A queda de “gigantes”: Eike Batista e Lula tomam chá de sumiço...

Publicado em 18/09/2014 06:29 e atualizado em 19/09/2014 17:09 2161 exibições
por Rodrigo Constantino, de veja.com (+ Fernando Dantas, de O Estado de S. Paulo)

A queda de “gigantes”: Eike Batista e Lula tomam chá de sumiço

Eike Batista e Lula: arrogância fatal

Por onde andam Lula e Eike Batista? Há mais semelhanças entre ambos do que se poderia imaginar em um primeiro olhar. Os dois são filhos do mesmo fenômeno, um na política e o outro na economia. Os dois se julgaram mais poderosos e brilhantes do que são em suas respectivas áreas. Os dois se deixaram levar pela extrema arrogância. E agora, os dois saem de fininho de cena, tentam se manter enclausurados, resguardados das crises que os engoliram e expuseram suas reais fraquezas.

Eike, o “Midas”, teve seus bens bloqueados, e agora alega ter um patrimônio negativo de R$ 1 bilhão! Réu em ação penal, acusado de manipular as ações do grupo, ele luta para preservar alguma parte da fortuna que já teve, fruto da bolha Brasil. Sobre sua situação delicada de hoje, Eike disse: “Fui educado como um jovem de classe média. E a gente não perde isso”. Mas quem observava o empreendedor nos anos de euforia não via nada disso. Humildade e pé no chão eram coisas que passavam longe do arrogante que seria o “homem mais rico do mundo”, sem saber apenas se passaria Carlos Slim e Blll Gates pela esquerda ou pela direita.

Já Lula, o carismático “gênio” da política, andou bem sumido, e resolveu aparecer na Petrobras, com um macacão laranja como o da estatal, para um comício chapa-branca escancarado. A ideia era realizar um “abraço” simbólico em torno do prédio da empresa, mas pela quantidade minguada de “militantes” (essa gente é paga para estar ali), não deu nem para um aperto de mão. Lula não consegue mais encher comícios como antes. As pessoas cansaram dele. E de seus postes, então, nem se fala! Como já disse aqui, Lula vai conseguir destruir o PT e apagar todos os postes que acendeu com a ajuda da bolha Brasil.

Em julho de 2013, escrevi para o GLOBO um artigo fazendo um paralelo entre ambos. Vale reproduzi-lo aqui, quando a queda dos dois “gigantes” parece cada vez mais evidente e inevitável:

A queda

Eike Batista está para a economia como Lula está para a política. O “sucesso” de ambos, em suas respectivas áreas, tem a mesma origem. Trata-se de um fenômeno bem mais abrangente, que permitiu a ascensão meteórica de ambos como gurus: Eike virou o Midas dos negócios, enquanto Lula era o gênio da política. Tudo mentira.

Esse fenômeno pode ser resumido, basicamente, ao crescimento chinês somado ao baixo custo de capital nos países desenvolvidos. As reformas da era FHC, que criaram os pilares de uma macroeconomia mais sólida, também ajudaram. Mas o grosso veio de fora. Ventos externos impulsionaram nossa economia. Fomos uma cigarra que ganhou na loteria.

A demanda voraz da China por recursos naturais, que por sorte o Brasil tem em abundância, fez com que o valor de nossas exportações disparasse. Por outro lado, após a crise de 2008 os principais bancos centrais do mundo injetaram trilhões de liquidez nos mercados. Isso fez com que o custo do dinheiro ficasse muito reduzido, até negativo se descontada a inflação.

Desesperados por retorno financeiro, os investidores do mundo todo começaram a mergulhar em aventuras nos países em desenvolvimento. Algo análogo a alguém que está recebendo bebida grátis desde cedo na festa, e começa a relaxar seu critério de julgamento, passando a achar qualquer feiosa uma legítima “top model”.

Houve uma enxurrada de fluxo de capitais para países como o Brasil. A própria presidente Dilma chegou a reclamar do “tsunami monetário”. Os investidores estavam em lua de mel com o país, eufóricos com o gigante que finalmente havia acordado. Havia mesmo?

O fato é que essa loteria permitiu o surgimento dos fenômenos Eike Batista e Lula. Eike, um empresário ousado, convenceu-se de que era realmente fora de série, que tinha um poder miraculoso de multiplicar dólares em velocidade espantosa, colocando um X no nome da empresa e vendendo sonhos.

Lula, por sua vez, encantou-se com a adulação das massas, compradas pelas esmolas estatais, possíveis justamente porque jorravam recursos nos cofres públicos. A classe média também estava em êxtase, pois o câmbio se valorizava e o crédito se expandia. Imóveis valorizados, carros novos na garagem, e Miami acessível ao bolso.

O metalúrgico, que perdera três eleições seguidas, tornava-se, quase da noite para o dia, um “gênio da política”, um líder carismático espetacular, acima até mesmo do mensalão. Confiante desse poder, Lula escolheu um “poste” para ocupar seu lugar. E o “poste” venceu! Nada iria convencê-lo de que isso tudo era efeito de um fenômeno mais complexo do que ele compreendia.

Dilma passou por uma remodelagem completa dos marqueteiros, virou uma eficiente gestora por decreto, uma “faxineira ética”, intolerante com os “malfeitos”. Tudo piada de mau gosto, que ainda era engolida pelo público porque a economia não tinha entrado na fase da ressaca. O inverno chegou.

O crescimento chinês desacelerou, e há riscos de um mergulho mais profundo à frente. A economia americana se recuperou parcialmente, e isso fez com que o custo do capital subisse um pouco. Os ventos externos pararam de soprar. Os problemas plantados pela enorme incompetência de um governo intervencionista, arrogante e perdulário começaram a aparecer.

A maré baixou, e ficou visível que o Brasil nadava nu. O BNDES emprestou rios de dinheiro a taxas subsidiadas para os “campeões nacionais”, entre eles o próprio Eike Batista. O Banco Central foi negligente com a inflação, que furou o topo da meta e permaneceu elevada, apesar do fraco crescimento econômico. Os investidores começaram a temer as intervenções arbitrárias de um governo prepotente, e adiaram planos de investimento.

A liquidez começou a secar. O fluxo se inverteu. E o povo começou a ficar muito impaciente. Eike Batista se viu sem acesso a novos recursos para manter seu castelo de cartas. As empresas do grupo X despencaram de valor, sendo quase dizimadas enquanto as dívidas, estas sim, pareciam se multiplicar. A palavra calote passou a ser mencionada. O BNDES pode perder bilhões do nosso dinheiro.

Já a presidente Dilma, criatura de Lula, mergulhou em seu inferno astral. Sua popularidade desabou, os investidores travaram diante de tantas incertezas, e todos parecem cansados de tamanha incompetência.

Eike e Lula deveriam ler Camus: “Brincamos de imortais, mas, ao fim de algumas semanas, já nem sequer sabemos se poderemos nos arrastar até o dia seguinte”.

Rodrigo Constantino

Nas entranhas do poder com um “nobre” deputado

Márlon Reis e seu livro: a podridão do sistema

Os políticos não gozam de credibilidade alguma no país, apesar de muitos ainda depositarem no estado – formado pelos políticos – uma grande esperança para a solução de nossos problemas, muitos criados pelo próprio estado. Mas sempre há os mais românticos, aqueles que acham que basta “vontade política” e tudo ficará bem. Não conhecem os meandros da politicagem em nosso país, onde não se faz mais Política com P maiúsculo há muito tempo, mas apenas negociatas com a coisa pública, transformada em “cosa nostra”.

Para os últimos dos românticos, recomendo a rápida leitura de O nobre deputado, de Márlon Reis, juiz de Direito e um dos articuladores da coleta de assinaturas para a lei do Ficha Limpa. Trata-se de um relato verdadeiro, ainda que com nomes trocados, de quem conhece o sistema de dentro, com todos os seus podres e o que é preciso para entrar e sobreviver nele. Não há nada que chegue a surpreender aqueles mais céticos ou atentos, mas ainda assim é chocante, pela naturalidade com a qual o relato discorre em detalhes, de quem parece crer efetivamente que é assim que a banda toca e ponto final.

O resumo da ópera bufa é que o resultado das eleições depende de dinheiro, pois os votos são comprados. Quem paga mais, leva. É simples assim. O autor entrevistou mais de um político, e os relatos foram convergentes. Ele reconhece que não é possível dizer quanto o modelo se repete Brasil afora, mas está convencido “de que as entrevistas desvendam o comprometimento do Congresso Nacional e das Assembleias Legislativas com uma gigantesca máquina que vicia todo o processo eleitoral no Brasil de forma assustadoramente eficiente”.

Os novatos que chegam cheios de esperança para mudar o sistema e agir totalmente conforme as regras são ou cooptados ou cuspidos pelo próprio sistema. Se para vencer uma eleição para deputado federal é preciso gastar alguns milhões de reais, não há como evitar a adesão ao sistema, pois como seria possível financiar a campanha de outra forma? Raros são os casos dos que conseguem por outras vias se eleger.

Usar os recursos públicos para garantir fundos para a corrida eleitoral se torna, portanto, parte natural do “negócio”. As emendas parlamentares representam o primeiro instrumento usado. Ao definir o orçamento, os deputados já fixam as verbas que irão parar nas entidades amigas que, como contrapartida, bancaram o “investimento”. As prefeituras alinhadas recebem mais verbas, evidentemente. O deputado que ajudou a destinar a verba costuma ficar com 20% de comissão, no mínimo. Quem não se adapta tem grandes chances de perder as eleições.

As obras públicas são, por motivos óbvios, o grande filão. Não por outro motivo as empreiteiras são as maiores doadoras de campanha. O retorno ocorre pelo superfaturamento das obras, pelo uso de material de pior qualidade, aditivos, etc. O mais curioso é o resquício de autoengano dos entrevistados, reunidos no personagem Peçanha, que unifica as falas todas. Apesar de todo o cinismo ou realismo ao descrever como as coisas funcionam, há espaço para a crença de que, no final das contas, o sistema não prejudica a população:

Ganha também o eleitor. É sempre melhor ter uma estrada ruim do que nenhuma estrada. Se não fosse assim, não seria feita qualquer obra de pavimentação. Quem batalharia por elas? Claro que ninguém faria isso só por bom-mocismo ou, pior ainda, por conta desse salarinho de nada que o governo nos paga. Então, concordamos que o eleitor lucra com esse sistema.

A premissa embutida no raciocínio é a de que os recursos públicos caem do céu ou brotam nas árvores. Ignora-se que o eleitor é quem paga por eles. Ou seja, sem tanta arrecadação por parte do governo para depois decidir como gastar, esses recursos ficariam com a própria iniciativa privada, com o próprio indivíduo, e teria um uso bem mais eficiente. Mas até os canalhas precisam se olhar no espelho com maior aceitação de que não são inteiramente canalhas…

Além das emendas parlamentares, há os convênios, ou seja, destinar dinheiro público para entidades prestadores de serviço. Muitas vezes eles nem existem, são empresas de fachada, com laranjas, só para justificar a transferência dos recursos. Em relação às emendas, a vantagem do convênio é que a fiscalização é mais frouxa e o volume de recursos envolvido é maior. A farra das ONGs, que recebem repasses bilionários do governo, ignorando a letra N na sigla, entra nesse esquema.

Uma terceira forma de garantir as verbas necessárias para a disputa eleitoral está nas licitações viciadas. “Nunca ouvi falar de uma licitação que tenha sido conduzida de forma a contratar o melhor projeto”, atira nosso “nobre” deputado Peçanha. Tudo é devidamente combinado antes, inclusive com rodízio de empresas que participam do esquema. Tudo feito sob medida para tirar recursos do pagador de impostos e transferi-lo ao financiador da campanha. Muitas vezes tudo ocorre dentro da perfeita legalidade e formalidade, o que dificulta bastante o trabalho de fiscalização.

Por isso é muito duro transformar o modelo. Todos os envolvidos lucram muito com ele. Esse é o sistema. E quem poderia mudar o sistema quando somos nós, os deputados federais, que definimos as regras eleitorais às quais nós mesmos nos submetemos? Temos a chave do galinheiro.

Mas como Peçanha esfrega em nossa cara, nada disso se sustentaria sem a conivência do próprio eleitor. Quando cada um deseja alguma vantagem do governo, alguma fila furada, um auxílio das autoridades, uma agilizada num processo, e adere ao “jeitinho brasileiro”, está endossando indiretamente esse modelo. Todos ou quase todos querem manter certa proximidade com o governo, e isso vale desde o mais pobre ao mais rico. Os políticos são vistos como aqueles capazes de “resolver nossos problemas”, e se isso acontecer, fecha-se os olhos para como tudo se dá. Ele dispara:

Chegamos ao ponto crucial desta história toda. De nada valeriam as emendas parlamentares, as licitações arranhadas, os convênios fraudulentos e todos os esquemas que temos para desviar dinheiro para a campanha se não houvesse eleitores dispostos a vender seus votos. Não adianta xingar sete gerações da família de um político, eleitor vendido, quando você sabe muito bem o papel que desempenha no sistema. Você é um hipócrita, não existe outra palavra para defini-lo.

E dá para negar? O velho voto de cabresto não morreu. Sofisticou-se! E atinge várias camadas da população. É muita gente envolvida no esquema. Por isso é tão complicado mudá-lo. Mexe-se com muitos interesses poderosos em jogo. É realmente difícil conhecer melhor as entranhas do poder e não sair cético, ou mesmo cínico. Tal postura acaba por beneficiar os piores dos políticos, ao jogar todos no mesmo saco podre, e pode propiciar aventuras contra a própria democracia, contra o “sistema”.

Mas se por um lado isso tudo gera mais pessimismo, por outro permite alguma esperança. Não de uma solução, pois isso não existe, nem nos países mais ricos. E sim para melhorar a podridão. O próprio relato ajuda nesse sentido, a expor o estágio de putrefação em que chegou nossa política. Além disso, o mecanismo de pesos e contrapesos deve funcionar. A imprensa independente, como fica claro, é um importante entrave aos abusos, servindo para jogar um pouco de luz em partes sombrias do poder.

E a principal mudança, creio eu, deve ser a cultural. Se entendemos como funciona na prática o mundo da política, o uso dos recursos públicos, então só há uma saída: reduzir drasticamente o escopo do estado. A postura do brasileiro médio beira a esquizofrenia, ao detonar políticos, mas delegar ao governo o poder para a solução de nossos males. A mentalidade de que basta colocar as “pessoas certas” lá denota bastante ingenuidade, e o livro de Márlon Reis explica claramente o motivo.

Reduzir o papel do estado, descentralizar o poder (federalismo e voto distrital), privatizar as estatais, preservar a imprensa independente, separar bem os poderes e combater a impunidade, essas parecem as melhores medidas para impedir que o câncer se alastre ainda mais. Financiamento público de campanha (que já existe), reforma política com Constituinte, conselhos populares e messias salvador da Pátria, essas parecem apenas táticas para erguer uma cortina de fumaça e preservar ou até piorar o modelo atual.

Rodrigo Constantino

 

NO ESTADÃO, artigo de FERNANDO DANTAS:

A campanha e o fosso entre PT e mercado

A partir de 2006, PT inflamou retórica nas campanhas em temas econômicos, tornando-se refém das suas própriras críticas às privatizações e, agora, à política monetária autônoma.

As campanhas eleitorais para presidente têm contribuído para aumentar o fosso entre investidores e mercado financeiro, de um lado, e os governos petistas, do outro. Curiosamente, é o inverso do ocorrido quando Luiz Inácio Lula da Silva chegou pela primeira vez ao governo, em 2002.

Naquela campanha, Lula começou como o pavor do mercado e terminou como grande esperança de que o Brasil houvesse superado definitivamente a etapa do populismo econômico de estilo latino-americano. No meio do caminho, houve uma crise gravíssima de confiança, o dólar a R$ 4, a Carta ao Povo Brasileiro e um acordo de emergência com o FMI apoiado por todos os candidatos, o do PT inclusive.

Com o início do primeiro mandato de Lula e a política econômica de Palocci de continuidade a aprofundamento das reformas tucanas, junto com uma agressividade inédita na política social, a ideia era de que o País tinha dado um salto institucional enorme. A esquerda havia chegado ao poder e estava fazendo o que cabe à esquerda fazer, isto é, priorizar os pobres, sem desorganizar a economia.

Com o mensalão e a substituição de Palocci por Mantega na Fazenda, esse quadro começou a mudar, mas de início poucos acharam que a política econômica fosse ser fundamentalmente alterada. Muito se fala da crise global, e do espaço que criou para o expansionismo keynesiano, como o momento em que o vento virou definitivamente de lado. E é indubitável que o sucesso imediato do experimento anticíclico da época subiu à cabeça da equipe econômica e pode ter sido uma das causas da “nova matriz” posteriormente tentada.

Um fator que chama menos a atenção são as campanhas eleitorais e a o impacto do discurso de palanque nas posteriores ações do governo. Em 2006, num momento difícil, o PT descobriu o valor eleitoral de atacar as privatizações, mesmo que o próprio partido já tivesse experiências (como a de Palocci em Ribeirão Preto) com o conceito e a época áurea da sua demonização já estivesse no passado, junto com as diatribes contra a responsabilidade fiscal, os juros da dívida interna e outros vilões de outrora. Em 2010, o partido voltou à carga contra a privatização.

Essas ações de campanha acabaram por influenciar a posterior ação do governo. Era preciso agora evitar a todo custo o rótulo de “privatizante”, e isso é um dos fatores que levou à grande demora de Dilma (que, na verdade, ainda dura) em estruturar um programa de concessões em infraestrutura bem sucedido. Este erro, que é reconhecimento internamente por algumas correntes mais liberais do PT, está ligado à enorme frustração da taxa de investimentos no governo Dilma. Isto, por sua vez, pode explicar parte do mau desempenho do PIB.

Na área macroeconômica, uma das dificuldades com as quais a presidente lidou durante o seu primeiro mandato foi a sensação generalizada do fim da autonomia operacional informal do BC de que gozaram Armínio Fraga e Henrique Meirelles, predecessores de Alexandre Tombini. O discurso oficial, ainda que discreto, era de que a autonomia estava mantida, mas a sensação era de que havia ordens que iam direto do Planalto para o Copom.

Agora, com a proposta de Marina de tornar legal a autonomia do BC, os marqueteiros petistas enxergaram a possibilidade de reeditar o sucesso da demonização da privatização em outra área normalmente atribuída ao “neoliberalismo”. Os ataques absurdos – não à autonomia legal em si, mas à ação do BC de maneira geral, que, deixado a si mesmo, defenderia de forma maléfica e deliberada os interesses do setor financeiro contra os da população – devem, como no caso da privatização, condicionar as ações e as percepções num eventual segundo mandato de Dilma Rousseff.

“A campanha escancarou o que era visto como simples desconfiança, e agora eu vejo muita gente no mercado em pânico com o que pode ser a condução da política macroeconômica num segundo mandato da presidente”, diz um experiente economista-chefe de uma gestora de recursos.

Qualquer que seja o BC de um segundo mandato de Dilma, ele já partirá de uma posição extremamente fragilizada pelo que é percebido como perda de autonomia da política monetária a partir de 2011. Com o discurso de campanha demonizando a ação independente do PT, resgatar a credibilidade da autoridade monetária parece uma tarefa virtualmente impossível caso Dilma seja reeleita.

Cai mais um mito fundamental do PT: a desigualdade aumentou nos últimos anos!

Os milionários estão rindo à toa com Dilma e Lula, inclusive o próprio Lula

Não gosto do foco obsessivo de muitos na questão da desigualdade, e por motivo bem simples: o que importa é o nível absoluto de miséria, a qualidade de vida dos mais pobres, não a relação entre eles e os mais ricos. Afinal, ao contrário do que pregam os marxistas, economia não é jogo de soma zero, onde João é rico porque Pedro é pobre. João e Pedro podem melhorar de vida juntos, o que normalmente acontece sob o capitalismo de livre mercado.

Dito isso, a desigualdade parece ser a prioridade para a esquerda, especialmente para o PT. Incapaz de criar um ambiente propício ao crescimento econômico, tendo produzido apenas um quadro de estagflação, o governo Dilma apelou para a bandeira da redução da desigualdade, citada com ênfase ontem mesmo, no debate da CNBB. Mas é mentira!

Como mostrou a excelente reportagem de Ana Clara Costa na Veja nesta terça, o que aumentou nos últimos anos foi a concentração de renda! É mais um mito – um fundamental mito para a campanha petista – que vem abaixo. Eis o que mostra a estatística do Ipea, que ninguém dirá trabalhar contra os interesses do governo, tanto que esconde o resultado:

Está engavetado no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) um estudo inédito que mostra uma realidade bem diferente da que vem sendo pregada pelo PT na campanha eleitoral de Dilma Rousseff. O documento, ao qual o site de VEJA teve acesso, mostra que a concentração de renda aumentou no Brasil entre 2006 e 2012. Dados do Imposto de Renda dos brasileiros coletados por pesquisadores do Instituto mostram que os 5% mais ricos do país detinham, em 2012, 44% da renda. Em 2006, esse porcentual era de 40%. Os brasileiros que fazem parte da seleta parcela do 1% mais rico também viram sua fatia aumentar: passou de 22,5% da renda em 2006 para 25% em 2012. O mesmo ocorreu para o porcentual de 0,1% da população mais rica, que se apropriava de 9% da renda total do país em 2006 e, em 2012, de 11%. Os dados referentes a 2012 correspondem aos mais recentes apurados pela Receita Federal.

[...] A principal conclusão do estudo é que a concentração de renda entre a parcela mais endinheirada, segundo os dados tributários, é muito superior àquela verificada nos dados revelados pelos brasileiros ao recenseadores do IBGE, sem que haja qualquer tendência de queda. Entre 2006 e 2008, por exemplo, ano em que as políticas de transferência do governo eram alardeadas por Lula, houve o maior aumento de concentração de renda na fatia de 1% mais ricos. O mesmo salto ocorreu entre 2010 e 2011.

[...] Os dados do Ipea são significativos porque contrastam com a retórica de antagonismo à elite e aos bancos exibida pelo PT durante a propaganda eleitoral. Num Brasil onde os ricos ficaram mais ricos, o discurso do partido mostra-se artificial. Há cerca de duas semanas, ao ver sua candidatura ameaçada pela ex-senadora Marina Silva (PSB), que havia disparado nas pesquisas de intenção de voto, a presidente Dilma Rousseff vem lançando mão de ataques à rival. Sua estratégia preferida tem sido dizer que, se Marina ganhar, dará independência ao Banco Central — o que, na cartilha petista, significa entregar o país a banqueiros que, segundo imagens exibidas na TV, tirarão não só os empregos dos brasileiros, como também a comida de suas mesas.

Ao tratar os tais 1% dos mais ricos como um grupo estanque, esses economistas seguidores de Thomas Piketty cometem um grave erro. Pode haver mobilidade nas camadas dos mais ricos, nomes tradicionais podem sair com o tempo, e raramente lembramos de famílias abastadas que permanecem nessa situação por várias gerações.

Quanto mais liberdade econômica, mais verdade há na máxima “avô rico, filho nobre e neto pobre”. Não é fácil manter a herança em um mundo competitivo. Sem investir na competitividade, novos concorrentes logo desbancam impérios estabelecidos. Mas é bem mais fácil mantê-la ou expandi-la em um ambiente de capitalismo de estado ou de laços, análogo ao feudalismo.

Em simbiose com o estado, esses grandes grupos conseguem erguer barreiras que dificultam a competição e garantem seus privilégios. É exatamente o que o PT vem fazendo. Subsídios do BNDES, barreiras protecionistas, isenções pontuais, seleção de “campeões nacionais”, tudo isso leva ao aumento da concentração de renda, e da pior forma possível, pois não há meritocracia. É a “amizade com o rei” que vale mais. Por que outro motivo o grupo JBS doaria mais de R$ 100 milhões para as campanhas?

O BNDES talvez seja o maior instrumento de concentração de renda do Brasil, e ele aumentou muito de escopo durante a gestão do PT, chegando a desembolsos anuais na casa dos R$ 200 bilhões. Aécio Neves já declarou: se vencer, acaba o “Bolsa Empresário”. É esse o caminho se quisermos retirar os entraves para o livre funcionamento da economia, para que possa prevalecer a meritocracia, a justa remuneração pela eficiência.

O PT de Dilma não foi capaz de produzir mais riqueza, apenas muita corrupção, mais inflação e, agora sabemos, mais concentração de riqueza também. Não resta mais bandeira alguma ao partido. Apenas as mentiras…

Rodrigo Constantino

Política como pura negociata está exposta: o começo da cura

dilma friboi

Metade das doações de R$ 1 bilhão para as campanhas eleitorais vem de apenas 19 empresas. É a informação divulgada pelo Estadão hoje. Sozinho, o maior deles, o Grupo JBS, doou até agora R$ 113 milhões, ou 11% do total doado. Dona de marcas como Friboi, Swift e Bertin, o grupo tem outras empresas que também doaram, como Seara e Flora Higiene-Limpeza. O PT foi o partido que mais recebeu da JBS por enquanto: R$ 28,8 milhões – ou 1 de cada 4 reais doado pela empresa.

Como uma empresa pode doar, sozinha, mais de R$ 100 milhões para candidatos? Quando lembramos que a JBS tinha um tamanho há alguns anos, e hoje tem um múltiplo de dez desse tamanho, graças às benesses estatais, como os subsídios do BNDES, fica mais fácil compreender os motivos. Siga o dinheiro, como diria o detetive.

Os bancos, que agora são demonizados pela campanha do PT, também são grandes doadores, e o PT é o maior agraciado. Não apenas os grandes bancos de varejo, mas bancos de investimento, como o de André Esteves, participam do financiamento em peso. O BTG Pactual e sua administradora de recursos doaram R$ 17 milhões e estão em décimo lugar na classificação geral. PT e PMDB foram os beneficiários de quase 80% desse dinheiro. Esteves deve ter tido algum sonho otimista com petistas…

Segunda colocada no ranking dos maiores contribuintes com os políticos, a Construtora OAS acumula R$ 66,8 milhões em doações. O PT ficou com quase metade desse dinheiro, ou R$ 32 milhões. Os sócios da OAS saíram do anonimato para a lista de bilionários da revista Forbes em pouco tempo. É a construtora do PAC, uma das que mais cresceram com contratos com o governo.

As construtoras estão expostas pelo escândalo da Petrobras também, denunciadas pelo ex-diretor Paulo Roberto Costa como parte do grande esquema de desvio de recursos. A relação é de total simbiose com o estado. Estima-se em R$ 10 bilhões os desvios na estatal.

Há um risco nas informações disponíveis que comprovam que a política virou apenas um grande negócio: a perda total da fé no processo democrático, não como algo perfeito, o que é impossível quando se trata de seres humanos, mas como um método pacífico de eliminar divergências e avançar na construção de uma sociedade livre e próspera.

Mas há também uma oportunidade: o começo de um processo de desintoxicação, justamente por derrubar antigas fantasias românticas. É a visão otimista que o jornalista Carlos Alberto Di Franco traz em sua coluna de hoje no Estadão:

Indignação? Desencanto? É óbvio. O macroescândalo da Petrobrás promete. O mensalão vai parecer um berçário. O Brasil está piorando? Não. Está melhorando. A exposição da chaga é o primeiro passo para a cura do doente. Ao divulgar as revelações do ex-diretor da Petrobrás, a imprensa cumpre relevante papel: impede que o escândalo fique na gaveta de uma CPI do Congresso. Tem gente que não gosta do trabalho da imprensa. O ministro Gilberto Carvalho, por exemplo, ensaiou uma lição de ética jornalística ao criticar o vazamento do depoimento de Costa: “Vazamento sempre é condenável, porque pode ter sido por advogado de réu para proteger algum réu e prejudicar outro”. E quando o vazamento é feito pelo PT, prática recorrente, tudo bem? A imprensa existe para divulgar informações relevantes. E alguém duvida da importância das revelações de Costa?

Há razões para otimismo? Creio que sim. A Lei da Ficha Limpa começa a dar os primeiro frutos. Paulo Maluf (PP-SP) e José Roberto Arruda (PR-DF), entre outros, podem estar fora das próximas eleições. A promiscuidade entre políticos e empresas parece estar com os dias contados. O Supremo Tribunal Federal, provavelmente, votará pelo fim das doações de empresas na ação movida nesse sentido pela OAB.

A imprensa de qualidade, livre e independente, está aí. Incomodando. Felizmente. Leia jornais. Informe-se. Acredite no Brasil, não em salvadores da pátria. E vote bem. O caminho é longo. Mas vale a pena.

Só não compartilho desse otimismo com a proibição de financiamento de empresas, pois sabemos que ele irá continuar por baixo dos panos, para o caixa dois dos candidatos, o que já ocorre. Mas espero que ele esteja certo quanto ao despertar dos eleitores, cientes cada vez mais das negociatas entre os políticos que falam em nome do povo e as grandes empresas que os financiam de olho no retorno monetário.

Jogando luz sobre tais relações promíscuas, papel fundamental da imprensa independente, teremos alguma chance de, com o tempo, educar melhor o eleitor e fazer com que haja menos romantismo boboca e vítimas da retórica sensacionalista.

Rodrigo Constantino

 

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Blog Rodrigo Constantino (VEJA)

1 comentário

  • Paulo Roberto Rensi Bandeirantes - PR

    Sr. João Olivi, a possível mudança contada aos quatro ventos por 11 entre 10 candidatos, tem absconso uma verdade, revelada por esta frase:

    “OS VIVOS SÃO E SERÃO SEMPRE, CADA VEZ MAIS, GOVERNADOS PELOS MAIS VIVOS”.

    Esta frase é de Apparício Torelly, jornalista, escritor e pioneiro no humorismo brasileiro, falecido em Novembro de 1971. Foi mais conhecido pelo seu falso titulo de nobreza “BARÃO DE ITARARÉ”.

    BRAZIL*, PAÍS RICO... DE “FALSIDADES” !!

    ....”E VAMOS EM FRENTE” ! ! !....

    (*)- O “ZÊ” traz absconso a ZORRA deste BRAZIL !

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