa, a falta de transparência, tudo isso tem feito o valor de nossosativos derreter nos mercados. Quem investiu sua poupança nas empresas estatais sob o comando de Dilma colheu apenas tragédia. E ainda vem mais quatro anos disso pela frente…

PS: E ainda tem gente que condena a privatização?

Rodrigo Constantino

Crianças brasileiras recrutadas para doutrinação na Venezuela

Soldado treinado desde criança para repetir slogans marxistas

Considero que há poucos crimes tão covardes como o de doutrinar ideologicamente crianças. Uma criança deveria aprender certos valores e princípios básicos, como a honestidade, a responsabilidade e a integridade, e ser estimulada a pensar sempre por conta própria.

Usar crianças como cobaias para lavagem cerebral e para criar um exército de soldados autômatos que obedecem uma cartilha produzida por um líder é de uma agressão revoltante.

Ao que tudo indica, é o que o governo venezuelano vem fazendo… com crianças brasileiras!  A ponto de o Ministério Público Federal em Goiás instaurar inquérito para apurar esse suposto recrutamento ilegal de crianças e adolescentes brasileiros pelo governo da Venezuela, para serem doutrinados a atuar na “revolução bolivariana”:

A ação contra a União é assinada pelo procurador da República Ailton Benedito. Ele diz que tomou a medida baseando em notícias veiculadas pela imprensa brasileira de que o vice-presidente setorial do Desenvolvimento do Socialismo Territorial da Venezuela e titular do Ministério das Comunas, Elías Jaua, leva adolescentes brasileiros para o país desde 2011.

No inquérito, consta ainda uma notícia veiculada no site do governo venezuelano de que 26 crianças e adolescentes participaram do treinamento no estado de Sucre das chamadas “Brigadas Populares de Comunicação”, com o intuito de moldá-los como “futuros jornalistas para servir o país”.

“Temos que saber em que condições, quem levou e quem autorizou a ida dessas pessoas até a Venezuela. Abrimos o inquérito justamente para apurar em que circunstâncias isso ocorreu, qual a idade dos envolvidos, de onde são e qual a real quantidade deles”, disse Benedito ao G1.

Isso é um absurdo! Se ficar comprovado que isso está mesmo acontecendo, uma reação contundente terá que partir da sociedade brasileira, para pressionar as autoridades por alguma medida mais enérgica que puna os envolvidos. Sem dúvida o governo venezuelano conta com cúmplices no Brasil. Quem manda crianças para esse tipo de coisa não tem empatia alguma pelo próximo, é um verdadeiro canalha. Que tipo de “jornalista” pode sair de um experimento desses?

PS: Não chega a ser grande novidade esse episódio, uma vez que sabemos que o MST já faz esse tipo de doutrinação com crianças aqui no Brasil, incutindo na cabeça desprotegida dos “sem-terrinha” todo tipo de mentira ideológica, como podemos ver nesse exemplo:

Rodrigo Constantino

Em um ano, 700 médicos cubanos fogem da Venezuela: são escravos da era moderna

O conto da Carochinha: Cuba é um país socialista com uma incrível solidariedade incutida na população, e por isso milhares de médicos participam de programas de trabalho em diversos países cobrando baixos salários, indo a locais bem pobres, e se mostrando inclusive mais “humanos” no atendimento aos pacientes.

Realidade: Cuba é uma cruel e assassina ditadura, cujo “senhor feudal” mantém milhões de escravos impedidos de sair da ilha, e em busca de mais divisas por conta da miséria socialista, resolveu exportar os escravos formados em medicina como se fossem mercadorias, embolsando até 90% dos ganhos.

Resultado: vários tentam desertar, mesmo sabendo dos riscos que isso representa para seus familiares que ficaram atrás, presos na ilha. Só esse ano na Venezuela foram 700 cubanos queresolveram fugir para os Estados Unidos, mesmo sabendo que dificilmente conseguirão revalidar seus diplomas por lá, pois as exigências são muito maiores e sua formação é precária, apesar da propaganda enganosa da qualidade da saúde cubana. Fogem para trabalhar como assistentes mesmo:

A crise econômica e a insegurança na Venezuela fizeram com o que o número de médicos cubanos que abandonaram seu trabalho – e viajaram para os Estados Unidos – duplicasse no último ano, atingindo a marca de 700 desertores. As informações são da ONG norte-americana Solidariedade Sem Fronteiras (SSF), com sede em Miami, que faz a assessoria de médicos que tentam se regularizar no país. Do total dos 5 mil funcionários da organização, 2.637 são médicos que vieram de Cuba.

Julio César Alfonso, presidente da SSF, é um deles. Aos 46 anos, vive nos EUA desde 2009, para onde foi como refugiado político. De acordo com Alfonso, a deserção vem aumentando em todo o mundo – entre setembro de 2013 e o mesmo mês de 2014, cerca de 1.100 médicos enviados por Havana para trabalhar em diversos países deixaram o emprego -, mas em nenhum lugar se compara à Venezuela.

— Até 2013, a média anual de deserções na Venezuela, onde atuam cerca de 30 mil médicos cubanos em programas sociais do governo, era de 300. Mas a falta de estabilidade financeira, econômica e política, principalmente depois da morte do presidente Hugo Chávez, afastou os médicos cubanos do país — disse, em entrevista por telefone ao GLOBO. — Nos últimos anos, quase 70 deles morreram na Venezuela. E a deserção vem crescendo também em países como Bolívia, Nicarágua e alguns da África.

[...] A situação é, de fato, muito difícil para eles. Trabalham até altas horas da noite e ganham muito pouco. Eles também são enviados para lugares onde não há segurança, onde nenhum médico quer ir. E não apenas na Venezuela, isto é um padrão em todas as partes do mundo.

O programa Mais Médicos, do governo Dilma, serve exatamente para isso: financiar a ditadura cubana do “companheiro” Castro, e mandar “médicos” para lugares em que poucos aqui aceitariam nessas condições propostas. Claro: não são escravos! Ao contrário dos pobres cubanos, que não têm escolha.

O governo brasileiro, portanto, está importando escravos em pleno século 21, e mascarando isso como “solidariedade socialista”. É um ultraje, um acinte. Desrespeita nossos médicos e nossos pacientes. E fere claramente as nossas leis trabalhistas. Sem falar da questão moral e ética desse acordo nefasto.

É, em todos os aspectos, um completo absurdo. Só posso torcer para que cada vez mais cubanos tentem fugir para países livres como os Estados Unidos, que não são cúmplices do regime que os escravizou. Peçam asilo na embaixada americana, cubanos! Lutem pela liberdade! Sinto vergonha, como brasileiro, de ter um governo que atua como capataz de escravos…

Rodrigo Constantino

 

Carlos Moore: a testemunha incômoda

Por Lucas Berlanza, publicado pelo Instituto Liberal

Poucas vezes a pertinência de todas as denúncias contra o espírito essencialmente antidemocrático, característico dos grupos esquerdistas radicais que buscam construir hegemonia na política nacional, fica tão bem demonstrada quanto nas oportunidades em que a vítima direta do ataque dos militantes não é um conhecido defensor de bandeiras conservadoras ou liberais clássicas, em sentido estrito, mas apenas alguém que se desvia ao menos um milímetro do que eles consideram a ortodoxia suprema do universo social. O sociólogo Demétrio Magnolli, que identifica a si mesmo como social democrata, e também a jornalista Miriam Leitão, que atuou no Partido Comunista do Brasil à época do regime militar – e não se esquivou de classificar figuras como Reinaldo Azevedo e Rodrigo Constantino na “direita hidrófoba” -, são exemplos interessantes de vítimas nesse grupo. Um registro importantíssimo se soma à lista: o do escritor cubano Carlos Moore. Importante o suficiente para ser repercutido aqui.

Na página do Correio Nagô, voltada para o movimento negro – do ponto de vista de nossos prezados socialistas, livre de suspeitas de “ranço reacionário”, portanto -, está a informação de que, ao participar de evento na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, no último dia 14 de outubro de 2014, o escritor foi hostilizado verbalmente por grupos marxistas enquanto discursava. O motivo? Quem não o conhecesse poderia alegar que se trata de um “reacionário racista” opressor dos fracos e oprimidos. Mas Carlos Moore é negro.

Não apenas negro. Ele esteve pessoalmente ao lado de figuras como Malcolm X, Cheik Anta Diop e Aimé Cesare. Todos figuras relacionadas à luta dos negros por direitos civis ou ao anti-colonialismo nacionalista africano, nenhum deles exatamente simpático às ideias da chamada “direita”. Moore é considerado referência internacional nos debates sobre a questão do racismo. Graduou-se como Doutor em Ciências Humanas e Etnologia na Universidade de Paris, na França. Foi marxista, sempre esteve na esquerda e enaltece a todo o momento a cultura africana. Não pesariam suspeitas sobre ele de estar “ao nosso lado”. No entanto, Moore cometeu o crime imperdoável. Ele criticou Karl Marx.

Cubano, ele apoiou o movimento revolucionário de Fidel Castro, mas fugiu posteriormente, exilando-se já há 15 anos no Brasil. Indignou-se com a realidade ditatorial que o país vive até hoje, que ele mesmo viveu diretamente na pele, e com as POLÍTICAS RACIAIS do tirano comunista. Sim, Moore acusa o governo de Castro de promover esse tipo de segregação – não apenas o tirano latino-americano, mas todo o marxismo clássico.

Seu livro “O Marxismo e a questão racial – Karl Marx e Friedrich Engels frente ao racismo e à escravidão”, é o pivô de toda essa confusão. Nele, lançado em 2010, o cubano fundamenta sua convicção de que, inseridos no contexto europeu do século XIX, os grandes mentores originais do Marxismo ecoavam ideias racialistas em sua produção teórica. Acreditavam que a revolução socialista necessariamente seria feita e conduzida pelos “brancos” e não votavam a outras etnias a mesma relevância. Para ele, na prática, o regime cubano repercutiu essa característica, mantendo os negros em posição de subalternidade em relação aos brancos, a despeito do que digam as propagandas oficiais.

Lê-se em seu livro:

“Marx e Engels nitidamente acreditavam que a raça era um dos fatores que influenciava a evolução social das sociedades humanas. Engels afirmou: ‘Vemos nas condições econômicas o que, em última instância, condiciona o desenvolvimento histórico. Por si mesma, no entanto, a raça é um fator econômico.’ (…)

Portanto, segundo Moore, a questão racial já estava no cerne do pensamento marxista desde a sua origem, como consequência, a princípio, da maneira porque essas teorias racialistas eram discutidas no contexto europeu, especialmente depois da publicação do Ensaio sobre a desigualdade das raças humanas (1853), do conde de Gobineau. Não haveria, pensamos nós, razão para condenar de todo as suas ideias se esse fosse o único problema. Deixando de lado, de momento, o fato de que falamos de figuras que enalteceram o ódio, a revolta e a dissensão das “classes sociais” como ferramentas de ação política, e que somente por isso já deveriam ser encaradas com a mais franca repugnância, entendemos que é relevante considerar o contexto histórico, e lembrar que muitos outros pensadores europeus daquela época discutiam a questão das “raças”. Isso era encarado com seriedade até em meios científicos – muito embora já existissem, então, vozes contrárias à discriminação e movimentos abolicionistas, nos países em que vigorava a escravidão de negros. Coube apenas ao século XX, vivendo os horrores da eugenia, do antissemitismo como política prática e do nacional-socialismo, combinados aos avanços irrefutáveis das pesquisas genéticas, demonstrar sem contestação possível os riscos e o erro crasso dessas concepções. Julgar quem escrevesse sobre o assunto naquele momento do mesmo modo por que se julga quem escreve hoje seria incorrer na falha do anacronismo.

No entanto, de acordo com as citações reproduzidas no texto do escritor, Marx e Engels iam além; eles também introduziram o problema do extermínio, tratando como algo inevitável o “holocausto revolucionário” das raças inferiores, e legitimaram a escravidão como um instrumento de progresso. Fica difícil enxergar essas consequências extremas com a mesma condescendência com que se poderia olhar certos outros autores daquele tempo que, sem rejeitar de pronto as teses de Gobineau, não iam tão longe em suas possíveis implicações práticas violentas.

Moore identifica, aliás, em diversos trechos, a desconsideração que Marx e Engels nutriam pelos eslavos. Isso é especialmente curioso porque, por ironia, foram os russos que promoveram a primeira revolução socialista de bases marxistas a ser bem-sucedida, implantando a União Soviética. Ele conclui:

“A alegação marxista atual de que as noções de superioridade alemã e anglo-saxônica foram principalmente obra de teóricos do Terceiro Reich dificilmente se justifica com essas citações dos próprios fundadores do Marxismo. Fica evidente, então, que até mesmo em relação a povos arianos, o ‘internacionalismo’ de Marx e Engels restringia-se a uma postura essencialmente germânica.”

Moore relaciona, para apoiar sua argumentação, várias circunstâncias em que conflitos de outros povos, como árabes e mexicanos, foram tratados com desdém pelos fundadores do “socialismo científico” – justo eles, que tanto arvoraram a bandeira da revolução popular. Defenderam os Estados Unidos no confronto com o México – sim, quem diria? – e a conquista francesa dos argelinos como fatos importantes para o “progresso da civilização”, alegando Engels em artigo de 15 de fevereiro de 1849 para o Neue Rheinische Zeitung, citado no livro, que “sem violência, nada pode ser realizado na história”.

O que se vê sustentado na obra de Moore, em resumo, é que, pasmem os que o ignoram, Marx e Engels defendiam o tão temido “imperialismo”! Defendiam que as nações poderosas do Ocidente dominassem e colonizassem outras, como a Índia; no resumo do escritor cubano, “a carnificina e a pilhagem fora da Europa seriam a base para o desenvolvimento vertiginoso, no Ocidente, do capitalismo industrial e da classe de trabalhadores assalariados. Por sua vez, isso levaria à revolução e, enfim, ao Socialismo. Eles pouco se importavam com as consequências do imperialismo ocidental para suas vítimas não ocidentais.”

Uma esquerda mais recente, baseando-se em autores mais modernos como Gramsci, Foucault e a Escola de Frankfurt, ajustou suas estratégias a um modelo mais eficaz nos novos tempos. Ela passou a instrumentalizar as chamadas “minorias” na intenção de, dividindo a sociedade em grupos hostis uns aos outros, criar o tipo de atmosfera que favorece sua ascensão e consolidação no poder. Uma situação que era realmente dolorosa, sendo inegável a existência do racismo e da longa história de escravidão na América, passou a ser capitalizada por quem não está realmente interessado em excluir da face da Terra essa notória estupidez, mas sim em perpetuar a cisão como capital político a ser explorado. Essa esquerda não tratará negros e afro-descentes como “racialmente degenerados”, mas promoverá insistentes ações afirmativas e rebuliços contrários à consagração pelo mérito; na prática, agirá sempre como se eles fossem incapazes e necessitados da “caridade” forçada do governo, o que soa indigno de suas condições como seres humanos, merecendo consideração igual à de todos os outros, independente da cor de pele.

No entanto, apesar dessa reforma do pensamento da própria esquerda, realizada mais pelos imperativos do tempo que por altruísmo, alguns de seus defensores ainda parecem se incomodar com qualquer crítica mais aguda aos pais do Marxismo ortodoxo – embora este siga contando, diga-se de passagem, com uma adesão quase integral entre partidos de orientações trotskystas e leninistas. Esses esquerdistas parecem extremamente dependentes de seus antigos referenciais simbólicos, não sendo capazes de identificar as próprias contradições entre eles e as bandeiras que dizem defender – ou cinicamente fingindo que essas contradições não existem.

Carlos Moore não é um “homem da direita”; sua vida prova isso. Inclusive, no desfecho de seu livro, ele considera que as análises marxistas têm um valor positivo nas críticas formuladas ao capitalismo – valor esse que, particularmente, nós não reconhecemos.  Ele é simplesmente alguém que não deseja mais compactuar com totalitarismos assassinos, de qualquer espécie. Simplesmente alguém que mostrou, com documentação, o que realmente pensavam os ideólogos socialistas do século XIX. Um crime imperdoável, uma presença incômoda, para os comunistas que o atacam. Um testemunho precioso, para os democratas de todos os matizes, por ser insuspeito, difícil de ser descontruído pelo outro lado, e por ter sido vítima direta da nefasta ditadura cubana. Vale conferir sua entrevista ao Correio Nagô e ler seu livro. A verdade não pode ser calada para sempre, por mais esforço que façam os inimigos da livre expressão.

(por Rodrigo Constantino)

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Blog Rodrigo Constantino (VEJA)

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2 comentários

  • Deocleciano Pentello Goiânia - GO

    Torço para que neste atual governo os bandidos que SEMPRE roubaram a Petrobrás sejam presos, pois não sejamos ingênuos de acreditar na conversa pra boi dormir da revista Veja de que essa picaretagem toda surgiu agora. Sempre existiu. Sobre o Brasil se tornar uma Venezuela, melhor falarmos do papai Noel. Cada um acredita na besteria que quiser.

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  • JURANDIR MONTANHER NOVA LONDRINA - PR

    POR ISSO SOU FAVOR A PENA DE MORTE NO PAIS!

    TAMANHA SAFADEZA E ISSO VAI DAR EM UMA BELA ALIANÇA POLITICA E NÓS QUE PAGAMOS POR ISSO NÃO VEMOS COMPETÊNCIA ALGUMA NA CLASSE, OU SEJA SÃO TOADOS FARINHA DO MESMO SACO.

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